Voltar ao início

Domingo, 11 de Novembro de 2007

Ecumenismo no Brasil

, PORTO ALEGRE, Brasil, Novembro 13, 2005

Dom Dadeus Grings, Arcebispo Católico de Porto Alegre é um ativista do movimento ecumênico e Taxi Heathrow Airport do diálogo inter-religioso. Com seus modos tranquilos e sem discursos, já compareceu à Sinagoga e abriu a palavra para representantes de várias religiões cristãs durante a missa em homenagem ao Papa João Paulo II, em abril de 2005.

Embora a Igreja Católica Apostólica Romana não seja membro do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), ele garante ter nenhum constrangimento em participar dos preparativos da  nona Assembléia do Conselho, que se realiza de 14 a 23 de fevereiro, em Porto Alegre. Mesmo porque, lembra, foi um dos criadores do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), nos anos 70.

Para Dom Dadeus, esta união de católicos e cristãos de outras confissões no Brasil é uma consequência da pluralidade cultural e ao mesmo tempo da violência. “Houve necessidade dos que tem fé fazer algo em comum. A fé, sem obras, é morta”, afirma.

O ecumenismo no Brasil tem uma caminhada singular, com participação da Igreja Católica no Conselho Nacional de Igrejas do país, o que é pouco frequente no resto do mundo. Qual é a razão?

Nós vivemos em uma sociedade plural com muitas concepções diferentes. Ao mesmo tempo é uma sociedade muito violenta. Diante destas duas realidades houve necessidade dos que tem fé fazer algo em comum. Respeitando as peculiaridades, procuramos o que temos em comum, ou seja, a fé que salva.

Como se deu este processo?

Na década de 60, no Rio Grande do Sul se uniram quatro igrejas: Anglicana, Metodista, Confissão Luterana e Católica. Inicialmente foi fundado o Serviço Interconfessional de Aconselhamento (SICA). Nos anos 70, em Porto Alegre, foi criado o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs, que depois transferiu a sede para Brasília. Quando isso aconteceu, na década de 90, ficamos meio órfãos.Então, em 2001, recriamos o Conic Sul.

E o diálogo inter-religioso, onde entra nesta história?

No final dos anos 90, embora já existam documentos anteriores do Vaticano e todas as viagens do Papa João Paulo II tinham caráter ecumênico e inter-religioso. Mas foi pelos anos 90 que tomou corpo este diálogo com outras religiões aqui no Brasil. Começamos a procurar o que tínhamos em comum com elas.

E quais são estes pontos comuns?

Com os Muçulmanos, por exemplo, temos a unidade de Deus, parte das escrituras e a transcendência. Com os judeus, o antigo testamento. E com todas as demais, a busca de Deus.

O Rio Grande do Sul tem um grupo inter-religioso ativo. É pioneiro?

Foi fundado em 1997 e representou um grande impulso. Durante a celebração pelo Papa, quando ele estava doente, recebemos os pêsames de muitos líderes. Eu coloquei o microfone à disposição deles na missa em homenagem ao Papa João Paulo e foi muito comovente.

Eu mesmo recebo muitos convites, inclusive para ir à Sinagoga. Mas a proposta de unidade não é nova para os católicos. Temos tradição da Semana da Oração pela Unidade dos Cristãos, uma iniciativa conjunta da Igreja Católica Apostólica Romana e do Conselho Mundial de Igrejas. 

Como funcionam as atividades do grupo?

Anualmente temos uma novena que acontece cada dia em uma igreja do Conic, por exemplo. Este ano o bispo Anglicano rezou na Catedral Católica Metropolitana.

Como o senhor vê a proximidade da igreja com os movimentos sociais?

A igreja sempre teve uma preocupação forte com o social. A fé, sem obras, é morta. O amor a Deus é também o amor ao próximo. A igreja montou um grade trabalho social, principalmente desde a Encíclica Rerum Novarum, do Papa Leão XIII, em 1891. Ganhou força no começo da era industrial.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, durante todos estes anos sempre teve uma postura social. Existe um documento com exigências éticas e evangélicas na luta pela superação da miséria e da fome. 

E a nona Assembléia do Conselho, Dom Dadeus? O que significará dentro deste esforço pela unidade cristã?

A Assembléia do CMI tem uma grande significação. É um projeto de unidade religiosa tendo Cristo como fonte da vida e salvador do mundo. Foi muito importante trazer para cá. E isso aconteceu porque foi aqui no Rio Grande do Sul que o CMI encontrou um clima ecumênico extraordinário. Um clima de tolerância e abertura. Daqui vai irradiar, buscar adesões e experiências ecumênica.

Como isso pode se refletir no evento?

Uma peculiaridade é o convite para que outras religiões participem. Isso pode ser um grande avanço. É uma tendência que o Papa João Paulo II já vinha seguindo. Nas suas viagens ele se relacionava com representantes de todas as religiões.

O sucessor de João Paulo II é considerado mais conservador. O senhor acha que o processo de diálogo inter-religioso dentro da igreja Católica Romana pode retroceder?

Não. É uma questão irreversível, E não acho o Papa mais conservador. João Paulo II era polonês, mais tradicional. Bento XVI é um teólogo, Atua no campo das idéias, sabe onde pisa.

O senhor está de acordo com a preparação da Assembléia?

Sim, estou muito tranquilo com relação a isso. Quando o secretário geral do CMI, o pastor Samuel Kobia, esteve aqui, em novembro passado, o diálogo foi muito bom. Até tomamos chuva juntos, nas caminhadas entre um compromisso e outro pela cidade.

O senhor disse que o Brasil é um país especial nesse sentido. Que outros exemplos o senhor citaria?

Aqui mesmo em Porto Alegre existe uma iniciativa inédita, que são as Bases Missionárias Ecumênicas.

E como funcionam?

A primeira já está funcionando no bairro Petrópolis. São compostas por representantes das paróquias Católicas, Metodistas, Anglicanas e Luteranas. Eles se reúnem e planejam as visitas. Depois chegam nas famílias para anunciar Jesus, respeitando a crença da família visitada e estimulando-a frequentar a sua própria igreja dentro da comunidade. Isso não existe no mundo.