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Domingo, 11 de Novembro de 2007

Consenso: um colorido adeus ao governo da maioria

, Outubro 15, 2005

Com cartões azuis ou laranjas em mãos, os delegados à IX Assembléia do Conselho Mundial Taxi Heathrow Airport de Igrejas (CMI), que se reunirá em Porto Alegre no próximo mês de fevereiro,  dirão adeus às votações majoritárias de estilo parlamentar. O futuro do Conselho estará nas decisões por consenso?

O CMI decidiu tomar já agora suas decisões por consenso, e os coloridos "cartões indicadores" são um dos métodos que será introduzido na IX Assembléia, na qual os delegados decidirão a direção da vida e o trabalho do Conselho nos próximos oito anos.

O que significa essa mudança para a capacidade de ação do CMI? Os partidários da inovação esperam uma renovação fundamental, tanto do diálogo dentro da comunidade de igrejas como no estilo de trabalho da organização. Os críticos temem que as questões controvertidas sejam deixadas de lado para não pôr em perigo o consenso.

“Ao contrário", disse Eden Grace, membro do Comitê Central do CMI pertencente à Sociedade Religiosa dos Amigos (Quakers) nos Estados Unidos. "Eu espero que se escute mais questões controvertidas. Ninguém tem que temer ficar encerrado numa votação”.

"O modelo de consenso consiste num espírito de escuta aberta", explica Grace, cuja comunidade tem 300 anos de experiência nesse modelo de tomada de decisão. "Não nos limitamos a acumular mais mensagens a favor que contrárias. Esforçamo-nos para chegar a um pensamento comum, buscando o espírito de Cristo”. O consenso é mais do que uma simples mudança de procedimentos. É também a construção de uma cultura na qual caibam todos.

"Os debates de estilo parlamentar criam uma atmosfera de 'pró ou contra' em lugar de ajudar a escutar e pensar cooperativamente", disse Anne Glynn-Mackoul, advogada e membro do Comitê Central em representação do Patriarcado Ortodoxo Grego de Antioquia e todo Oriente, Estados Unidos. "Antes, os ortodoxos faziam constar sua opinião minoritária mediante documentos”. Esses documentos articulavam opiniões alternativas, mas os delegados ortodoxos sentiam que não eram considerados.

Eden Grace e Anne Glynn-Mackoul foram membros da Comissão Especial sobre Participação Ortodoxa no CMI. Estabelecida pela VIII Assembléia do CMI em Harare, 1998, essa comissão considerou as inquietudes dos ortodoxos sobre a direção e as prioridades do Conselho, e em 2002 formulou uma série de propostas para fazer ouvir de maneira mais efetiva essa voz.

Uma de suas recomendações foi a de abandonar o princípio das decisões por maioria, a favor de um modelo de consenso. Em fevereiro de 2005, o Comitê Central do CMI aceitou a proposta por unanimidade.

O modelo de consenso oferece poder de veto a cada um dos delegados na Assembléia do CMI? "Não", disse Grace, "todos têm direito a ser escutados, mas ninguém tem direito à obstrução." Uma maioria de 85% dos delegados terá sempre a possibilidade de solicitar uma votação formal como último recurso. Só se exclui a possibilidade de votações sobre questões que coloquem em dúvida o entendimento que uma igreja membro tem de si mesma.

O consenso não se reduz à unanimidade. É possível decidir contra a opinião de uma pequena minoria, sempre que seu ponto de vista tenha sido escutado cabal e lealmente. Tal minoria terá, depois, a possibilidade de manter-se à margem de qualquer ação ou programa derivados daquela decisão. É uma maneira de adaptar as regras à realidade. Ainda hoje há programas do CMI dos quais algumas igrejas não participam.

O consenso requer preparo e mudança de atitude. "Todos teremos que aprender muito", disse o pastor D'Arcy Wood, ex-presidente da Igreja Unida da Austrália, na qual o modelo de consenso foi introduzido há dez anos. "Não é uma simples chave elétrica que basta acende-la", disse. "Requer mudança nas expectativas e na maneira de conceber as tomadas de decisões”.

Um manual sobre o procedimento de consenso ajudará os delegados da Assembléia a se familiarizar com os novos métodos. Haverá sessões de formação para preparar os moderadores e relatores dos comitês antes da Assembléia. Reuniões prévias à Assembléia, como o encontro da juventude, oferecerão oportunidades para conhecer os métodos, e os delegados receberão as necessárias instruções no início da mesma.

O novo processo de decisão por consenso será, antes de mais nada, um desafio para os moderadores, tanto no que se refere à preparação cuidadosa de cada sessão, como na agilização da ordem do dia e no empenho de escuta das diversas vozes.

O que acontecerá se um comitê da Assembléia ou uma sessão plenária chegar a uma via morta? As novas regras oferecem várias maneiras de proceder em tais situações: a questão discutida pode ser adiada ou remetida a um grupo de trabalho menor. Pode se fazer uma pausa na reunião para reflexões mediante um momento de silêncio ou oração. Pode deixar-se constância dos diferentes pontos de vista, ou os delegados podem constatar que não é possível, naquele momento, um consenso de opinião.

Uma linguagem de cores

A inovação mais visível para os delegados da Assembléia será os chamados “cartões indicadores". O manual de consenso estabelece: quando os delegados seguem uma intervenção com "simpatia para uma idéia ou aceitação da mesma", podem indicá-lo ao moderador mediante um cartão laranja.

Um cartão azul revela "indiferença ou desaprovação". Os dois cartões cruzados frente ao peito quando um orador ainda estiver fazendo uso da palavra indica, silenciosamente ao moderador, que os delegados não consideram necessário prolongar o debate.

Uma primeira avaliação da tomada de decisões por consenso no CMI não será possível até depois da Assembléia. Mas a experiência australiana faz com que D'Arcy Wood confie no êxito do modelo de consenso: "Nosso modelo é mais fluido e flexível. Mais pessoas participam na 'formulação' das decisões.

Assim, é muito mais alto o nível de satisfação e de identificação pessoal com as decisões. Mais pessoas poderão intervir ativamente no processo”.

Isso é exatamente o que o CMI pretende conseguir no processo de tomada de decisões na Assembléia de Porto Alegre, e depois dela. É de se esperar que a diversidade de contribuições não separe as igrejas, mas que enriqueça a comunidade que formam o Conselho e a vida de cada uma delas.

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(*) Friedrich Degenhardt é teólogo e jornalista, e trabalha como vigário especial da Igreja Evangélica Luterana do Norte do Elba (Alemanha) no escritório de imprensa do Conselho Mundial de Igrejas em Genebra.