A força pulverizada de evangélicos na política
Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Outubro 4, 2005
Na eleição para a presidência da Câmara dos Deputados da República Federativa do Brasil, sete Taxi Heathrow Airport candidatos à cadeira mais importante da casa apresentaram propostas à Frente Parlamentar Evangélica (FPE). Dois candidatos acabaram disputando o cargo em segundo turno – Aldo Rebelo, do Partido Comunista do Brasil (PC do B), e José Thomaz Nonô, do Partido da Frente Liberal (PFL). Rebelo, candidato do governo federal, venceu por pequena margem de votos o pleito, definido no dia 28 de setembro.
O fato de os sete candidatos disporem de 15 minutos cada para falar de suas propostas aos colegas evangélicos demonstra a importância da Frente no Parlamento. Afinal, trata-se da terceira maior bancada na Câmara, com 60 deputados, de 11 partidos e 11 igrejas. A Igreja Assembléia de Deus tem o maior número de parlamentares, 22, seguida da Universal do Reino de Deus, com 17, e a Batista, com dez.
A representantividade evangélica no Parlamento tem raiz no crescimento dos evangélicos e sua maior visibilidade na sociedade brasileira. Dos 170 milhões de brasileiros, segundo o Censo de 2000, os evangélicos seriam 15,4%, quando, no início dos anos 90 do século XX, não passavam de 9% do total da população. A partir de 1993, pesquisa regular do Ibope viu as Igrejas Evangélicas inclusas entre as instituições nas quais os brasileiros mais confiam, aparecendo elas em oitavo lugar, porém atrás da Igreja Católica, que aparece em segundo lugar nesse levantamento.
Mas quem são os evangélicos? Embora exista a famosa “bancada evangélica” na Câmara, com cacife de barganha nas negociações políticas, é impossível falar “dos evangélicos” sem enfocar a diversidade das igrejas evangélicas no Brasil. A pulverização fica clara já na análise da composição da própria bancada. A FPE apresenta-se uníssona no Parlamento apenas quando se trata de votar proposições envolvendo aspectos morais e éticos, como a união civil de homossexuais, legalização do aborto e liberação da maconha.
Em dissertação de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o teólogo batista e professor no Seminário Teológico Betel, Valdemar Figueiredo Filho, fala em “polifonia” dos evangélicos. Polifonia é entendida como vozes discursivas que se expressam simultaneamente. Ele mostra, na dissertação, que não existe um projeto político comum a todos os evangélicos.
Basta analisar a trajetória histórica de evangélicos na política para concordar com Figueiredo Filho. Na última campanha presidencial, por exemplo, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) apoiou no primeiro turno aquele que se apresentava como “o candidato dos evangélicos”, o ex-governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho. No segundo turno, na disputa entre Luiz Inácio Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), e José Serra, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), a Universal ficou com Lula. Serra contou com apoio da Assembléia de Deus.
Figueiredo Filho analisou o discurso (e programação) de três veículos de massa evangélicos: a Rádio El Shadai, do deputado Arolde de Oliveira, do Partido da Frente Liberal (PFL), a Rádio Melodia, do empresário Francisco Silva, as duas em freqüência modulada e que operam no Rio de Janeiro, e o jornal Folha Universal, da IURD.
“Se compararmos as retóricas da mídia evangélica, perceberemos que seus interesses políticos não elaboram uma unidade. O que ocorre são interesses de grupos empresariais ou denominacionais. Pensar em unidade dos evangélicos para fins políticos não é possível tendo como parâmetro a análise do discurso”, constata o professor batista.
A mais recente agremiação política criada no Brasil, o Partido Municipalista Renovador (PMR), autorizado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) no dia 25 de agosto passado, já tem apelido na imprensa: o partido evangélico, por ter a chancela do bispo Edir Macedo, líder da IURD. O PMR será mais uma sigla a engrossar o número de partidos presentes na Frente Parlamentar Evangélica, que passará de 11 para 12.
A legislação eleitoral fixou o dia 1o de outubro como prazo último para a filiação em partido político dos interessados em disputarem as eleições gerais de outubro de 2006. Um dia antes, o senador e bispo da Universal, Marcelo Crivella, do Rio de Janeiro, filiou-se, com pompas, no PMR.
Crivella tentou, no discurso que proferiu quando de sua filiação ao novo partido, em Belo Horizonte, descaracterizar o PMR como partido de evangélicos. “É claro que vamos continuar merecendo a honra e o apoio de tão expressiva notória parcela da nossa sociedade, que são os evangélicos. Mas (o PMR) é um partido republicano, o partido também dos espíritas, dos católicos, dos umbandistas, dos que não têm religião, mas têm amor no coração a este país e querem construir conosco uma mudança, uma transformação”, declarou o senador.
A campanha de 2006 certamente deixará explícita, mais uma vez, a pulverização do voto evangélico.

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