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Domingo, 7 de Novembro de 2004

Bush conta com o apoio de evangélicos fundamentalistas

Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil, Março 5, 2003

 As igrejas evangélicas fundamentalistas aplaudem, em sua grande maioria, o discurso do presidente George Walker Taxi Heathrow Airport Bush, que relaciona o governo do Iraque e do Irã com a Al Qaeda, definindo-os como "o eixo do mal".

Bush tem, inclusive, companhia de pastores nessa direção. O teleevangelista Marion "Pat" Robertson chegou a afirmar que o islamismo é pior do que o nazismo, e que o Alcorão, livro sagrado do Islã, inflama os muçulmanos para a violência.

Em meses de pesquisa, preparando sua participação em painel sobre religião e política no 3. Fórum Social Mundial, em Porto Alegre, o brasilianista Ralph Della Cava não encontrou um documento sequer assinado por algum líder de igreja evangélica fundamentalista que condenasse a guerra que os Estados Unidos preparam contra o Iraque.

"Os evangélicos fundamentalistas também são a favor de Israel na luta contra os palestinos, dentro de uma visão profética apocalíptica", disse Della Cava em entrevista para a ALC. Em outubro do ano passado, relembrou, 16 mil igrejas evangélicas dos Estados Unidos organizaram um dia nacional de oração, denominado "Stand for Israel" (Erga-se por Israel), em defesa, como definiu o embaixador israelense, "da civilização ocidental".

O apoio dos evangélicos a Bush tem interesses e recompensas mútuas. O presidente norte-americano lança olhares à reeleição e, embora não de modo explícito, já está em campanha. Os evangélicos são recompensados com verbas destinadas a obras sociais que desenvolvem, e se constituem num forte aliado eleitoral.

No dia 12 de dezembro do ano passado, Bush baixou projeto de lei permitindo que denominações religiosas contratassem pessoas do seu rebanho para trabalhos sociais bancados com recursos federais, embora a Constituição norte-americana proíba qualquer tipo de discriminação quando se trata do gerenciamento de verbas públicas.

Por se tratar de projeto discriminador, porque favorece os da mesma fé, o Congresso não aprovou o projeto, que Bush transformou em medida provisória, atrelando-o à Casa Civil. Assim, igrejas podem dispor de recursos para suas obras sociais, de modo especial no campo da saúde, o que representa o desmonte, em parte, da estrutura pública de atendimento, sob o argumento de que ela é muito burocratizada.

O presidente cumpre, assim, uma das seis principais promessas de campanha, que era a de impulsionar iniciativas de caridade baseadas nas igrejas.

Os evangélicos fundamentalistas não têm, na atualidade, um líder nacional que os motive no campo político, assim como o tiveram nos anos 70, 80 e 90 do século passado. Bush escala essa lacuna, ele próprio um metodista convertido. No passado, os evangélicos tiveram a liderança de pregadores e missionários como Jerry Falwell, Marion "Pat" Robertson, Jimmy Swaggart ou o líder da juventude republicana Ralf Reed.

Em 1976, os evangélicos ajudaram a eleger o democrata Jimmy Carter à presidência da República dos Estados Unidos. A eleição de Carter foi estrondosa, tanto assim que sacudiu os republicanos, que logo passaram a construir estratégias de retomada do poder, visando o próximo pleito. E para tanto buscaram o voto evangélico, de modo especial nos Estados sulistas.

O primeiro aliado nessa estratégia republicana foi o pregador Jerry Falwell. "Ele era um mestre da mídia", destaca Della Cava. Falwell era proprietário de uma cadeia de emissoras de televisão ou tinha espaços alugados em outras, totalizando mais de 300 pontos de pregação eletrônicos, cobrindo todo o país, diariamente.

O televangelista fundou, em 1979, a Moral Majority (Maioria Moral), e colocou essa organização a trabalhar na mobilização do eleitorado evangélico para os republicanos. E o fez através da Baptist Bible Fellowship, uma rede de igrejas e pregadores batistas dos Estados Unidos.

Ronald Reagan elegeu-se presidente dos Estados Unidos em 1980 e Falwell assumiu o crédito de ter eleito o candidato republicano. Ao contrário do esperado, Reagan não estendeu qualquer recompensa especial aos evangélicos.

Em meados dos anos 80, os negócios de Falwell começaram a periclitar, quando estourou o escândalo do casal de telepregadores Tammy e Jim Bakers, acusado de aplicar dinheiro doado pelos fiéis na construção de mansão na Flórida que tinha torneiras de ouro e canil com ar condicionado.

Esse escândalo maculou o ministério e os negócios de Falwell. Na esteira do fracasso de Falwell surgiu outro televangelista, também do Estado de Virgínia, Marion "Pat" Robertson, dono de cadeia de emissoras de televisão e que tinha uma série de programas no sul e oeste dos Estados Unidos. A certa altura, Robertson decidiu disputar as eleições primárias, com Bush pai, e depois a convenção nacional do Partido Republicano que apontaria o candidato à presidência da República.

Em 1998, ele desenvolveu o Clube dos 19,88 dólares. Os fiéis mandavam envelopes para a campanha de Robertson contendo exatamente 19 dólares e 88 centavos.

Robertson perdeu as primárias em todos os Estados da federação norte-americana, com exceção de um. Assim, foi para a convenção nacional com 35 delegados. Passada a convenção, e com o apoio desses delegados, Robertson chamou para o gerenciamento da campanha política dos evangélicos o líder da juventude republicana Ralf Reed.

Logo após a convenção nacional saiu denúncia nos jornais de que, ao se casar, a mulher de Robertson estava grávida, o que escandalizou o mundo evangélico tradicional. As afinidades dos evangélicos fundamentalistas com os católicos tradicionais passa pela condenação do aborto, pela defesa do matrimônio, pela crença na teoria criacionista (Deus criou a pessoa, como descrito na Bíblia) e na defesa da leitura das Sagradas Escrituras nas escolas públicas.

Reed era um político ágil, vibrante, dinâmico. Ele criou a Christian Coalition (Coalizão Cristã), presente em todos os Estados da nação e sempre relacionada com igrejas.

Mas Reed, ao contrário dos televangelistas, procurou políticos e não pregadores para a tarefa de capitalizar o voto evangélico para as hostes republicanas. Também inteirou-se dos trâmites no Legislativo e das leis norte-americanos. Em pouco tempo a Coalizão transformou-se no terceiro lobby mais influente nos Estados Unidos.

Mesmo com uma bancada evangélica pouco representativa no Congresso Nacional, o jovem líder republicano defendia a escolha e eleição de congressistas republicanos radicalmente conservadores, importando menos a coloração religiosa, se evangélica, católica ou judeu.

Também tentou aproximar-se da comunidade afro-americana. A Coalizão, relata Della Cava, desempenhou um papel importante nas últimas quatro eleições presidenciais norte-americanas.

Contrariado com o apoio dos evangélicos a George Walker Bush filho para concorrer pelo Partido Republicano à presidência da República, Reed decidiu criar uma consultoria política particular, deixando a Coalizão.

Enquanto Robertson queria o apoio dos evangélicos a Bush, Reed defendia que o candidato dos evangélicos fosse Richard Dole. A Coalizão ajudou a eleger Bush, mas hoje em dia ela já não mais existe.

A pesquisa que o historiador Ralf Della Cava desenvolveu a respeito da presença evangélica na política norte-americana contou muito com a contribuição do livro de Clyde Wilcox, Onward Christian Soldiers, lançado no ano 2000.

Ex-professor de História na City University de Nova Iorque, o brasilianista é pesquisador, atualmente, no Instituto de Estudos Latino-Americanos da Columbia University e autor de dois livros relacionados ao Brasil, onde viveu de 1960 a 1964. 

Os livros sao: Milagre em Juazeiro, publicado pela Paz e Terra, e co-autor com Paula Montero em "E o verbo se fez imagem", da Vozes. Della Cava participou do Fórum Social Mundial representando a Fellowship of Reconciliation.


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