![Bispa Kaessmann, palestrante principal na assembléia luterana [Foto: Evlka]](/picture/kaessmann.jpg)
Bispa Margot: quero mais ecumenismo
Entrevista: Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil
A bispa Margot Kaessmann, da Igreja Evangélica Territorial de Hannover, Alemanha, faz jus ao adjetivo protestante. Em sinal de protesto ela demitiu-se, no ano passado, do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) por não concordar com introduções propostas por igrejas ortodoxas no que diz respeito à concepção de celebração ecumênica e restrições ao uso da linguagem inclusiva.
"Quero mais ecumene e não menos ecumene", disse a bispa em entrevista para a ALC. Na tradição ortodoxa, celebração ecumênica só acontece quando há eucaristia. Daí que o documento assumido pelo CMI sugere que seja evitado o termo celebração ecumênica em consideração às diferentes compreensões que ele assume.
O documento também propõe que nas celebrações em comum feitas no contexto do CMI sejam usadas somente as nomenclaturas bíblicas e a fórmula trinitária "Pai, Filho e Espírito Santo".
Para teólogas feministas, trata-se de um reducionismo da divindade à linguagem patriarcal. Ortodoxos também não aceitam a ordenação de mulheres ao sacerdócio. Ao assumir essas concepções, entende a bispa, o CMI retrocede na caminhada ecumênica, com o que ela não concorda.
O seu ato de protesto levou, diz ela na entrevista, que igrejas dessem início a uma discussão das relações do organismo ecumênico internacional com suas afiliadas.
A Dra. Margot Kaessmann nasceu no dia 3 de junho de 1958, em Marburg, Alemanha. Cresceu numa família de classe média baixa. Decidiu estudar Teologia depois de passar algum tempo nos Estado Unidos, onde deparou-se com movimentos como o que foi liderado pelo ativista negro batista Martin Luther King.
Foi ordenada ao ministério pastoral em 1985 e, em 1999, eleita bispa de sua igreja. Integrou o Comitê Central do CMI de 1983 a 2002.
Margot é casada com o pastor Eckhard Kaessmann. O casal tem quatro filhas: Sara, Hanna, Lea, e Esther. Ela foi uma das convidadas a trazer seu "Testemunho" ao 3. Fórum Social Mundial, reunido em Porto Alegre de 23 a 28 de janeiro de 2003.
ALC: Ao trazer o seu testemunho no Fórum Social Mundial (FSM), alguém da platéia lhe perguntou sobre a participação da mulher na Igreja Católica. A senhora vê a sua presença nesse espaço do FSM, convidada a "testemunhar", como um sinal de que mulheres também podem ter participação ativa em cargos diretivos na Igreja?
Bispa Margot: Primeiro, foi um convite para mostrar que as igrejas desempenham um papel no FSM. Penso, porém, que para outros é importante deixar claro que mulheres podem assumir papéis diretivos na Igreja. Claro, sabemos isso já há dois mil anos. Mesmo assim houve, na nossa igreja territorial, uma grande discussão: afinal, pode uma mulher desempenhar esse papel? Isso transcorreu na Alemanha na Igreja Evangélica.
A Igreja Católica ainda tem um longo caminho a percorrer. Penso que bíblica e teologicamente não há argumentos contrários (a essa participação).
ALC: A senhora retirou-se, no ano passado, do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). Isso foi um ato de protesto ou um testemunho a respeito da questão ortodoxa?
Bispa Margot: Isso foi um passo muito pessoal, porque quero mais ecumene e não menos ecumene. E minha impressão de momento é que no CMI só se delimita quem é igreja correta, quem não é igreja correta, que batismo é válido, que batismo não é válido.
E isso é, para mim, um retrocesso para 75 atrás – (quando ocorreram) debates em torno de fé e constituição da Igreja, discussões sobre batismo e ordenação; de que não se deveria celebrar cultos em conjunto, mas já os celebrávamos em conjunto há tempos.
O mundo precisa, no fundo, de uma voz forte da Igreja e o CMI propõe, no momento, um caminho de retração também no potencial profético que as igrejas têm, do potencial crítico.
Assim que pensei: "tu precisas mostrar, nesse caso, um protesto, contrapor-te a isso", também para acordá-las e para dizer que as igrejas não podem ocupar-se constantemente consigo mesmas, mas também temos uma tarefa no mundo.
ALC: Como a senhora avalia o resultado desse protesto?
Bispa Margot: Pelo menos está se discutindo o que acontece no CMI. Até então as igrejas membros sequer percebiam, no meu entendimento, como ele (CMI) estabelece relações entre as igrejas e como está despreparado para estimular temas públicos.
Foi um pequeno passo que dei retirando-me, mas no mínimo levou a que – também ouvi isso aqui no Brasil – se começasse a discutir a respeito do que significa o CMI, do que queremos e como devemos nos moldar como Igreja, à parte da Igreja Católica Romana, que está organizada mundialmente.
ALC: Como a senhora vê o papel da Igreja? Ela tem uma única função, tanto na América Latina como na Europa, ou os papéis são diferenciados?
Bispa Margot: O papel da Igreja é sempre a propagação do Evangelho, para o espiritual e também, naturalmente, para o agir. E isso pode ser bastante diferente na América, como agora na América do Norte, onde no momento deve-se preservar alerta o espírito pacifista contra toda essa belicosidade.
Na Europa trata-se de manter acesa a pergunta pela justiça num ambiente de individualização, fartura e autopreocupação. Na América Latina, penso, é bem forte a participação, a questão dos direitos humanos.
São os mesmos temas, mas de acordo com a vivência da sociedade é preciso estabelecer acentos diferenciados. Na Alemanha deve-se ficar atento, no momento, de que África, Ásia e América Latina existem, e que as pessoas têm (nesses continentes) os mesmos direitos válidos para a Alemanha.
ALC: Isso não é dito com toda a força?
Bispa Margot: Isso está muito ausente. Temos fortes debates no país, concentrados na questão da Europa do Leste. Nos anos 70, 80, existia uma conscientização a respeito da África, Ásia e América Latina. Mas isso praticamente desapareceu.
Desde 1989, temos na pauta a reunificação da Alemanha e uma grande preocupação conosco mesmos.
ALC: Por que os recursos para projetos de desenvolvimento nos países do Terceiro Mundo ficam cada vez mais escassos?
Bispa Margot: Justamente porque desaparece essa conscientização. Já tivemos grandes metas – 2% do PIB seriam destinados à área social, não chegamos sequer a destinar 0,33% do PIB para trabalhos de desenvolvimento.
Todo o lobby para essa finalidade se quebrou e penso que, com a queda do Muro (de Berlim) e a repentina temática alemã – como se dará o desenvolvimento, também a reconstrução do Leste -, o interesse é totalmente eurocentrado de momento.
ALC: Como a senhora avalia o Fórum Social Mundial de Porto Alegre? É a primeira vez que participa?
Bispa Margot: Estou bem entusiasmada, porque vejo que aqui existem visão, esperança e ânimo para mudanças. Isso é importante. Também a lincagem de grupos da sociedade civil.
Mas, por outro lado, o Fórum não pode ignorar que algum dia terá que entrar em conversação com a política real, com a indústria e com os empregadores. Podemos nos aplaudir mutuamente e dizer "nós somos os bons e ali estão os malvados". Isso não vai bastar a longo prazo. No momento, ele é um estímulo para a sociedade civil.
ALC: Esse diálogo precisa acontecer?
Bispa Margot: Sim, e é muito importante. Também posso dizer, a respeito da Europa, que aqueles que tocam campanhas do tipo "comércio justo" e outras do gênero, sentem "nós não estamos sozinhos, mas no Brasil reúne-se um forte grupo que nos apoia".
Acredito que prosseguir com esse encorajamento mútuo e não se deixar brecar sempre pelos reais obstáculos existentes, isso talvez seja o mais importante que cada participante leva daqui de Porto Alegre: coragem, esperança.
ALC: A senhora também visitou um assentamento de agricultores sem-terra. Qual foi a sua impressão?
Bispa Margot: Isso foi muito impressionante. Uma vez pelo fato de como está bem organizado, isso me impressiona como cidadã alemã, claro.
Também o fato de trabalhar toda a movimentação, a idéia de que pessoas recebem a terra como um direito que têm para dela tirar o seu sustento, de tornar isso tão concreto, considero de suma importância.
Bem como o fato de devolver às pessoas a sua dignidade, que residam na sua própria casa, que cultivem a terra e que dela possam se nutrir, isso é uma questão de dignidade, e isso aparece bem diferente numa favela de cidade grande, comparado com essa possibilidade de viver em quatro paredes, em segurança e com dignidade.
Isso me impressionou muito, confesso. Também a pergunta se não existe um direito humano que diga respeito à terra, pois a terra, afinal de contas, pertence a Deus, e é um direito reparti-la entre as pessoas, isso precisa ficar em evidência.

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