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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Geneviève Jacques, diretora de Programas do CMI [Foto: Denise de Rocchi]
Geneviève Jacques, diretora de Programas do CMI [Foto: Denise de Rocchi]

Religiões têm uma reserva de sentido às pessoas

Entrevista: Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil

Depois de afirmar, em mesa redonda no 3. Fórum Social Mundial sobre "Combate à intolerância Taxi Heathrow Airport e respeito à diversidade", que as religiões estão retomando um papel central na vida pública, a francesa Geneviève Jacques, diretora de Programas do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), teve que responder a uma provocação, durante os debates que o tema suscitou.

Da platéia, integrada por mais de 700 pessoas reunidas em armazém do cais do porto, um dos locais onde o Fórum se desenrolou em Porto Alegre, alguém lhe perguntou se as religiões ainda tinham lugar no mundo de hoje. Geneviève respondeu a pergunta com muita calma, disposição e convicção. "A religião tem uma das mais poderosas respostas à questão da identidade", dissera na palestra.

Formada em Matemática e Economia, Geneviéve militou desde cedo no movimento ecumênico em seu país natal. Foi secretária geral durante 15 anos do Cimade, uma ONG que dá proteção aos refugiados, apoia migrantes e combate o racismo.

Desde 1996, ela integra a equipe de relações internacionais do CMI e, a partir de 1999, assumiu a direção de Programas do organismo ecumênico internacional. Nesta entrevista exclusiva ela fala do seu trabalho e convicções.

ALC: Qual a avaliação que a senhora faz do 3. Fórum Social Mundial?

Geneviève Jacques: É difícil ter uma avaliação global do Fórum como um evento, porque cada qual participa de várias ofertas do programa. O que se pode avaliar e refletir é a participação ecumênica no Fórum, mais especificamente do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) e de organizações ligadas ao Conselho.

Os amigos brasileiros, que organizaram o Fórum Ecumênico Brasileiro, em vistas do Fórum Social, fazem uma avaliação muito positiva da maneira pela qual este ano, pela primeira vez, as organizações ecumênicas que se reconhecem ao redor da mesma visão de justiça, se encontraram no Fórum.

Elas tiveram uma maior visibilidade na tenda "Kairós" e organizaram eventos comuns. E isso é considerado um avanço muito positivo em comparação aos outros anos, quando a participação foi um pouco mais dispersa.

Penso que é provavelmente a coisa mais importante que se pode dizer, um avanço muito significativo na cooperação entre as agências ecumênicas, e em particular entre as agências ecumênicas, o CMI e a organização brasileira. Isso é muito positivo.

A avaliação que fizemos (na segunda-feira, 27, reuniram-se na sede da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil, em Porto Alegre, representantes de igrejas, da Coalizão Ecumênica, de organismos ecumênicos nacionais e internacionais para uma avaliação de sua participação no Fórum) vimos várias coisas que teríamos que melhorar no próximo ano.

A primeira, é de ter uma preparação prévia muito mais organizada, porque o que constatamos é que muitas organizações propuseram várias atividades – seminários, oficinas – com sua lógica, de seu próprio país, e se encontraram aqui, com a oferta de seminários sobre os mesmos temas, com a mesma proposta, mesmos horários, entrando em concorrência. Seria importante evitar isso.

Também concordamos, na nossa avaliação, e vamos aprofundar isso no CMI, que melhor seria concentrar-se menos em pequenos seminários e assumir uma visão um pouco mais estratégica – que teriam que ser as especificidades da participação das igrejas, do CMI e das organizações ecumênicas.

Como aportar uma perspectiva ética e espiritual dentro de todos o processo e discussão é o que teremos de preparar para as próximas edições. Não se trata de coordenar, de impor uma linha, mas de valorizar melhor a presença – muito importante – num Fórum como este.

ALC: Por que as igrejas demoraram tanto para embarcar no Fórum Social Mundial?

Geneviève Jacques: Não sei se se pode dizer que elas demoraram, porque as igrejas brasileiras estiveram presentes desde o primeiro Fórum.

ALC: Mas não tiveram nenhuma visibilidade e nem mesmo representação.

Geneviève Jacques: Não sei, mas posso responder de parte do CMI. No primeiro Fórum, não me recordo se estivemos presentes, porque não atuava no Programa na ocasião.

No segundo Fórum somente alguns colegas participaram e, ao regressarem, foram muito claros quando partilharam a experiência, dizendo: "Temos que nos organizar de uma maneira melhor, é preciso ir muito mais preparado, e é um evento muito importante, no qual o CMI tem que participar ao lado das igrejas, em particular do Brasil e da América Latina, e ao lado dos movimentos que o CMI tem acompanhado por anos.

Não é uma decisão somente de Genebra, senão uma resposta às petições das organizações com as quais temos trabalhado. Talvez as igrejas não viam bem, no princípio, a importância que poderia ter e que agora tem esse encontro único da expressão da sociedade civil, da qual as igrejas são parte.

Alegrei-me que agora houve uma presença muito significativa e todos estamos convencidos de que é um dos espaços onde as igrejas, o movimento ecumênico, que participa na luta pela justiça na sociedade civil, têm que estar presentes.

ALC: Em sua palestra, a senhora afirmou que um dos princípios para a superação da intolerância é a leitura dos sinais dos tempos. Faltou essa leitura às igrejas a respeito da primeira edição do Fórum?

Geneviève Jacques: Talvez se pode dizer assim. É sempre um desafio ser capaz de ler os sinais dos tempos. Quanto à minha participação no painel sobre a intolerância, é importante dizer que foi uma iniciativa do Fórum Ecumênico brasileiro de propor esse tema à organização internacional do Fórum Social, que discutiu o assunto.

A decisão foi de focalizar, dentro do marco da Década de Superação da Violência, uma reflexão e intervenção sobre o tema da luta contra a intolerância e a promoção do respeito à diversidade como uma coisa muito importante nos tempos de hoje.

ALC: Que outras parcerias o CMI pode definir a partir do Fórum, que não sejam com organismos eclesiais? Existe essa possibilidade?

Genviève Jacques: Sim, não somente existe com se faz, porque um dos aspectos importantes que acontece nesse tipo de evento são os encontros, as relações que se fazem com diferentes redes.

Meus colegas, que estão trabalhando com questões de justiça social e na reflexão a respeito do processo de globalização, fizeram muitos contatos em Porto Alegre com outras redes que atuam, por exemplo, por um comércio justo, que lutam contra a aids, que se empenham por uma justiça econômica.

Assim se desenvolvem redes de cooperação entre os movimentos cristãos, digamos, e o CMI em particular, e outras redes da sociedade civil.

ALC: Existem parcerias concretas já estabelecidas?

Geneviève Jacques: Em particular, poderia citar duas que dizem respeito ao comércio internacional, visando um comércio justo. A Aliança Ecumênica de Advocacia lançou campanha sob o título "Um comércio pelas pessoas e não pessoas pelo comércio", que estabelece contatos com outras redes que trabalham no mesmo sentido.

Todo mundo reconhece que é preciso criar sinergias entre as diferentes redes, que podem mobilizar diferentes tipos de público.

O segundo exemplo, muito importante, é toda a mobilização contra a aids, em que a organização ecumênica trabalha e tem que trabalhar com outras redes que pertencem à sociedade civil, bem como com a Organização das Nações Unidas (ONU). Essa cooperação já existe.

ALC: Quais são hoje os grandes desafios do CMI?

Geneviève Jacques: Falando em fins de janeiro de 2003, quando em outra parte do mundo se escutam rumores de guerra, penso que a questão alternativa à guerra e de outro tipo de resposta às ameaças que existem no mundo são, nos anos vindouros, um grande desafio.

Como desenvolver o movimento que trata de propor uma resposta não-violenta ao conflito existente. O CMI tomou posição muito clara contra o uso da força no caso do Iraque em particular, mas também em geral nas questões internacionais, como é o caso do Oriente Médio, pedindo uma resolução urgente ao problema na região.

 Há um enfoque muito sério em torno da questão da guerra e dos efeitos dramáticos da cultura de violência que se desenvolvem na suposta guerra antiterrorista.

ALC: O CMI trabalha, agora, na Década de Superação da Violência e trabalhou, recentemente, na Década da Mulher. Que avaliação se faz dessa iniciativa? É um bom método de trabalho e de conscientização?

Geneviève Jacques: O que aprendemos da Década da Igreja em Solidariedade com as Mulheres é que se necessita de muito esforço para conscientizar seriamente, para que a mensagem chegue às igrejas, o que às vezes leva tempo.

Considerando isso, temos tratado de desenvolver uma metodologia na Década para Superar a Violência que chama as igrejas muito mais cedo a olhar a sua própria situação desde o princípio, sem propor uma campanha ao princípio, nem propor soluções ou perspectivas.

O mais importante é que em cada parte do mundo as igrejas, e também a comunidade cristã, se dêem conta da gravidade da situação e analisem a questão dos efeitos e das causas das violências em seu meio, e elejam quais são os pontos mais importantes e não tenham expectativas de que venham diretivas de Genebra.

Penso que passados três anos, ou dois anos, pode-se dizer que em muitas partes do mundo a mensagem foi escutada. Isso não é para concluir que todas as igrejas estão de pé confrontando a violência.

 De certo não, mas se sabe que esse chamamento é um chamamento que deve ser levado a sério para os que tratam de tomar a sério o Evangelho. E que é uma oportunidade de cooperar juntos durante essa Década.

Há coisas muito interessantes que estão acontecendo na África, na Ásia, cada qual tomando o seu próprio foco. Espero que a mobilização cresça e chegue até o nível das congregações. Não basta ter uma grande cerimônia nacional para lançar a Década contra a Violência, em particular quando se pensa em países do tamanho do Brasil. Um lançamento nacional é importante, mas não basta.

O melhor seria o desenvolvimento de muitas iniciativas e criatividade, e tomar essa idéia que é tão importante, que é dar visibilidade à iniciativa criativa que as pessoas têm, para reforçar o espírito, reforçar o compromisso de todos.

Um dos piores riscos que encontramos é o desespero, como disse Galeano, a peste do desespero que nos ameaça. Penso que esse esforço é muito especial para tornar conhecidas e vistos as coisas incríveis que fazem pessoas que nada conhecem, que não são as estrelas do sistema, e que lutam para sobreviver, para enfrentar as rupturas sociais, para oferecer outro tipo de coisa.

As mulheres estão desempenhando um papel muito importante, em muitas partes, nos casos de sociedades esfarrapadas pela violência, nas quais recriam relações de vida. Penso que é preciso valorizar isso.

ALC: Uma das contribuições da Igreja não seria a proclamação da esperança e trabalhar a questão da espiritualidade?

Geneviève Jacques: Penso que quando nos despertamos de manhã e escutamos noticiosos é muito pesado o que se ouve. Não se vê para onde vamos, ou o que se vê é muito aterrorizador, e há uma necessidade de promover não uma esperança barata, não falsas promessas, mas a esperança que, como se diz aqui, numa perspectiva cristã, de que "outro mundo é possível".

Cristo veio para dizer isso, que há outro mundo, que o plano de Deus para este mundo é um mundo melhor, um mundo de justiça e de paz. É o que somos chamados a contribuir.

E que já existe, sim, sabemos, mas é preciso abrir os olhos. Já existem múltiplos exemplos desta nova semente de esperança que está brotando.

É preciso retomar do Evangelho tudo o que dá sentido aos esforços que fazemos para promover a convivência fraterna, as relações entre as pessoas e comunidades internacionais, em respeito à diversidade, dignidade humana, que são fundamentais para a justiça.

Um dos desafios é falar do papel das igrejas cristãs, mas também das religiões em geral. Hoje existe uma expectativa maior do papel das religiões.

Elas têm uma reserva de sentido para as pessoas. E podem ser fonte de superação da violência, ou o contrário, podem incentivar oposição violenta.

É preciso valorizar o diálogo inter-religioso como uma necessidade do nosso tempo e chamar as religiões que têm em seu centro o respeito à dignidade humana, paz e respeito à Criação, para que da cooperação saiam recomendações que podem ajudar as comunidades.

ALC: Como a senhora vê o crescimento das igrejas pentecostais na América Latina?

Geneviève Jacques: No cristianismo há um esforço importante para tratar de compreender a diversidade da família cristã, de compreender a outra cultura, valorizar o afetivo, a espiritualidade.

Há que tratar de entender o que se expressa através disso. Conheço muitas igrejas e cristãos que precisam avançar para superar estereótipos. Isso também vale para os pentecostais, que às vezes têm concepções muito rígidas, às vezes sectárias, de outros cristãos.

E para que nos encontremos no caminho é preciso superar os estereótipos e as dificuldades de reconhecer que há várias expressões em relação à fé cristã.