Oficina enfoca agenda feminina nos meios de comunicação
Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil, Janeiro 30, 2003
"Puro filé", dizia emissora de rádio de freqüência modulada de Santiago do Chile ao anunciar Taxi Heathrow Airport a sua programação musical, mostrando em "busdoor" uma nádega de mulher. A indignação de mulheres, que procuraram o conselho de publicitários, fez com que a emissora tirasse o cartaz de circulação.
O exemplo de luta e de leitura crítica dos meios de comunicação foi apresentado por María Helena Hermosilla, presidente da Associação Mundial para a Comunicação Cristã (WACC, a sigla em inglês)-região América Latina, durante oficina que esse organismo realizou no 3. Fórum Social Mundial, nesta capital, em conjunto com a Organização Católica Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (OCLACC).
Para mudar o mundo, disse a jornalista Maria Helena, do Chile, é preciso contar com cidadãs que tenham poder. Ela definiu o seu país como "a vergonha da região", pois foi o último dentre os latino-americanos a conceder o direito de voto às mulheres e ainda hoje não tem uma lei do divórcio.
Comentando pesquisa realizada na Colômbia, seu país de origem, a comunicadora católica Ana Maria Rodriguez, que atuou com Maria Helena na oficina "Globalização, gênero e comunicação na América Latina", na segunda-feira, 27, disse que o trabalho das mulheres não está presente nas emissoras de rádio colombianas.
Embora o meio rádio não se proponha, prioritariamente, a educar, quando as pessoas o escutam estão aprendendo. Um dos itens que cabe na agenda feminina em relação aos meios de comunicação de massa é acentuar o papel educativo dos veículos.
A televisão, apontou Maria Helena, não constrói apenas uma agenda informativa, mas também de comportamento. Ela mencionou a novela, que apresenta um perfil de homem e um perfil de mulher.
É preciso estar atento, denunciar, tornar a realidade transparente, defendeu a jornalista chilena. "Não é natural que menina aprenda a cozinhar e o menino não. Trata-se de uma construção cultural", disse. Ela propôs o monitoramento dos meios de comunicação de massa e o questionamento dos modelos de participação pública.
Aos 25 anos de idade, Maria Helena foi confrontada com a discriminação salarial. Ela exercia, então, as mesmas funções em redação que um colega, mas ganhava um salário inferior. "Temos que indagar porque há muitas mulheres trabalhando nas bases, mas quase não as vemos nos cargos executivos. É preciso lutar por cargos importantes", admoestou.
Colocar o tema da mulher na agenda pública e nos meios de comunicação de massa é um dos desafios deixados pela presidente da WACC-América Latina.
"Essa é uma luta que deve acontecer também na igreja", admitiu Ana Maria, indagada a respeito da participação da mulher na Igreja Católica. "Quando se questiona a hierarquia a respeito, não obtemos respostas", lastimou a colombiana, informando que é quase nula a participação de comunicadoras nos meios de comunicação católicos.
Maria Helena defendeu a leitura crítica dos meios de comunicação de massa. Ao pesquisar entrevistas em emissoras de rádio e em jornais notou que, quando a entrevistada era mulher apareciam perguntas sobre filhos, família, indagações que não são feitas a entrevistados homens.
Essa foi a primeira vez que os dois organismos de comunicadores cristãos da América Latina, a WACC e a OCLACC, trabalharam juntos em oficinas do Fórum Social Mundial. Um outro tema que desenvolveram versou sobre a comunicação comunitária e participativa.
As oficinas contaram com a participação de Pedro Sanchez, do Peru, e de Atillio Hartmann, respectivamente presidente e vice-presidente da OCLACC.
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