![Obispa Margot Kaessmann, da Alemanha [foto Susanne Buchweitz.]](/picture/Kaessmann_Margot_bfb797.jpg)
Kaessmann: nome de Deus está sendo usado para justificar violência
Susanne Buchweitz, PORTO ALEGRE, Brasil, Janeiro 28, 2003
"Quando o presidente Bush diz hoje que o Iraque tem que se desarmar, eu concordo. Taxi Heathrow Airport Mas eu vou além: na verdade, o mundo tem que se desarmar, incluindo os Estados Unidos", afirmou a bispa Margot Kaessmann, ao falar no espaço do "Testemunho" durante no 3. Fórum Social Mundial (FSM).
Aplaudida diversas vezes pelo público, Kaessmann falou sobre o que é ser igreja na Alemanha, sobre sua cruzada contra a violência e como descobriu, aos 16 anos, o líder Martin Luther King e a mensagem de que fé e engajamento político podem andar lado a lado.
"Como igreja luterana na área rural do norte da Alemanha, tentamos ser parte do corpo de Cristo na nossa vida espiritual, ao mesmo tempo em que damos testemunho de que todo e qualquer ser humano tem direitos fundamentais e é criado à imagem de Deus", disse.
Margot é bispa da Igreja Territorial de Hannover. Um dos testemunhos é que refugiados não são mendigos, mas mensageiros da atual condição do mundo.
Mas essa mensagem, comentou, muitas vezes, não é bem recebida. "Minha experiência mostra que sempre de novo pessoas dos países mais ricos tentam esquecer injustiças, tentam ignorar que muitos vivem em total pobreza."
Ela lembra que um tênis comprado na Alemanha ao preço de US$ 100.00 (cem dólares) é produzido por operária mulher num país asiático que ganha US$ 0.70 (setenta centavos de dólar) por hora; o astro de futebol que gravou o comercial do tênis ganhou US$ 1 milhão para faze-lo.
"Estruturas injustas estão em toda a parte. Muitas pessoas não conseguem agüentar isso e realizam uma fuga virtual", disse. Os alemães gastam em média nove dos seus 75 anos de vida em frente a uma televisão. "Que vida terrivelmente solitária e vazia", exclamou.
Uma das razões pela qual o mundo precisa de encontros como este em Porto Alegre é que os países desenvolvidos perderam a visão de mudança e as pessoas vivem de forma individualista.
"Algumas vezes, eu acho que as pessoas, no meu país, perderam a esperança de que outro mundo é possível."
Ao ouvir as muitas vozes no Fórum Social Mundial, ela percebeu quão pouco os países industrializados sabem sobre outros continentes. Para ela, o "testemunho" do presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva, na sexta-feira, 24, durante o Fórum, revelou esperança e sonhos que são cada vez mais raros de se encontrar.
"Como bispo de uma igreja, meu coração dói por saber que as pessoas no meu país tem tudo, se fizermos a comparação usando medidas de consumo. Mas muitas são vazias, pois falta-lhes espírito, amizade, objetivo, esperança."
Violência – O regime de "apartheid" esteve muitos anos na agenda do Conselho Mundial de Igrejas (CMI). O Conselho, que tem 342 igrejas-membro em mais de 100 países, reuniu seu Comitê Central pela primeira vez na África do Sul em 1994. Foi um momento festivo, durante o qual o bispo Stanley Mogoba perguntou se não era o momento de se criar um Programa de Combate à Violência, uma vez que o Programa de Combate ao Racismo havia contribuído tanto para o final do "apartheid".
A idéia está no ar. Na Europa, as pessoas são confrontadas com racismo e xenofobia. Estudo recente mostrou que os jovens alemães apresentam o maior índice de xenofobia.
"Nós temos que ensinar os nossos jovens", disse Kaessmann. "Temos uma iniciativa local que junta alemães, russos e turcos para que eles se conheçam e trabalhem seus conflitos."
"Estou convencida de que o nome de Deus está sendo usado – mal – para justificar violência", disse. O 11 de setembro mostrou, de forma simbólica, a crueldade das pessoas que se tornaram vítimas do ódio. E isso acontece todos os dias.
"Nosso engajamento pela paz deve continuar. Os cristãos devem manter a visão de que é possível viver em conjunto, sem violência, neste planeta."
Especial
Entrevistada durante o Fórum Social Mundial, Margot Kaessmann apontou para a 10a. Assembléia da Federação Luterana Mundial, agendada para julho, em Winnipeg, Canadá.
O Fórum Social Mundial realizado em Porto Alegre, avaliou, reuniu pessoas de muita visão. "Aqui, vi esperança e uma sociedade civil engajada", disse. Qualificou o encontro de global network – uma rede global.
"Estou muito impressionada com a hospitalidade e, em especial, com a participação no Fórum da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), que é a igreja local."
Também mencionou a participação eclesiástica/ecumênica no evento, dizendo com muita convicção que as igrejas precisam participar de eventos como o FSM. "Neste ano, a participação já foi maior, mas precisa ser mais intensificada".
Ao se referir sobre o tema escolhido para o encontro em Winnipeg, Pela Cura do Mundo (For the Healing of the World), a bispa falou da adequação da escolha, lembrando que o mundo hoje precisa desesperadamente de cura.
"Presenciei esta necessidade de cura em todas as oficinas e atividades das quais participei, e nas pessoas com quem falei aqui em Porto Alegre".
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