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Segunda-feira, 31 de Maio de 2004

Rostos denunciam conseqüências do modelo

Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil, Janeiro 26, 2003

Ele falou pouco. Mostrou a morte, denunciou a omissão dos países ricos, da gente. Ele Taxi Heathrow Airport falou pouco, mas as fotos, em preto e branco, inseridas em audiovisual embaladas por música que perguntava "por que tanto sofrimento?" desnudam a realidade.

No pouco que falou, disse: "A humanidade não tem o direito de abandonar um continente inteiro, como é o caso da África. O que lá acontece é de uma imoralidade terrível".

O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, 58 anos, reconhecido pela sua "fotografia engajada", foi um dos convidados do 3. Fórum Social Mundial para apresentar "Testemunho".

No audiovisual sobre a África ele mostrou as dores da aids, o abandono de refugiados e as conseqüências de guerras, que não são conflitos étnicos entre nações tribais, mas resultado de interesses econômicos, garantiu. Na África a morte tem cor.

Economista com doutoramento em Paris, Sebastião Salgado nasceu em Minas Gerais, formou-se em Economia, teve que deixar o país, em 1969, fugido da ditadura militar.

Depois de concluir seus estudos, foi trabalhar em Londres, num banco de investimento que atuava no setor do café. Empreendeu muitas viagens ao continente africano em função do café, ocasiões em que também tirava foto com máquina emprestada da mulher, Lélia.

"Descobri que a fotografia me dava dez vezes mais prazer do que os relatórios que preparava para o banco".

Deu uma guinada de vida. Largou o banco e foi trabalhar como frelance em agência fotográfica. Passou pela Sigma, Gama e Magno. Apaixonou-se pela fotografia documentada.

Prestou serviços ao Conselho Mundial de Igrejas, a Médicos Sem Fronteiras, contratado por esta para registrar a fome na África. Acompanhou as campanhas de independência de países africanos. "Tenho um arquivo fotográfico fantástico da época", informou.

Muito aplaudido, especialmente por jovens que engrossaram os mais de 2 mil ouvintes apinhados numa das salas de conferência da Pontifícia Universidade Católica (PUC), Sebastião contou que não podia regressar ao Brasil durante o regime militar, pois seria preso.

Mas, louco de saudade da terra, empreendeu viagens a países vizinhos, Uruguai, Bolívia, Peru. Estava próximo. Juntou muito material. Nasceu o primeiro livro, em 1984, do que recolheu de 16 viagens à região.

Esquecido, por mais de uma vez recorreu à Lélia para chegar a nomes. Auxiliado, anunciou o nome do primeiro livro: "Outras Américas".

Depois de pouca fala, emprestou o seu olhar para mostrar o "Êxodo rural, desordem urbana", título do primeiro audiovisual que apresentou no seu "Testemunho".

Numa viagem que começa na selva amazônica brasileira, sobe os Andes, viaja países da região, vai ao México, estende-se às Filipinas e outros países asiáticos – 950 fotos, com músicas dos países de onde foram captadas – muitas delas enfocando rostos: cansados, abatidos, esperançosos, tristes, expressivos, vazios. Rostos de uma ternura denunciadora das conseqüências do modelo concentrador de terras e rendas.

E falando do Brasil fulminou: "Temos o país mais imoral do planeta em termos de concentração de renda, e o segundo em concentração de terra. O primeiro é o Paraguai". Em março, Sebastião completa 30 anos de fotografia profissional.

Agora, além das fotos, está envolvido num projeto ecológico nas Gerais onde nasceu, de recuperação da mata atlântica. Ele e a mulher, Lélia Wanick Salgado, ex-pianista, arquiteta e urbanista com doutorado na França, autora de desenhos e capas dos seus livros, criaram o Instituto Terra.

O Instituto já promoveu o plantio de 500 mil pés de árvores nativas na Fazenda Bulcão, município de Aimorés, região do Vale do Rio Doce, onde nasceu. A meta é o plantio de 1,5 milhão de árvores.

Aliás, na época em que nasceu a área era coberta em 70% de sua extensão pela mata atlântica. Restaram 0,3%. O Instituto tem, em Aimorés, até escola de capacitação, voltada aos que querem se engajar no cuidado do jardim-mundo.

Sebastião Salgado, 58 anos, falou pouco. Mostrou muito. Falou do coração, como iniciou seu "Testemunho".