Voltar ao início

Segunda-feira, 31 de Maio de 2004

Diálogo com excluídos provoca mudanças, diz pastor

Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil, Janeiro 24, 2003

O crescimento da participação do setor privado no financiamento de projetos de desenvolvimento no Brasil Taxi Heathrow Airport e o conseqüente retraimento do ator público traz embutido o perigo de a concepção das prioridades no campo social serem definidas sob uma lógica privada e não pública.

"Espero que com o governo Lula isso mude", disse o sociólogo Domingos Armani na oficina organizada pela Fundação Luterana de Diaconia (FDL) durante o Fórum Social Mundial. A oficina tratou de definir o que se entende por um bom projeto de desenvolvimento.

Um bom projeto, definiu o pastor e um dos painelistas da oficina, Jorge Gerhardt, do Uruguai, é aquele que busca vida, realizando sonhos e respeitando necessidades sentidas, e que gere mudança social.

Um bom projeto é aquele que transmite um espírito diferente ao que está instalado na sociedade, busca as pessoas que estão excluídas, incluindo-as, acrescentou.

Alertou, contudo, que ao entrar em diálogo com os excluídos "também nós mudamos". E essa transformação gera medo na Igreja, porque ela parte do princípio de que é portadora da verdade.

"E quem tem a verdade não precisa mudar", disse. Transformar-se numa comunidade inclusive exige muita flexibilidade, destacou. Gerhardt é pastor da Igreja Evangélica Rio da Prata (Ierp) e trabalha no bairro Bora, de Montevidéu.

Armani politizou a discussão da sustentabilidade de projetos de desenvolvimento. Dinheiro, afirmou, não é apenas uma questão econômica, mas é, primordialmente, um assunto político, porque trata-se de concepções e de relações de poder.

Um bom projeto, descreveu, é aquele que consegue seduzir pessoas a dele participar, que traz embutido a capacidade de inovação e é capaz de gerar mudanças sociais.

A sustentabilidade, alertou, não se restringe ao aspecto financeiro, mas envolve também a credibilidade da organização que está desenvolvendo o projeto, da capacidade de captação de recursos que ela tem, do grau de eficiência na administração desses recursos e na estratégia que a organização define para promover mudanças.

O sociólogo destacou, contudo, que cada vez menos pessoas acreditam que organizações não-governamentais possam ser auto-suficientes. Elas dependem, cada vez mais, de recursos a fundo perdido, sejam eles públicos ou privados.

Fátima Nascimento, da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (Cese), foi outra convidada da FLD para a oficina. Ela entende que os projetos de desenvolvimento precisam avançar mais na participação de jovens e de mulheres, e nos mecanismos de democratização do seu gerenciamento.

Nos 30 anos de existência, CESE analisou e avaliou mais de 10 mil projetos, aprovando e garantindo financiamento a 60% daquele total.

A organização Crédito com Educação Rural (Crecer), da Bolívia, trabalha quase que exclusivamente com mulheres. A ajuda que Crecer proporciona sempre está vinculada a um programa educacional, informou Alfonso Torrico Adad, gerente de operações desse organismo e o quarto participante da oficina da FDL.

Crecer tem 40 mil "sócias"; 40% dessas sócias são mulheres muito pobres e outras 40% de pobres, a maior parte vivendo em ambiente rural, beneficiárias de recursos para o desenvolvimento de atividades produtivas.

 O dinheiro alcançado às mulheres é empregado no lar e tem desdobramentos na família.

Um dos enfoques dos programas de Crecer é a segurança alimentar, provendo boa alimentação para crianças até cinco anos de idade, garantindo, assim, um desenvolvimento intelectual sadio.

Crecer opera com 5,8 milhões de dólares em recursos destinados a programas de educação e empréstimos que visam a geração de recursos aos tomadores, e é apontada como uma ONG exemplar pelo zelo que mantém no aspecto da sustentabilidade.