![Raúl Suárez, do Centro Memorial Martin Luther King de Havana, Cuba. [Foto: CIC]](/picture/Suarez_Raul_b91454.jpg)
Uma bandeira de Deus que cristãos não querem ver, aponta bispo
Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil, Janeiro 27, 2003
"Cuba é uma bandeira de Deus, como a nos indicar que um outro mundo é Taxi Heathrow Airport possível. O problema é que a cegueira do cristianismo não nos permite ver isso", declarou o bispo anglicano Sebastião Gameleira Soares ao término da apresentação, hoje pela manhã, do relato das atividades do Centro Memorial Martin Luther King Jr, de Havana. O bispo esteve em três ocasiões na ilha.
O pastor batista e deputado nacional Raúl Suárez, presidente do Centro Memorial, disse que a revolução cubana tem muitos defeitos, "mas a nossa sociedade é mais participativa do que as demais da América Latina", destacou.
Ele admitiu, contudo, que Cuba tem que acelerar a participação popular na política e na economia, assim como já acontece na cultura, na educação e na saúde.
Emocionado, ele agradeceu a solidariedade dos cristãos latino-americanos para com o povo cubano. "Betto (frei Betto) foi um apóstolo da Igreja Católica que veio a Cuba. O seu livro `Fidel e a religião’, de 1985, ajudou no processo de conscientização política das igrejas", destacou.
Aplaudiu, ainda, a vinda de Ernesto Cardenal a Cuba. "Ele e Fidel (Castro) se evangelizaram mutuamente", disse. Suárez, que é pastor da Igreja Batista Ebenézer, de Marianao, historiou a trajetória do protestantismo, que chegou à ilha pelos "missionários patriotas".
Exilados cubanos, que tiveram que deixar Cuba depois da primeira guerra da independência (1868-1878), entraram em contato com o protestantismo histórico nos Estados Unidos. Conheceram, de modo especial, as igrejas batista do sul, anglicana, presbiteriana e metodista.
Eles retornaram por volta de 1882, introduzindo o protestantismo na ilha. No final da década ele já estava presente na principais cidades. Só mais tarde vieram os missionários tradicionais, acompanhando os interventores norte-americanos.
O embargo econômico que os Estados Unidos impuseram a Cuba há mais de 40 anos foi, de uma certa maneira, uma bênção para os cristãos cubanos, que se viram livre da influência da teologia individualista, assinalou.
"Os norte-americanos nos ensinaram que participação política era pecado. Ele nos incutiram uma mentalidade intramuros".
Também trouxeram a ética puritana do "não pode". Não pode fumar, não pode dançar, não pode beber (sem que isso significasse ficar bêbado), contrariando o temperamento do povo cubano.
"Os protestantes cubanos eram pobres, mas interiorizaram, com aquela teologia, uma mentalidade de classe média", explicou Suárez.
A revolução pegou os protestante imbuídos do espírito do apoliticismo. "Custou-nos muito trabalho entender os nossos antecedentes" e partir para um despertamento teológico, de entender a fé cristã num sistema marxista. "Nem mesmo no Magnificat de Maria víamos um texto revolucionário", relatou Suárez.
O primeiro contato do pastor da Igreja Ebenézer com a teologia latino-americana deu-se em 1977, ao participar de seminário no México. Confessou, contudo, que alguns teólogos da libertação lhe "metiam medo", pois, entendia, tratavam mais de sociologia do que de teologia.
Luzes vieram com os escritos de Gustavo Gutierrez e do tcheco Joseph Hromadka, autor do livro "O Evangelho para os ateus", uma interpretação teológica do marxismo.
Suárez lamentou que os primeiros teólogos estrangeiros que pisaram em Cuba, em 1968, vieram a convite do Partido Comunista, não da Igreja. "Eles vieram ensinar teologia para os comunistas", disse. A participação política de crentes já é possível em Cuba, porque a teologia mudou.
Mesmo assim, não interessa a determinada hierarquia evangélica, nos dias atuais, trazer sermões do bispo emérito Federico Pagura, um dos presidentes do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), a templos cubanos. "É que Pagura fala de neoliberalismo, da ALCA, em seus sermões. O povo aplaude", revelou Suárez. É que muitos daqueles líderes não querem ter problemas de visto, ao viajarem aos Estados Unidos, explicou.
Hoje, são as igrejas pentecostais cubanas que buscam uma leitura revolucionária da Bíblia em Cuba. "São os pentecostais os que mais participam dos Cursos de Educação Pastoral oferecidos pelo Centro Martin Luther King", relatou o pastor batista. Das mais de 1 mil pessoas que já passaram pelos seminários ofertados pelo Centro no campo da educação popular, 90% não vieram de igrejas, contabilizou.
Em entrevista para a ALC, ele assegurou que hoje em dia ninguém mais fala em ateísmo em Cuba. Também lamentou o empreendimento de missões cristãs que enviam missionários a Cuba. "Elas têm que reconhecer o nosso trabalho. Queremos, sim, trocar experiências", garantiu, lembrando que a Igreja cubana foi abençoada por Deus, que proporcionou um avivamento religioso na ilha.
Evangélicos sempre foram minoria no país. Eram pouco mais de 60 mil, em 1959. Na atualidade, somam cerca de 500 mil crentes, dentre uma população de 11 milhões de pessoas.
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