Voltar ao início

Segunda-feira, 31 de Maio de 2004

Caingangues denunciam preconceito

Edelberto Behs, PORTO ALEGRE, Brasil, Janeiro 17, 2003

Preconceito racial! Esse foi o enfoque dos 12 discursos proferidos durante a manifestação da comunidade Taxi Heathrow Airport caingangue da Reserva Guarita, realizada na quarta-feira, 15, em Miraguaí, em protesto contra o assassinato do índio Leopoldo Crespo.

Crespo foi morto a chutes e pedradas enquanto dormia na calçada da principal avenida da cidade. Miraguaí está localizada no norte do Estado do Rio Grande do Sul.

Essa foi a primeira vez, relatou o repórter Carlos Wagner, do jornal Zero Hora, que índios da Reserva Guarita fazem uma passeata denunciando o preconceito racial.

Centenas de caingangues deixaram a reserva em passeata e se dirigiram, portando faixas e bandeiras, até o local onde Crespo foi assassinado. Crespo era considerado um sábio da tribo. À frente da passeata estava João Crespo, 36 anos, filho do índio assassinado.

Os prefeitos de Redentora e Miraguaí – municípios que fazem divisa com a reserva – pregaram a conciliação entre índios e brancos. Ao longo da passeata, donos de pequenos mercados fecharam as portas, com medo de represálias da comunidade indígena.

Alguns desses botecos retêm cartões magnéticos de índios aposentados como garantia de pagamento das compras mensais. A prática suscita dependência e exploração, uma vez que os índios se vêem obrigados a comprar nesses mercados.

Crespo foi morto por dois jovens e um adolescente quando dormia na Avenida Ijuí, a principal de Miraguaí. Os jovens estão detidos em presídio da região e o adolescente foi levado a um centro de recuperação, na cidade de Santo Ângelo.

Organizações que apoiam a causa indígena entendem que o crime deve ser julgado pela Justiça Federal, uma vez que o assassinato está relacionado ao preconceito da comunidade branca em relação aos moradores da reserva.

O Conselho Indigenista Missionário (Cimi), vinculado à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), denunciou, ontem, o assassinato do cacique guarani-kaiowá Marcos Veron, 74 anos, ocorrido na segunda-feira, 13.

Marcos foi espancado até a morte por funcionários da fazenda Brasília do Sul, em Juti, a 280 Km de Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul.

O cacique liderou cerca de 100 índios na retomada, sábado, 11, de terra indígena. Segundo relato dos guaranis, o administrador da fazenda Brasília do Sul, localizada em terras indígenas, e policiais foram até o acampamento, no domingo, e disseram aos índios que estavam ali para protegê-los.

No dia seguinte, mais de 50 pessoas, entre jagunços e policiais, invadiram o acampamento e agrediram os índios. Os guaranis relataram que seis mulheres foram estupradas, um índio foi ferido a bala, uma pessoa foi morta e duas pessoas da comunidade estão desaparecidas.

O Cimi solicitou providências e ações urgentes ao Ministério da Justiça, para coibir a onda de violência contra os índios, que se verifica de norte a sul do país.

A Justiça decretou a prisão do administrador da fazenda, Nivaldo Alves de Oliveira, que está foragido, e de dois funcionários da fazenda, Estevão Romero e Carlos Roberto dos Santos, que já estão presos. O corpo de Veron foi enterrado, quarta-feira, na fazenda, com autorização da Justiça.