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Domingo, 7 de Novembro de 2004

Doutor Oneide Bobsin
Doutor Oneide Bobsin

A vinda do Messias

Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil

Com mais de 52 milhões de votos, um trabalhador metalúrgico é eleito presidente do Brasil, Taxi Heathrow Airport um país cuja economia se encontra entre as dez maiores de nosso planeta.

 Desde o dia de sua eleição, Lula foi transformado numa espécie de pop star. Por onde passa  milhares de pessoas se reúnem para vê-lo e muitas delas  fazem um esforço para tocá-lo, como se dele emanasse um  poder especial. Inclusive acedeu ao desejo  de um menino paraplégico que queria cumprimentá-lo.

 Mas Lula não aparece aos olhos populares apenas com um campeão de voto ou como um rei taumaturgo no qual se pretende tocar; na sua eleição está representada a esperança de milhões de pessoas que sonham com algum tipo de mudança, depois de 8 anos de um governo liderado pelo “príncipe dos sociólogos”, que promoveu o maior  desemprego da história brasileira.

 Diante desta comoção, um dos colegas sociólogos do presidente Fernando Henrique Cardoso joga na imprensa  a suspeita de que Lula poderia estar fazendo ressurgir um sentimento messiânico residual adormecido em parcela da população.  Lula lembraria Dom Sebastião, rei português morto há séculos numa batalha e do qual esperava  a sua volta, por vezes, para instaurar uma idade de ouro?

 O exagero desta  suposição desvia nossos olhares daquilo da esperança da mudança. De certa forma, pode ser uma versão modificada da tentativa de intimidar a população a que recorreu o candidato de FHC, expressa pela boca de uma famosa atriz: estou com muito medo, pois podemos perder as conquistas do plano real, entre as quais a baixa inflação.

 Mais recentemente o próprio presidente da república emprestou sua voz para dizer que também está apreensivo como o novo Governo, como se Lula já governasse em seu lugar. Para FHC, também o medo já está tomando o lugar da esperança.

 Os movimentos e as perspectivas de formação de Governo feitos por Lula  não dão lugar ao medo. O assédio das massas, a busca de apoio em diversos segmentos da sociedade para um pacto social, sua capacidade de falar  a linguagem do povo sinalizam para um governo de participação. Aliás, Lula entende o Governo e o Estado como indutores do desenvolvimento, o que o distancia de qualquer imagem messiânica.

 Logo, Lula  não suscita a idéia de salvador da pátria. Sua formação sindical e política nos autoriza a dizer que o seu ponto forte é a negociação dentro dos marcos da legalidade, radicalizando, desta forma, a democracia.

 A visita recentemente a Garanhuns, sua terra natal no agreste pernambucano, atesta  que ele é o antimessias. Frente a dez mil pessoas  o filho mais ilustre daquele lugarejo esturricado pela seca, Lula disse com emoção, que é bom voltar depois  de 50 anos, como presidente, de onde saiu aos 7 anos para não morrer de fome. Isto nos mostra, continua  Lula, que não devemos baixar a cabeça diante das dificuldades. 

 De certa forma, tais palavras já fora preanunciados um dia após as eleições, no Jornal da Globo,  quando o presidente eleito foi perguntado sobre o “nervosismo do mercado” decorrente da alta do dólar, cotação da Bolsa de Valores, etc. Ironicamente respondeu: Vocês não têm outros assuntos? Cadê a fome, o desemprego, a miséria, a desigualdade social?

A filósofa,  Marielena Chaui, que recuperou tais palavras de Lula como um símbolo de mudança,  afirmou: A formação  e a história políticas do presidente eleito, pautadas pelo valor conferido à cidadania, vão na direção contrária à das tradições populista e messiânica.

A quem, pois, o medo faz perecer a esperança, o verdadeiro messias é outro. Já estamos celebrando  o seu Advento. Diferente de Lula, ele foi eleito por Deus.

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Oneide Bobsin, Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil.