
A vinda do Messias
Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil
Com mais de 52 milhões de votos, um trabalhador metalúrgico é eleito presidente do Brasil, Taxi Heathrow Airport um país cuja economia se encontra entre as dez maiores de nosso planeta.
Desde o dia de sua eleição, Lula foi transformado numa espécie de pop star. Por onde passa milhares de pessoas se reúnem para vê-lo e muitas delas fazem um esforço para tocá-lo, como se dele emanasse um poder especial. Inclusive acedeu ao desejo de um menino paraplégico que queria cumprimentá-lo.
Mas Lula não aparece aos olhos populares apenas com um campeão de voto ou como um rei taumaturgo no qual se pretende tocar; na sua eleição está representada a esperança de milhões de pessoas que sonham com algum tipo de mudança, depois de 8 anos de um governo liderado pelo “príncipe dos sociólogos”, que promoveu o maior desemprego da história brasileira.
Diante desta comoção, um dos colegas sociólogos do presidente Fernando Henrique Cardoso joga na imprensa a suspeita de que Lula poderia estar fazendo ressurgir um sentimento messiânico residual adormecido em parcela da população. Lula lembraria Dom Sebastião, rei português morto há séculos numa batalha e do qual esperava a sua volta, por vezes, para instaurar uma idade de ouro?
O exagero desta suposição desvia nossos olhares daquilo da esperança da mudança. De certa forma, pode ser uma versão modificada da tentativa de intimidar a população a que recorreu o candidato de FHC, expressa pela boca de uma famosa atriz: estou com muito medo, pois podemos perder as conquistas do plano real, entre as quais a baixa inflação.
Mais recentemente o próprio presidente da república emprestou sua voz para dizer que também está apreensivo como o novo Governo, como se Lula já governasse em seu lugar. Para FHC, também o medo já está tomando o lugar da esperança.
Os movimentos e as perspectivas de formação de Governo feitos por Lula não dão lugar ao medo. O assédio das massas, a busca de apoio em diversos segmentos da sociedade para um pacto social, sua capacidade de falar a linguagem do povo sinalizam para um governo de participação. Aliás, Lula entende o Governo e o Estado como indutores do desenvolvimento, o que o distancia de qualquer imagem messiânica.
Logo, Lula não suscita a idéia de salvador da pátria. Sua formação sindical e política nos autoriza a dizer que o seu ponto forte é a negociação dentro dos marcos da legalidade, radicalizando, desta forma, a democracia.
A visita recentemente a Garanhuns, sua terra natal no agreste pernambucano, atesta que ele é o antimessias. Frente a dez mil pessoas o filho mais ilustre daquele lugarejo esturricado pela seca, Lula disse com emoção, que é bom voltar depois de 50 anos, como presidente, de onde saiu aos 7 anos para não morrer de fome. Isto nos mostra, continua Lula, que não devemos baixar a cabeça diante das dificuldades.
De certa forma, tais palavras já fora preanunciados um dia após as eleições, no Jornal da Globo, quando o presidente eleito foi perguntado sobre o “nervosismo do mercado” decorrente da alta do dólar, cotação da Bolsa de Valores, etc. Ironicamente respondeu: Vocês não têm outros assuntos? Cadê a fome, o desemprego, a miséria, a desigualdade social?
A filósofa, Marielena Chaui, que recuperou tais palavras de Lula como um símbolo de mudança, afirmou: A formação e a história políticas do presidente eleito, pautadas pelo valor conferido à cidadania, vão na direção contrária à das tradições populista e messiânica.
A quem, pois, o medo faz perecer a esperança, o verdadeiro messias é outro. Já estamos celebrando o seu Advento. Diferente de Lula, ele foi eleito por Deus.
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Oneide Bobsin, Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil.

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