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Domingo, 7 de Novembro de 2004

Rey, pastor batista, disse que apoio a Pinochet é uma página escura na história das igrejas evangélicas do Chile
Rey, pastor batista, disse que apoio a Pinochet é uma página escura na história das igrejas evangélicas do Chile

1984 em 2002

Víctor Rey, SANTIAGO, Chile

- O Irmão Maior Existe?  ---- Claro que existe. O partido existe. O Irmão Maior Taxi Heathrow Airport é a personificação do partido.

- Existe da mesma maneira que eu existo? --- Você não existe, disse O’Brien (George Orwell, "1984", Paris: Gallimardi, Coll. Folio, 1983).

Corre o ano de 1948. A tuberculose avança enquanto George Orwell escreve um novo livro. Sabe que será o último e quer que seja o mais combativo, o mais explícito, o mais convincente. Sua última obra descreve uma sociedade na qual a máquina e o Estado triunfaram sobre o homem e a mulher individual.

Nessas páginas estão as coisas que lhe coube viver. O colonialismo inglês na Índia e na Birmânia, os meios de comunicação convertendo a mentira em verdade, e os amigos em inimigos durante a Guerra Civil Espanhola, as demências lúcidas do nazismo, o fascismo, o estalinismo.

Aos 45 anos ele está velho e enfermo. George Orwell, cujo nome original era Eric Blair, nasceu num modesto lar anglosaxão em Motihari, na Índia. O homem que abandonou o seu nome aos 30 anos de idade, depois de graduar-se em Eton e patrulhar com uniforme branco e sombrero as ruas de Rangún, empreendeu uma carreira de proletário escritor.

Fraco e estirado, com ar de sacerdote, duas mechas de cabelo bailando sobre a frente cheia de rugas, George Orwell era um individualista, agnóstico, maníaco por limpeza, carente de vaidade, eternamente mal-vestido, ausente, de gestos rudes. Um rebelde mais que um revolucionário, sempre conseqüente, sempre coerente, sempre decente consigo mesmo e com os demais.

O mundo não lhe agradava e quis mudá-lo. Reclamou contra a desonestidade e a onda de mentiras em todos os seus ensaios e artigos jornalísticos, combateu junto aos trotskistas na Guerra Civil Espanhola e defendeu os anarquistas em "Homenagem à Catalunha" (1938).

Em plena Segunda Guerra Mundial denunciou os desesperançados resultados da revolução soviética, escrevendo a fábula satírica "Rebelião na Granja", no qual diz: "Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais que outros".

Terminada a guerra, a paz não chegou. Orwell advertiu sobre os germens do totalitarismo presentes em todas as sociedades do mundo. Intuiu que o planeta se dividiria em blocos inexoravelmente antagônicos, que a permanente luta entre esses blocos justificaria todo tipo de atropelos aos direitos humanos, que o poder se concentraria cada vez mais, que o mundo podia chegar a converter-se numa ditadura irreversível.

Contra isso gritou. O livro "1984" foi publicado sete meses antes de sua morte em Londres, em 1950, e constitui mais uma advertência que uma profecia. A novela assinala um caminho que não devemos recorrer. E como tal nunca perderá vigência, enquanto existir a humanidade e a tentação do poder.

Em julho de 1984 fomos desafiados a ler a novela "1984" pelo teólogo peruano Samuel Escobar, que visitava o Chile. Em janeiro de 2002, seis meses depois de regressar ao Chile, ao revisar meus livros que deixara por dez anos, voltei a me encontrar com o velho exemplar de uma edição soviética desse livro.

Tornei a lê-lo, agora que já não existe a "Guerra Fria", nesses tempos de globalização, neoliberalismo e pós-modernidade. Constatei com assombro a vigência que tem a importância de voltar a lê-lo e estudá-lo, já que dá muitas luzes sobre essa nova época e lições que podemos aprender para a Igreja.

Esse famoso livro escrito pelo inglês George Orwell é uma obra de ficção, na qual o autor imaginou o futuro. Quando a escreveu, ao finalizar a Segunda Guerra Mundial, não pensou que o tempo transcorreria tão rápido. "1984" era uma data distante, até a qual tudo era possível.

O que Orwell fez foi tomar algumas tendências de sua época e mostrar como elas se desenrolariam no transcurso do tempo. Algumas dessas profecias foram cumpridas, outras não. Algumas coisas horríveis, que pareciam muito distantes, são agora fatos de todos os dias. São parte da cena mundial que aceitamos com naturalidade.

Quero citar três elementos desse livro que me parecem importantes. Primeiro: uma coisa que Orwell dá a conhecer com insistência é o que se refere à manipulação da história. O personagem chamado Winston Smith trabalhava no "Ministério da Verdade" e uma coisa que tinha que fazer todo o dia era revisar a história, ler os jornais e livros para acomodá-los ao que o partido havia dito nesses dias.

Existia um partido que dominava a sociedade e tinha que demonstrar que a ideologia descrita nos livros se cumpria na realidade. E se não era assim, era preciso mudar a realidade, apagar os discursos, os jornais, e, para tanto, recorria-se às técnicas modernas. A função do personagem central era a de acomodar a história aos interesses do partido.

Uma tal situação assusta. Mas na América Latina temos visto exemplos disso com muita freqüência. Uma das coisas que hoje particularmente está acontecendo na América Latina e no mundo é justamente a revisão da história.

Todo grupo que se encontra no poder não tem apenas força para manejar a história para frente, mas também para o passado. Na América Latina está se ensinando a história a partir de uma perspectiva na qual se dá primazia ao econômico acima de outras áreas da vida, e tudo aquilo que não tem transcendência econômica deixa-se de lado como pouco importante.

Numa tal visão da história, falar da Igreja, da espiritualidade, de Deus, vem a ser falar da Igreja somente como uma força econômica, posta a serviço da economia.

Segundo: outra coisa que Orwell nos adverte é a existência de uma forma ambígua de linguagem, na qual o preto é branco, a paz é guerra, a liberdade é escravidão, a ignorância é força, a verdade é mentira. Manipula-se o vocabulário. As palavras não significam o que significavam originalmente.

Em nossos dias assistimos a uma situação parecida, na qual as palavras verdade, liberdade, igualdade, democracia, etc., manipulam-se de acordo com o governo de turno que se encontra no poder.

Terceiro: uma expressão famosa do livro de Orwell é "O Irmão Maior te vigia". O mundo de pesadelo que Orwell imaginou é um mundo no qual a vida privada, a interioridade, a vida individual, já não é possível.

Havia todo um sistema de espionagem através da eletrônica, de maneira que as ações de uma pessoa eram controladas pelo Estado mediante uma rede de investigação.

O personagem da novela de Orwell se dá conta que não pode pensar por conta própria. Tudo está vigiado. Por todas as partes o "Irmão Maior te está vigiando", portanto, deve autocensurar-se.

Essa situação é uma realidade hoje. Vemos como as grandes potências têm informação acerca de todos os países do mundo, através de satélites e outros mecanismos sofisticados.

Todos somos vigiados. O Peru visto através das múltiplas gravações de vídeo que Vladimiro Montesinos, assessor do presidente Fujimori, fez é um exemplo recente do que estamos dizendo. No Chile, um político jovem viu frustradas suas possibilidades de ser candidato à presidência da República porque descobriu-se que suas conversações eram escutadas e gravadas pelo pessoal do exército.

Um pensador cristão francês, Jacques Ellul, disse que a propaganda, a publicidade, é um fenômeno característico da nossa época. A propaganda, assinalou, é uma realidade porque todo Estado, qualquer que seja seu signo, a necessita.

E a Igreja está tentada a utilizar a propaganda, a influência dos meios de comunicação, para transformar a mensagem de Jesus Cristo meramente numa propaganda. Isso dá o que pensar.

Graças a esse livro, "1984" não é 2002. Ainda.

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Víctor Rey, pastor batista chileno, líder da Fraternidade Teologica Latino-Americana (FTL) e de Visión Mundial-Chile.