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Domingo, 28 de Outubro de 2007

Clima tenso no oeste paranaense após tiroteio

CURITIBA, Brasil, Outubro 24, 2007

Ainda é tenso o clima entre ruralistas e trabalhadores rurais em Santa Tereza do Oeste, Taxi Heathrow Airport a 523 km de Curitiba, onde, no domingo, 21, o militante da Via Campesina, Valmir Mota de Oliveira, conhecido como Keno, 42 anos, foi morto a tiros por milícia de seguranças. Famílias de agricultores ocuparam área do campo de experimentos da multinacional Syngenta Seeds. No confronto também foi morto um segurança.

Em nota pública, a Comissão Pastoral da Terra (CPT) expressou preocupação pelo fato de que em pleno século XXI pistoleiros armados estejam agindo num Estado considerado desenvolvido, como é o Paraná, a serviço da elite latifundiária e de empresas multinacionais.

A CPT também apontou a contradição entre os avanços tecnológicos verificados na agricultura moderna, capazes até de alterar as estruturas dos próprios seres vivos, mas não se modifica o conceito de “propriedade como direito absoluto acima da vida e dos direitos básicos da pessoa humana, nem os métodos utilizados desde os tempos da barbárie”.

Pastores e pastoras da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) do núcleo Sol de Maio, do Sínodo Rio Paraná, que abrange o município de Santa Tereza do Oeste, vão tratar do conflito agrário na conferência de obreiros que terá lugar, amanhã, em Corbélia.

No início do ano passado, 70 famílias da Via Campesina ocuparam o campo de experimentos da Syngenta Seeds em Santa Tereza do Oeste, para denunciar à nação que a multinacional  executava experimentos ali com plantas transgênicas em aberta desobediência à legislação ambiental, que proíbe tais práticas em áreas próximas a reservas florestais, historiou nota da CPT.

A propriedade chegou a ser desapropriada pelo governo do Estado do Paraná, que queria transformá-la num centro de experiências em agroecologia. Decisão judicial, no entanto, anulou a desapropriação e determinou a retirada das famílias. No domingo, 21, elas voltaram a ocupar a área. O confronto armado entre agricultores e milicianos ocorreu por volta das 13h.

Também em nota, a Syngenta Seed disse que instruiu a empresa terceirizada, a NF Segurança, “que os guardas prestariam os serviços desarmados” e nega que tenha autorizado o uso de força ou armas para a segurança do local. Cerca de 25 funcionários da NF trocaram tiros com trabalhadores sem-terra no domingo.

Depois de prestar depoimento à polícia civil de Cascavel, cidade do oeste paranaense, um dos proprietários da NF, Nerci Freitas, foi indiciado ontem, segundo notícia de O Estado de São Paulo, por homicídio doloso (com intenção de matar), formação de quadrilha, lesões corporais e tentativa de homicídio. Freitas e a mulher dele, Maria Ivanete, sócia da empresa, respondem denúncia na Polícia Federal por porte ilegal de munições.

Relatório da Polícia Federal mostra que a NF também presta serviços para a Sociedade Rural do Oeste do Paraná, que abriga o Movimento dos Produtores Rurais (MPR), recentemente criado na região de Cascavel, “no sentido de repugnar violentamente ações dos movimentos sociais de luta pela terra”, diz o documento.

A polícia também apurou que seguranças contratados pela NF têm antecedentes criminais e a maioria não está capacitada para o exercício e sequer têm licença para atuar como segurança particular. Segundo a advogada da ONG Terra de Direitos, Gisele Cassano, a NF é contratada pela Syngenta, pela Sociedade Rural do Oeste e pelo Movimento de Produtores Rurais para fazer as reintegrações de posse.

Keno vinha recebendo ameaças de morte desde março deste ano. Além dele, também estavam na mira outros dois líderes, Célia Lourenço (Celinha) e Celso Ribeiro Barbosa. Na hora do tiroteio, no domingo, este estava fora do local do conflito. Os pistoleiros, relatou Barbosa, atiraram em Isabel Maria Nascimento de Souza, que está internada, achando que era Celinha. No confronto morreu também um segurança e oito pessoas ficaram feridas.