Construção da sociedade pacífica e libertadora passa pela ética, diz Küng
Outubro 23, 2007
Num chamado à ética mundial, o teólogo suíço Hans Küng defendeu o respeito à vida, Taxi Heathrow Airport a igualdade entre homens e mulheres, a atuação honesta, a reciprocidade e o tratamento igualitário entre os seres humanos como imperativos elementares para a construção da sociedade sustentável, pacífica e libertadora.
“Respeitar e amar mutuamente. Isso é o que deseja o ethos (o espírito que anima uma sociedade) mundial”, disse o teólogo católico romano à platéia de alunos, professores e pesquisadores da Universidade do Vale do Rio Sinos (Unisinos), ontem à noite, ao proferir conferência, em São Leopoldo, sobre “Religiões mundiais e ética mundial”.
Segundo a análise de Küng, as religiões do mundo devem estar a serviço da promoção da paz, cada qual respeitando padrões éticos comuns. O teólogo enfatizou que não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. O grande desafio, lembrou, não está na busca da unidade nem na criação de uma única religião, mas sim no respeito, na cooperação e na ajuda mútua entre as diversas manifestações da fé.
Não fazer ao outro o que não deseja para si é um princípio básico comum a várias religiões e pessoas não-crentes. Küng sonha com a reunião de lideranças religiosas do mundo para afirmarem, juntas, princípios éticos comuns. Dentre esses deve constar, também, a regra de não matar, não mentir, não roubar e não abusar da sexualidade, enumerou.
Consultor teológico para o Concílio Vaticano II e colega de Joseph Ratzinger, hoje papa Bento XVI, Hans Küng argumentou que questões políticas e econômicas não podem ser convertidas em disputas religiosas e que é preciso estabelecer um meio termo entre o clericalismo e o laicismo estremado. “A religião pode ser empregada para criar a desgraça, mas também para instituir a paz”, afirmou.
Na Alemanha, mais especificamente em Berlim e Leipzig, exemplificou Küng, as igrejas optaram por lutar com pessoas se manifestando e portando apenas velas. Elas conseguiram derrotar o regime comunista no final dos anos 80 do século passado. O regime de segregação racial da África do Sul, conhecido como apartheid, foi abolido sem o derramamento de sangue graças à colaboração das igrejas e de figuras como Nelson Mandela e o bispo anglicano Desmond Tutu.
Na perspectiva do teólogo católico, o mundo atravessa um novo paradigma nas relações internacionais. Hoje, embora o presidente Bush ainda queira recriar a necessidade de combater inimigos pela guerra, essa saída não é interpretada como a melhor solução quando os avanços políticos e diplomáticos parecem inatingíveis. A União Européia oferece exemplos nítidos de que o bem-estar das nações pode tornar-se realidade quando o dinheiro não é investido na compra de arsenais bélicos, mas em propostas efetivas de conciliação e reconciliação.
“Não precisamos mais de inimigos e transformar o islamismo em um inimigo real seria a pior coisa que poderíamos fazer”, alertou Küng ao sublinhar que o Ocidente tem uma idéia vaga do Islã e dos muçulmanos.
No islamismo todos se inclinam em conjunto e fazem suas orações sem um papa, sem bispos, em que qualquer pessoa pode dirigir as súplicas. Isso representa um bonito gesto de unidade, anotou Küng ao defender a hipótese de que, à sua maneira, todas as religiões oferecem caminhos práticos de salvação e de ação responsável durante a vida terrena.
O palestrante criticou o episódio em que jornais europeus publicaram caricaturas do profeta Maomé, enaltecendo a importância do respeito ao sagrado em todas as suas manifestações na sociedade atual. “Maomé, Jesus Cristo ou o Buda são astros de primeira grandeza e modelo para milhões de pessoas. Não vejo porque ridicularizá-los”, apontou Küng.
O teólogo suíço enalteceu a diversidade cultural brasileira ao afirmar que o país representa um modelo de convivência pacífica e de respeito às diferenças éticas e religiosas.
Em sua trajetória sacerdotal, Hans Küng defendeu posições críticas à Roma, questionando o dogma da infalibilidade papal. O papa João Paulo II cassou a licença dele ensinar Teologia em nome da Igreja Católica. Mas a Universidade de Tübingen, na Alemanha, manteve Küng como docente na área da Teologia Ecumênica. Em sua tese de doutorado já defendera, em 1957, acordo teológico entre catolicismo e luteranismo, o que acabou ocorrendo em 1999, com a declaração conjunta sobre a doutrina da justificação.
Küng aposentou-se do magistério em 1996, e foi eleito, a seguir, presidente da Fundação Ética Global (Weltethos), de Tübingen. No Fórum Econômico Mundial, reunido em Davos, na Suíça, advertira, em 1997, sobre o processo de mundialização. “Se a globalização for apenas um instrumento para a maximização dos lucros, preparem-se para uma séria crise social”, disse.
Autor de obras como “O projeto da ética mundial: Uma moral ecumênica em vista da soberania humana” e “Religiões no mundo: em busca de pontos comuns”, Küng defende o fim da obrigatoriedade do celibato clerical, maior participação laica e feminina na Igreja Católica e o retorno da teologia baseada na mensagem da Bíblia.
Hans Küng nasceu em Sursee, no cantão suíço de Lucerna, em 19 de março de 1928. Estudou na Universidade Gregoriana, em Roma, e em Paris. Foi ordenado sacerdote em 1954. Hoje pela manhã, o teólogo apresentou conferência no Instituto Goethe, em Porto Alegre, e, à noite, em Curitiba, na Universidade Federal do Paraná. Dias 24 e 25 ele estará em Brasília, quando segue para o Rio de Janeiro, onde falará na Universidade Cândido Mendes sobre Religião e Ciência.

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