"Che", de uma ótica cristã
Daniel Benadava, Outubro 15, 2007
Uma sucinta análise comparativa entre alguns pontos que constituem a doutrina cristã e os ideais Taxi Heathrow Airport mais significativos de Ernesto “Che” Guevara, morto no dia 9 de outubro de 1967, em La Higuera, Bolivia, poderá demonstrar que por trás desse personagem latino-americano existiu uma verdadeira atitude cristã em relação aos mais necessitados.
Paz e Luta Armada na Doutrina Cristã
Seguramente, a principal idéia que marcou toda a vida de “Che ” foi o anseio de que todos os povos oprimidos alcançassem uma verdadeira liberdade social, econômica e política. Para atingir esse fim, Guevara vislumbrava dois caminhos possíveis:
- a via eleitoral que, segundo ele, era a possibilidade menos viável. Guevara supunha que, caso as forças revolucionárias chegassem ao poder através do voto popular, quando empreendessem transformações sociais estas se chocariam com o braço armado da classe dominante, ou seja, o exército, e o governo democrático revolucionário seria derrocado;
- a revolução armada que, de acordo com “Che”, era um caminho inevitável, que não seria determinado pela vontade do revolucionário, mas estava condicionada à espantosa situação de exploração de milhões de homens e mulheres imposta pelo imperialismo, e pela incansável luta dos povos subjugados para atingirem a liberdade.
Desta maneira, segundo a visão de Guevara, o “parto” que traz às massas escravizadas e exploradas a esperança de uma vida melhor fosse de modo pacífico ou doloroso não dependia do revolucionário, mas da resistência – ou não - das forças reacionárias em deixar nascer um novo mundo.
Em relação à luta armada deve-se ter claro que a partir da perspectiva cristã, como bem expressou Paulo VI, no ponto 31 da Encíclica Populorum Progressio, as revoluções, em linhas gerais, engendram novas injustiças, introduzem novos desequilíbrios e excitam os homens a novas ruínas. Só seriam “admissíveis” as insurreições no caso em que, não havendo alternativa pacífica para produzir mudanças sociais, existisse uma tirania evidente e prolongada que atentasse gravemente contra os direitos fundamentais da pessoa e prejudicasse o bem comum da população.
Além das considerações anteriores, também foi Paulo VI que, na Mensagem pela Jornada da Paz, que ofereceu no dia 1. de janeiro de 1968, propôs que “...é de augurar que a exaltação do ideal da paz não favoreça a covardia daqueles que temem dever dar a vida ao serviço do próprio país e dos próprios irmãos quando estes estão empenhados na defesa da justiça e da liberdade, e que buscam somente a fuga da responsabilidade e dos perigos necessários para o cumprimento de grandes deveres e empresas generosas: paz não é pacifismo, não oculta uma concepção vil e negligente da vida, mas proclama os mais altos e universais valores da vida: a verdade, a justiça, a liberdade, o amor... ”.
Como se pode ver, tanto do ponto de vista político como religioso este é um tema difícil de ser abordado, de modo especial em continentes como a América Latina, onde o subdesenvolvimento é uma injusta situação promotora de tensões que conspiram contra a paz social.
Socialização das Riquezas segundo o Cristianismo
Segundo Guevara, os povos subdesenvolvidos, os quais “Che” comparava com anões de cabeça enorme e tórax enchido cujas débeis pernas e seus curtos braços não harmonizam com o resto de sua anatomia, eram colônias dependentes do imperialismo, com economias distorcidas baseadas na produção de matérias-primas, a monocultura, o desemprego e os baixos salários.
De acordo com “Che”, os povos subdesenvolvidos não deviam cair na tentação de construir sociedades de beneficência ou regimes utópicos baseados na bondade do homem para solucionar seus problemas, mas que, para enfrentar os mesmos, deviam socializar os bens existentes; distribuir equitativamente todas as riquezas da sociedade; e criar uma produção de tipo social, na qual o fruto do trabalho humano seja benéfico para a comunidade em seu conjunto, e não somente para poucos.
Talvez esses pontos sejam os menos “conflitivos” para analisar a partir da doutrina cristã, já que, por exemplo, foi no Concílio Vaticano II - no ponto 69 da Gaudium et spes – na qual foi proposto que para além das diferentes formas de propriedade existentes próprias de cada povo, nunca se devia perder de vista o destino universal dos bens existentes em toda a comunidade.
Foi Paulo VI quem propôs, no ponto 23 da Encíclica Populorum Progressio, que não existe razão válida alguma para que uma pessoa reserve, em uso exclusivo, o que supera a própria necessidade enquanto ao resto da humanidade falta o necessário para viver de forma digna.
Em relação a esse tema, o Episcopado Argentino sustentou, em 1956, que entre o direito à propriedade privada e o direito à vida, este último é mais fundamental e, portanto, deve ter prevalência em caso de conflito entre ambos os direitos.
Soberania Nacional a partir da visão Cristã
Ao longo de toda sua vida, “Che ” sempre teve a esperança de que, num futuro não longínquo, existiria uma autêntica soberania dos países colonizados a partir da qual eles pudessem criar livremente políticas exteriores independentes da interferência das potências internacionais.
Essa preocupação tampouca não é alheia ao cristianismo. Pio XI propôs, no ponto 40 da Encíclica Quadragessimo anno, que a maioria das relações entre as nações são dominadas pelo internacionalismo econômico, ou seja, pelo imperialismo do capital para o qual a pátria está onde existem maiores possibilidades de ganhos.
Frente a essa dramática situação que gera o empobrecimento de setores cada vez maiores da população mundial, foi no Concílio Vaticano II, no ponto 9 da Gaudium et spes, que se disse que o gênero humano, em seu conjunto, tem a obrigação de criar uma nova ordem política, econômica e cultural no qual as nações subdesenvolvidas possam participar plenamente dos bens da civilização moderna, tanto no plano político como na ordem econômica, e tenham a possibilidade de relacionar-se e comercializar livremente com quem preferirem.
Breve conclusão
Como se pode ver, o que foi arrolado nos parágrafos acima sob nenhum ponto de vista procura propor a “santificação ” de Guevara, nem tampouco analisar o desenvolvimento da revolução cubana, da qual ele foi um dos protagonistas.
Ao contrário, a análise realizada até aqui procurou “demonstrar” que grande parte da vida e obra de “Che” foi bastante congruente com a doutrina cristã, já que, ao ter colocado a própria vida a disposição da luta pela libertação dos povos oprimidos, e ao trabalhar a favor da justiça e da solidariedade, valores nos quais é possível vislumbrar a imagem de Cristo, ele adotou, mesmo que inconscientemente, com acertos e erros, uma atitude profundamente cristã frente aos mais necessitados.
Talvez o motivo pelo qual “Che” nunca tenha reconhecido essa questão esteja relacionado com o desconhecimento da doutrina cristã ou, em seu defeito, com que - como tantos outros socialistas - não tenha compreendido que, como dizia o padre Carlos Mugica, Marx – a que Guevara admirava - nunca criticou a fé a partir de um ponto de vista filosófico, mas o fez desde uma perspectiva histórica, isto é, não criticou a religião em si mas a particular manifestação da religião de sua época.
Em resumo, e pelo exposto até aqui, talvez não seja exagerado propor que se pode entrever em Ernesto “Che” Guevara uma figura cristã que, com desacertos e virtudes, trabalhou e lutou pela construção de um mundo mais fraternal e justo, tarefa na qual também a Igreja de Cristo Pobre deve estar comprometida.

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