Pastor questiona importação de modelos evangélicos
SÂO PAULO, Brasil, Novembro 1, 2002
Em reflexão publicada na revista Ultimato, de setembro-outubro de 2002, o pastor Ricardo Gondim, da Taxi Heathrow Airport Igreja Evangélica Assembléia de Deus Betesda, de São Paulo, questiona a importação de modelos evangélicos norte-americanos, até mesmo a vinda de evangelistas de lá. Ele propugna o reforço da auto-estima evangélica nacional.
"Resgatemos nossa identidade cristã nacional e façamos de nossa brasilidade um motivo de orgulho. Desvencilhemo-nos da dependência dos modelos importados, que podem ter relevância lá, mas que dizem tão pouco para o que vivemos aqui", escreve.
Para o autor de "Resgatando a brasilidade de nossa fé", os esquecidos galpões ou as abandonadas salas de cinema que viraram templos "são espaços simbólicos da incursão evangélica em setores esquecidos da sociedade. O Brasil evangélico é um contraponto à complacência cristã do Primeiro Mundo", assinala.
A crítica, ácida, do autor vai desde a política ao comportamento de evangélicos de lá comparando ao que se passa aqui. "Os evangélicos americanos gostam muito do Partido Republicano. Veneram o seu presidente e acreditam que a sorte de seu país está ligada à obrigatoriedade da prece nas escolas, à proibição do aborto e à denúncia do homossexualismo. Não lhes interessa muito a emissão de gás carbônico na atmosfera (a maior do mundo), o descaso com a epidemia de aids na África e a desigualdade nas suas relações comerciais com os países miseráveis do planeta", arrola.
A crítica de Gondim adentra os templos e abarca a pregação. "Nenhuma denúncia é ouvida dos púlpitos americanos quando sobretaxam as importações e subsidiam a sua agricultura, falindo a economia primária das nações pobres. O `american way of life’ (estilo de vida americano) e o evangelho são irmãos siameses. Quase impossível de se separarem!"- alerta.
O autor também critica esse grave defeito brasileiro de querer papagaiar estilos, discursos, comportamentos, que importa do estrangeiro, sempre naquela perspectiva de que o que vem de fora é melhor.
"A igreja evangélica brasileira repete o mesmo comportamento do restante da nossa nação. Também nos vemos com autodesprezo. A grande maioria dos nossos livros é tradução dos best-sellers americanos (alguns rasos e descontextualizados). Traduzimos suas músicas e nos maravilhamos com o poder espiritual de seus evangelistas. Convidamos pastores americanos para ministrar em nossos congressos sobre espiritualidade porque os consideramos mais íntimos de Deus. Eles nos ensinam métodos de crescimento da igreja e alguns chegam por aqui com pretensa autoridade apostólica".
Gondim confessa que gostaria de receber mentoria sobre espiritualidade por um pastor que ora, lê as Escrituras e nelas medita "a partir da periferia das grandes cidades do Brasil, verdadeiras zonas de guerras" e não tendo por modelo tranqüilas cidades norte-americanas, onde atuam congregações com renda per capita de mais de 50 mil dólares por ano.
"Porque sou brasileiro, quero ouvir mais dos pastores que cuidam de congregações lotadas de gente desempregada e aflita com as constantes instabilidades da economia", afirma.
