Bispo crítico de Mugabe renuncia por acusações de adultério
Manuel Quintero, BULAWAYO, ZIMBABWE, Setembro 11, 2007
Enfrentado acusações de adultério, o arcebispo católico de Bulawayo, Pius Ncube, um dos mais severos Taxi Heathrow Airport e consistentes críticos do presidente Robert Mugabe, anunciou hoje que o Vaticano aceitou a sua renúncia.
Em declaração à imprensa, o ex-prelado disse ter solicitado sua renúncia por causa do imoral ataque do Estado não somente contra sua pessoa, mas também contra a Igreja Católica do Zimbabwe.
Ncube assegurou que não será silenciado “pelas maquinações de um regime ímpio”, e que está decidido a promover a doutrina social da Igreja e a trabalhar “entre os mais pobres e precisados do Zimbabwe”.
Numa breve declaração, o Vaticano assinalou que o papa Bento XVI aceitara a renúncia do bispo Ncube sob um artigo da lei eclesiástica, segundo a qual um bispo deve se retirar caso esteja enfermo ou se “alguma outra grave razão” o torna inadequado para ocupar o cargo.
Em meados de julho, Ncube foi oficialmente acusado por um trabalhador do sistema ferroviário, de sobrenome Sibanda, de ter mantido relações adúlteras com sua esposa durante dois anos. A esposa era secretária do arcebispo.
A imprensa controlada pelo governo de Mugabe noticiou o caso durante semanas e publicou fotos que mostravam o arcebispo na cama com a mulher.
Muitos suspeitam que as fotos foram digitalmente manipuladas como parte de uma operação da Organização Central de Inteligência (CIO) para comprometer o prelado. No entanto, o governo afirmou que as fotografias tinham sido captadas por um investigador particular, contratado pelo marido da secretária, para assegurar evidências do suposto adultério.
Sibanda pediu ao bispo uma indenização de 20 milhões de dólares do Zimbabwe (cerca de 160 mil dólares). Ncube negou a acusação e o caso está sendo tratado pela Corte Suprema de Bulawayo, a segunda cidade mais importante do país africano.
Menos duas semanas atrás, os bispos católicos de Zimbabwe saíram em defesa de seu colega, assinalando que as acusações eram “vergonhosas e totalmente deploráveis”, e que constituíam “um ataque contra a Igreja Católica”.
O presidente da Conferência Sul-Africana de Bispos Católicos, arcebispo Buti Tlhagale, declarou que a culpabilidade ou inocência de Ncube ainda tinha que ser demonstrada e pediu para que seja evitado qualquer julgamento prematuro.
Ncube ganhou notoriedade internacional nos últimos anos por suas duras e freqüentes críticas do regime do presidente Mugabe. O arcebispo acusou reiteradamente o presidente do Zimbabwe de violar os direitos humanos, e não vacilou em exigir a sua renúncia. Também chamou as pessoas a saírem às ruas para demonstrar repúdio ao governo.
Em julho, pouco antes de surgirem as acusações, Ncube disse que as potências estrangeiras deveriam remover Mugabe do poder. Ele chegou a qualificar publicamente o mandatário de megalomaníaco. Mugabe está no poder desde 1980, inicialmente como primeiro ministro e depois como presidente executivo do Zimbabwe.
O país africano vive a pior crise econômica de sua curta história como nação independente. Nos últimos anos, a expropriação forçada das fazendas - a maioria das quais estava nas mãos dos agricultores brancos - somado à instabilidade política e às sanções internacionais produziram uma queda estrondosa da produção agrícola e a mais alta inflação em escala mundial.

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