Igreja é uma comunhão globalizada, com a tarefa de prover mesas de encontro
Edelberto Behs, FLORIANÓPOLIS, Brasil, Outubro 17, 2002
A Igreja, na sua origem, é uma rede. O apóstolo Paulo já trabalhava em rede. Taxi Heathrow Airport "Ela sempre fez uso da sua catolicidade - pensar no global -, e atuou no local", definiu Gustavo Drian, secretário de Projetos do escritório conjunto das igrejas Evangélica Luterana Unida (IELU) e Evangélica do Rio da Prata (IERP), com atuações na Argentina, Paraguai e Uruguai.
Drian defendeu a "diaconia profética" no 1. Encontro Regional de Diaconia de igrejas luteranas da América do Sul e do Caribe, reunido em Florianópolis, de 13 a 16 de outubro. As igrejas, disse, precisam falar das questões macroeconômicas e sociais, fortalecendo a denúncia dos fatores de morte na sociedade.
"Creio que em muitos casos a ação diacônica das igrejas está no local, na vida das pessoas, gerando mudanças positivas", acrescentou, em entrevista à ALC, o pastor Martin Junge, relator da Federação Luterana Mundial (FLM) para a América Latina e o Caribe, e que participou da reunião em Florianópolis.
Na concepção do grupo reunido na capital catarinense, ficou muito claro que as igrejas devem fazer alianças estratégicas em contextos de adversidade. "As igrejas devem abrir-se para a cooperação ecumênica, das ONGs e até mesmo de setores públicos", disse Junge, traduzindo os debates dos representantes de diaconia de vários países da América Latina e do Caribe.
A América Latina e o Caribe estão repletos de contextos de adversidades, gerados pelo sistema neoliberal. O neoliberalismo, explicou Drian, é a expressão do capitalismo em sua etapa de globalização.
Drian contrapôs à lógica neoliberal a lógica diacônica. Na lógica neoliberal, que domina as relações econômicas internacionais, sobram pessoas. Ela divide, separa, fragmenta. A lógica diacônica soma, multiplica, comparou.
A lógica diacônica é a lógica da participação, da inclusão. "Não é possível executá-la sozinho. As igrejas precisam incorporar outros atores da sociedade civil", enfatizou Drian.
É o que vem fazendo a Igreja Luterana da Colômbia no projeto de apoio aos "desplazados" - migrantes que tiveram que deixar seus locais por força das circunstâncias. Villavicencio, no Departamento de Meta, é um desses pólos que recebe tais migrantes.
Assentamento local de "desenraizados" tem mais de 500 famílias. Com o apoio da Ação Conjunta das Igrejas e em parceria com a Pastoral Católica, a Igreja Luterana da Colômbia proveu o assentamento de água, canalizando-a de lago a 3 km de distância para todos as casas dos assentados.
"Trabalhamos em quatro eixos com os desenraizados: condições de salubridade, apoio alimentar, apoio na saúde e atenção psicosocial", arrolou a coordenadora do Departamento de Missão e Desenvolvimento da igreja colombiana, Martha Wilches. Através do projeto foram implantados quatro refeitórios em quatro diferentes assentamentos, para o atendimento de crianças dos 4 aos 14 anos de idade.
Em levantamento realizado nos assentamentos de Villavicencio, Bucaramanga, Ibagué e Cundina, o pessoal que trabalha na ação diacônia verificou que boa parte das famílias dos assentados é constituída por mãe e filhos. "Os pais desapareceram. As mães, temendo que filhos adolescentes sejam recrutados pela guerrilha ou pelos grupos páramilitares, deixam tudo para trás e se deslocam a outras regiões", relatou Martha para a ALC.
Na Colômbia, a diaconia ganha, assim, um rosto migrante, de acompanhamento dos excluídos. Uma das expressões da pobreza é a migração. Dada a transparência e seriedade do trabalho que desenvolvem, os agentes de diaconia da igreja luterana gozam de uma espécie de salvo conduto, tanto em áreas dominadas pela guerrilha, como em regiões sob controle de páramilitares.
A ação diacônica das igrejas está fundamentada nas Sagradas Escrituras. A palestra do pastor Rodolfo Gaede Neto, da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), sobre "A diaconia de Jesus" forneceu pistas para a fundamentação teológica da atuação das igrejas nessa área.
Gaede desafiou as igrejas a entenderem a diaconia como ação geradora de mesas de encontro, de participação. Ele apontou para a importância e intencionalidade que a mesa tinha no ministério de Jesus. O mestre, apontou o pastor, convidou e incluiu pessoas à mesa. Lembrou que no Novo Testamento o verbo ensinar, no sentido de instruir, educar, aparece 55 vezes, enquanto o verbo comer tem 75 inserções no Novo Testamento.
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