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Segunda-feira, 11 de Novembro de 2002

Jornalista defende difusão da pedagogia da ternura

LIMA, Perú, Outubro 16, 2002

É preciso ter clareza do que se quer com a pedagogia da ternura como resposta Taxi Heathrow Airport à globalização da economia, frisou o jornalista peruano Ricardo Verástegui López, na palestra que apresentou no Fórum Internacional "Desafios da pedagogia da ternura ao educador cristão e popular".

"Se o que pretendemos com a pedagogia da ternura é construir uma cultura da vida, da paz com justiça, ela não pode estar desvinculada da nossa inserção orgânica na comunidade onde vivemos. Não pode ser uma prática individualista e isolada, mas uma prática coletiva de solidariedade, com os interesses e aspirações do povo ao qual pertencemos", disse.

A nova era da globalização da economia mundial caracteriza-se por unir a ideologia ao sistema econômico predominante, que tem como deus o mercado regulado pelos interesses das transnacionais. Em 1995, arrolou, 37 mil sociedades multinacionais dominavam a economia mundial. Das 200 mais poderosas, 172 correspondiam a cinco países do capitalismo avançado: Estados Unidos, Japão, Alemanha, França e Reino Unido.

Naquele mesmo ano, entre 40% e 50% da população mundial eram constituídos pelas massas rurais pobres da Ásia, África e América Latina, e pelos desempregados e excluídos dos países desenvolvidos.

Esse sistema econômico, prosseguiu, utiliza, entre outros, o Banco Mundial, o Fundo Monetário Internacional e a Organização Mundial do Comércio para penetrar e dominar os países do Terceiro Mundo, para saquear as riquezas mediante o mecanismo da dívida externa ou o uso da máquina bélica do seu xerife mundial: os Estados Unidos.

No início de 2000, a dívida do Terceiro Mundo era de 1,9 trilhão de dólares. A dívida da América Latina somava então 736 bilhões de dólares. Os 52 países pobres mais endividados tinham uma dívida de 375 bilhões de dólares.

A globalização conduzida pelas transnacionais traduz-se numa batalha por converter as pessoas e povos em meros consumidores, em seres unidimensionais, sem direitos nem consciência para exercer o protagonismo que lhes corresponde. Sob pretexto de eficácia e modernidade, fomenta o individualismo mais crasso, convertendo o "homo homini lupus" - o homem lobo do homem -, como dizia o filósofo inglês Thomas Hobbes, no século XVII.

Diante dessa cultura de guerra, de ódio, de menosprezo pela pessoa humana, aparecem, silenciosas e quase anônimas, significativas expressões de solidariedade e de busca da justiça. Essas expressões configuram o que se denomina de cultura de paz, uma pedagogia do amor, da ternura, criando formas de convivência, nas quais a pessoa é valorizada como tal e a vida não tem preço.

É isso que consta no decálogo de desenvolvimento que tinham os antigos peruanos, e que subsiste na alma coletiva dos povos andinos. O decálogo tem três vigas mestras: aprender a querer um ao outro (munay), aprender juntos (yachay) e trabalhar juntos (ruray). Elas se complementam com as máximas do incanato: "ama sua" (não roubes; sê honrado); "ama keya" (não sejas ocioso, mas diligente); "ama llulla" (não sejas mentiroso, mas diga a verdade).

Embora pareça que os povos andinos não tenham desenvolvido uma ética social de responsabilidade e institucionalidade, o que se reflete na instabilidade e desordem política recorrentes, é preciso pensar, antes, que o problema está em outro plano. Para Verástegui, o problema é que as instituições refletem a ética real do povo e tornam possível a responsabilidade social organizada.

"A pergunta, para nós, é como conseguir, como comunicadores sociais, como professores, que essa ética social, que essa pedagogia da ternura, seja uma vivência concreta em toda a sociedade e nos centros educacionais de diversos níveis", indagou.

O jornalista forneceu uma pista metodológica interessante: que o povo crie meios de comunicação que lhe permitam difundir e tornar suas propostas coletivas. "E quando falamos em meios, não nos referimos aqui somente às emissoras de rádio locais e comunitários, à imprensa popular ou às emissoras de televisão municipais, mas espaços de debate e de diálogo, por setores populacionais, encontros setoriais da sociedade civil, entre outros", indicou.