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Cinco maneiras de dizer uma verdade
Nancy Cardoso Pereira, Alemania, Junho 4, 2007
Intervenção da biblista e pastora metodista brasileira no início da marcha de protesto contra o G8, em Rostock, no dia 2 de junho.
Companheiros e Companheiras do mundo em Rostock!
Aprendemos com as lutas que existem cinco maneiras de dizer a verdade. Faço aqui a memória dos escritos revolucionários de Bertold Brecht.
A grande verdade de nossa época é que todo o mundo vive em estado de barbárie para as grandes maiorias dos povos e para o planeta. O capitalismo globalizado se mantém pela força da guerra, da exploração e da humilhação... tudo! Toda força, toda violência, todo o cinismo e toda repressão para a manutenção das relações capitalistas de propriedade dos meios de produção e do metabolismo selvagem do lucro que garante o luxo de minorias mundiais.
O modelo civilizatório ocidental capitalista, alicerçado na exploração de seres humanos por outros seres humanos e na intensa exploração da natureza por uma restrita elite mundial, se sustenta e se reproduz em sistemáticas guerras de ocupação e intervenção, na idolatria do consumo e é o responsável pelo aquecimento global e pela miséria no mundo.
É preciso - e por isso estamos aqui - ter:
1) a coragem de dizer a verdade, embora ela se encontre escamoteada nos números mentirosos dos senhores e senhoras do G8;
2) a inteligência de reconhecer a verdade mesmo que ela se mostre sempre disfarçada pelos falsos discursos de governantes e capitalistas e seus jogos de democracia burguesa;
3) a capacidade crítica e organizativa de manejar a verdade como uma arma - defensiva e ofensiva- criando as formas solidárias e internacionalistas de luta;
4) a capacidade de construção solidária de novas formas de poder a partir dos pobres, dos trabalhadores e trabalhadoras... É preciso escolher nas mãos de quem a verdade terá a força de enfrentamento e destruição do “Kapital”;
5) a astúcia, a ousadia, a força de divulgar esta verdade nascida no chão da luta dos povos contra o “Kapital”... Divulgar como exercício cotidiano da luta contra o G8, a globalização capitalista e as democracias de mentira e a construção de um outro mundo possível.
De modo especial, nós, militantes cristãos - homens e mulheres, assumimos o compromisso com o nosso povo e com vocês de:
1. denunciar as relações históricas e atuais do cristianismo hegemônico com o capitalismo;
2. denunciar o cristianismo aprisionado pelos interesses das elites mundiais em troca de favores que dão suporte à acumulação e concentração de riqueza, que legitimam as formas sistemáticas de exploração do trabalho humano e da natureza;
3. renegamos e denunciamos toda adoração do capital, toda religião do consumo e todo fundamentalismo ocidental que se esconde e se alimenta dos espaços teológicos e comunitários cristãos;
4. negamos todo e qualquer uso da fé cristã e da Bíblia como justificação para a guerra, para a destruição de outras religiões e modos de vida;
5. afirmamo-nos como uma religião entre outras, um povo de fé entre outros povos de fé e chamamos tod@s @s crist@os a que lutem pela justiça, amem a misericórdia e andem humildemente com o seu Deus (Miquéias 6,8).
É muito difícil não se curvar diante dos poderosos! Nós não nos curvamos! Pode ser muito vantajoso continuar enganando os fracos! Nós não nos vendemos! Não nos deixamos enganar por liberdades e autonomismos, biopoder e espontaneismos... Nós queremos mais! Queremos um outro mundo possível, fruto de uma ruptura revolucionária e de destruição da ordem de dominação capitalista.
A verdade que nos junta aqui não é um conceito, nem um episódio de um verão europeu! Nem restos de um passado! Nossa verdade é fruto da análise, do estudo e da autocrítica. Nossa verdade é fruto da nossa consciência de classe. Nossa verdade não está pronta fora de nós... Mas é o resultado crítico e criativo de nossa capacidade de luta e de organização.
Muitos e por muito tempo se contentaram em interpretar o mundo, reformar o capitalismo e adiar a revolta dos povos. Companheiros e companheiras, nossa tarefa é transformar o mundo! Nossa verdade é a luta pela terra, pela água, pela semente! Na África, na América Latina, na Ásia... e aqui também! Nossa verdade é a luta de camponeses e camponesas, indígenas e quilombolas contra as grandes empresas multinacionais.
Nossa verdade é o trabalho de base, de formação política e de educação popular, que fazemos no dia a dia de nossas organizações. Nossa verdade está no chão das fábricas e das escolas.
Nossa verdade está na luta por direitos de imigrantes, nossa verdade está nas ruas contra as guerras imperialistas de Bush e as recusas confortáveis dos europeus; nossa verdade está na recusa de continuar entregando para minorias do primeiro mundo nosso grão, nossa floresta, nossa energia, nossa água...
Nossa verdade está no fortalecimento dos movimentos sociais Sul-Sul e na criação de estratégias de enfrentamento internacionalista com os movimentos sociais no norte.
E termino repetindo com Brecht:
"Desconfia do mais trivial, na aparência singelo. E examina, sobretudo, o que parece habitual. Suplicamos expressamente: não aceite o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural, nada deve parecer impossível de mudar." (Brecht)
* Pastora metodista. Coordenação nacional da Comissão Pastoral da Terra.

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