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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Eliana Rolenberg, diretora da CESE, critica relatório da CPI da Terra.
Eliana Rolenberg, diretora da CESE, critica relatório da CPI da Terra.

A "Suiça do dinheiro"

Entrevista: Edelberto Behs, SALVADOR, Brasil

Indicada por duas agências de cooperação internacional – a Pão para o Próximo, protestante, e Taxi Heathrow Airport a Ação Quaresmal, católica –, a socióloga Eliana Rolemberg, diretora executiva da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE), foi a única brasileira a integrar o programa dos "Sete Sábios" na Expo 02, reunida em setembro e outubro na Suíça, em quatro "praias de arte" à beira dos grandes lagos suíços.

Com um olhar externo, Eliana foi convidada a abordar o tema "A Suíça do Dinheiro". Para tanto, ela pesquisou o setor financeiro, contatou a Associação dos Banqueiros, o serviço jurídico da Comissão Federal Bancária, organizações não-governamentais que trabalham na fiscalização desse setor e pastores da Igreja Evangélica Reformada. Mas também entrevistou gente simples da rua, mulheres e migrantes, para descobrir que o distante país, de Primeiro Mundo, tem muitos problemas parecidos com os do Brasil.

Nesta entrevista, Eliana comenta o tema que abordou na Expo 02, como formulou-o e o que constatou na Suíça.

ALC – A Suíça é conhecida, no mundo todo, pela sua neutralidade, fato que avaliza o conceito que tem de ser uma praça segura onde abrir contas para depósito. Sua participação na Expo.O2 foi sobre o tema "A Suíça do Dinheiro". Que enfoque deu à sua palestra?

Eliana - Sem dúvida, procurei pesquisar diretamente a situação do setor financeiro, buscando contato com grandes bancos, com a Associação dos Banqueiros, com o serviço jurídico da Comissão Federal Bancária, com ONGs que trabalham na fiscalização desse setor e articulam manifestações da sociedade civil, com pastores da Igreja Evangélica Reformada, que procuram discutir questões éticas e de responsabilidade social junto a banqueiros.

É necessário ter em conta o montante gerenciado por bancos suíços: cerca de 3.000 bilhões de francos suíços, sendo que aproximadamente a metade é de origem estrangeira – institucional ou privada.

Tal montante torna possível problemas como o da lavagem de dinheiro, efeitos de maior monta quando há má aplicação, e maior a probabilidade de escândalos. Essa situação tem sido usada pela concorrência, levando bancos ingleses, entre outros, a questionar o sigilo bancário, responsabilizando-o pelo sucesso da Suíça em atrair dinheiro de fora.

A Suíça é um país com território muito pequeno e por depender muito da situação de outros países, tornou-se vulnerável. Por vários anos, o país foi visto como uma ilha sócio-político-financeiramente estável, o centro financeiro dos estrangeiros que enviaram seu dinheiro para investir.

Hoje, continua como praça favorável porém, para vários países, sem a importância de 30 anos atrás.

A maior dificuldade, entretanto, está na questão ética, principalmente em relação ao chamado “Terceiro Mundo”. A fuga de capital do restante da Europa e dos Estados Unidos visa, em sua maior parte, evitar impostos, e à Suíça cabe o gerenciamento desses recursos.

Quanto ao “Terceiro Mundo”, porém, o capital que “foge” faz falta no país de origem. Para os banqueiros isso não seria um problema em si mesmo, mas eticamente há outros aspectos a considerar, como por exemplo: a situação social do país de origem do capital trânsfuga, as condições de risco que motivaram a aplicação em local mais seguro (a Suiça) e existe evidente questionamento sobre como deveriam se comportar os bancos suíços nesse caso.

A preocupação com relação à imagem da Suíça e ao futuro do país era evidenciada em cada contato com o setor financeiro e o seu trato com o dinheiro dos outros países, sendo que o « olhar do exterior » era sempre levado em consideração.

Todavia, não fiquei limitada ao setor financeiro, pois a Suíça é sede de grandes empresas transnacionais de exportação; grandes corporações suíças se encontram entre as maiores do mundo.

Em minha apresentação, no dia sete de setembro (data marcante em nosso país: comemoração oficial da independência, plebiscito sobre a ALCA, Grito dos Excluídos), tratei o tema, considerando as várias « caras » da Suíça do Dinheiro.

ALC – A Suíça do Dinheiro também tem a ver com a dívida externa dos países endividados?

Eliana - Ficamos cientes de que os bancos suíços pertencem ao Clube de Londres e ao Clube de Paris, participando das negociações e definições sobre a estruturação da dívida externa. Todavia, junto aos banqueiros não foi possível conseguir maiores informações.

Os dados mais consistentes foram fornecidos por uma Coordenação constituída por representantes de ONGs, Agências de Cooperação Internacional, setor privado, parlamentares e governo, criada em novembro de 1992 com a finalidade de tratar da política suíça junto ao FMI e ao Banco Mundial.

No que é essencial, podemos dizer que a Suíça decidiu, através de um plebiscito, sua participação junto às instituições de Bretton Woods, incluindo a Direção Administrativa, com direito a voto.

Houve um amplo movimento crítico coordenado por ONGs suíças, antes do plebiscito, obtendo-se o compromisso do governo em dois pontos fundamentais: buscar uma política favorável aos países do Terceiro Mundo e praticar uma política de transparência para a Suíça; essa decisão não agradou aos Estados Unidos.

Essa Coordenação, além de analisar os documentos, tem organizado viagens e contatos, com o intuito de mostrar a realidade dos países endividados aos executivos suíços, junto ao FMI/BM.

Tem havido controvérsia e inúmeras discussões sobre a posição da Suíça em relação às contradições entre pagamento da dívida externa dos países endividados e suas políticas sociais e de crescimento econômico.

A Suíça deverá discutir o novo empréstimo para o Brasil, bem como as propostas de Anne Krueger, diretora adjunta do FMI, sobre a reestruturação das dívidas dos países em situação de falência.

Ainda que o resultado nem sempre seja satisfatório, o trabalho dessa Coordenação de Cooperação parece ter importância fundamental para o aprofundamento de temas relacionados à definição ou revisão da política das organizações de Bretton Woods.

Destaca-se sua preocupação com a soberania e o respeito ao direito de voto em cada país, em especial com o Brasil, e seu atual processo eleitoral.

ALC – Você realizou pesquisa na Suíça, entrevistando gente simples, do povo. Qual a finalidade dessa pesquisa e a que conclusões chegou?

Eliana - Busquei, também, conhecer o outro lado dessa riqueza e fui ao encontro da população pobre : imigrantes, desempregados, drogados, pessoas que vivem em situação irregular no país. Tive contato com muitas pessoas e com ONGs que desenvolvem trabalhos bastante interessantes com essas populações.

Muitas famílias, apesar de receberem um salário que assegura o mínimo necessário, são pobres. Apesar das vantagens sociais asseguradas, existem despesas que não são assumidas pelo Estado, como serviços odontológicos, cuidados com bebês, entre outras, que custam muito caro, e para assumi-las as famílias deixam de pagar outras despesas, precarizando o mínimo necessário à sua manutenção.

Outro sério problema é dos endividados, para os quais é necessário um serviço de aconselhamento, normalmente a cargo de associações de ajuda social, como a Cáritas, orientando a elaboração e monitoramento de um plano orçamentário.

Desemprego, excesso de uso do cartão de crédito, ameaças de despejo, estão entre as principais causas do endividamento, fenômeno que vem ocorrendo entre imigrantes (30%) e suíços (70%).

São muitas as alternativas oferecidas pela Cáritas, sendo esta a primeira instituição procurada pelos pobres, em Lucerna, quando os problemas se apresentam. Apenas neste ano de 2002, já foram registrados mais de 500 novos contatos, além dos que estão em andamento, e buscaram a instituição de uma a dez vezes anteriormente.

Além de encaminhá-los para outros tipos de ajuda, a Cáritas distribui vales-compra para os mais necessitados, somando cerca de 2.500 francos distribuídos mensalmente.

Observa-se que no Brasil e em outros países da América Latina, numa situação similar, os grupos tendem a se organizar e desenvolver iniciativas diversas, mas na Suíça é o Estado que responde ou, na falta deste, instituições como a Cáritas, a depender da região.

A situação específica vivida pela mulher imigrante ou refugiada é ainda mais complexa. Quando casada com um suíço, mas ainda não tem cinco anos de matrimônio, não pode separar-se, mesmo que esteja submetida a violência doméstica pois, caso se divorcie, não poderá recorrer à “ajuda social”, correndo o risco de perder seu visto de permanência no país; nesse caso, deveria sustentar-se sozinha e quando tem filhos isso é bastante difícil.

Os imigrantes têm tido grande importância para a indústria e o desenvolvimento  da Suíça, seja nas grandes metalúrgicas, em obras de infra-estrutura, nas clínicas; nos asilos; na gastronomia; no recolhimento do lixo; na construção, enfim: na garantia do bem-estar no país.

Nos anos 60, com a recessão, a Suíça não teve problemas de desemprego, pois muitos imigrantes foram obrigados a voltar a seus países e fala-se que a Suíça, desta forma, “exportou sua crise”.

Hoje, o mercado de trabalho mudou bastante e, com a terceirização, vários trabalhos que eram feitos por imigrantes são encomendados a empresas especializadas, como no caso da limpeza das indústrias. A tendência é aumentar a distância entre trabalhadores qualificados e não qualificados.

Existem, também, os “sem papel” (sem documentação), sendo evidente a existência de um mercado clandestino, mas não existem dados confiáveis sobre isso. Sabe-se da grande demanda, e que muitos estão vivendo na Suíça há vários anos, correndo riscos, sem seguro saúde, sem qualquer legalização.

Existem iniciativas filantrópicas, a exemplo de uma associação de bairro visitado, desenvolvidas com grande criatividade, especialmente no que se refere ao resgate da dignidade das pessoas e da solidariedade entre diversos setores que se dispõem a participar de atividades diversas como fabricação de comida em conjunto, apresentações artísticas de grupos estrangeiros (são 70 diferentes nacionalidades presentes no bairro), e um mercado onde o dinheiro é substituído pelo tempo de trabalho.

A troca é estimulada, favorecendo o desenvolvimento de potencialidades, atividades interculturais, o rompimento de preconceitos, na medida que ricos e pobres são chamados a participar, oferecendo o que cada um pode e trocando pelo que o outro oferece.

Não será apenas o dinheiro a solução das muitas questões que se apresentam, principalmente a dependência das pessoas, seja do Estado seja de entidades sociais.

Reconhecer a dependência, porém, é difícil; existe uma  cultura do trabalho como valor primeiro na Suíça. A pessoa é reconhecida pelo seu trabalho, mais que por sua relação de família ou outra característica. Na medida em que fica desempregada, perde seu referencial e seu valor. Apoiar os desempregados implica, principalmente, na consideração do desgaste psicológico provocado pela vergonha.

 O desemprego, embora recente (anos 90), vem aumentando e, com ele, a urgência de que sejam tomadas as medidas necessárias e revisadas as leis, para seu enfrentamento, pois esse fenômeno tende a agravar-se, constituindo-se em um problema social mais sério do que o previsto

ALC – Por que razões os suíços resolveram debater esse tema? A Expo é uma iniciativa que se volta exclusivamente à discussão de assuntos pertinentes à cidadania? Qual foi o tema da última Expo, de 1964?

Eliana - A iniciativa dos suíços com a EXPO 02 é muito interessante pois, ao que pude compreender, é a única exposição nacional desse porte. Outras como a de Hannover, de Sevilha e de Lisboa, tiveram um caráter internacional. Essa proposta de exibições temáticas e eventos culturais, aproveitando potencialidades diversas, foi um marco.

O tema a “Suíça do Dinheiro”, bem como os outros, que integraram o programa dos Sete Sábios, foi parte de uma proposta maior, de grandes eventos em quatro “praias de arte” na beira dos grandes lagos suíços.

No caso específico, propunha um olhar externo de pessoas reconhecidas por suas atividades sociais, artísticas, científicas, intelectuais, em outros países, após pesquisa local, levando uma outra perspectiva ou ponto de vista para um debate com um membro do governo suíço, uma representação de uma ONG de cooperação internacional, um mediador, com participação de público interessado e cobertura da midia, em um barco denominado “Praia de Arte Móvel da região do Jura”.

Até onde sei,  essas exibições estão ligadas à tradição suíça, sendo esta a sexta edição. Não tive conhecimento mais direto das anteriores, sendo que a última foi em 1964. O Programa dos Sete Sábios foi uma inovação.

ALC – Você não concordou com a abertura da matéria da ALC, sob o título "Socióloga brasileira debate o dinheiro na Suíça", divulgada pela agência. Pode dizer por quê?

Eliana - Não concordo com a afirmação apressada de que a Suíça esteja vivendo um problema de identidade, sem dar justificativas para tal afirmação.

É fato que o país vem sendo alvo de críticas quanto à sua situação de “depositária de dinheiro do mundo”, vivendo problemas de lavagem de dinheiro, dificuldades quanto à evasão fiscal, à corrupção ativa, exigindo medidas severas.

Também, poucos sabem que no domingo, 22 de setembro, foi realizado um plebiscito sobre a utilização a ser dada ao excedente das reservas de ouro do país.

Essas questões são fundamentais e os suíços estão preocupados com sua reputação. Mas, caracterizar a situação atual do país como de crise de identidade, não me parece apropriado.

ALC – A proposta da Expo é louvável. Quem participa de suas discussões? Entende que iniciativa afim seria viável e útil no Brasil?

Eliana - Entendo que o fato de uma pessoa do Brasil ter sido escolhida para participar da Expo é importante para nós.

Minha preocupação atual é de devolver o que pude conhecer nesse tempo, pois muitos pontos podem ser úteis para nossa discussão, como a ilusão em relação ao país do dinheiro, as dificuldades enfrentadas lá pelos imigrantes, pelos desempregados, pelas mulheres e pelas muitas brasileiras que partem para lá, sem condições efetivas de assegurar uma vida digna na Suíça.

A questão da intolerância entre vizinhos, a dependência do Estado ou de associações de ajuda social, em contraste com a criatividade e a iniciativa brasileiras, desse movimento popular incansável, merece ser analisada de perto!

ALC – Por que você foi escolhida para integrar os "sete sábios", assim denominados os palestrantes da Expo? É uma honra integrar esse quadro. A sua experiência de Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE) ajuda a melhor compreensão do que se passa no mundo do dinheiro, mesmo em terras suíças, num país distante do nosso, em outras condições, considerado de Primeiro Mundo?

Eliana - Minha indicação partiu de duas Agências Suíças de Cooperação Internacional, sendo uma protestante - Pão para o Próximo -, e outra católica-romana - Ação Quaresmal.

A CESE considerou importante a participação, ainda  que essa opção significasse o enfrentamento de dificuldades, principalmente na condução das atividades preparatórias à Campanha Primavera para Vida.

Mas, sem dúvida, a experiência acumulada na CESE junto às igrejas, às agências de diferentes partes do mundo e, sobretudo aos movimentos sociais, facilitou os contatos e um olhar externo prudente, pois sempre temos que considerar os olhares internos, múltiplos, e em várias direções, pois neles reside a substância do conhecimento da realidade e nos dão a base para uma posição justa, onde a verdade é o centro, mas a forma de evidenciá-la deve ser cuidadosa.

O país distante, de Primeiro Mundo, tem muitos problemas parecidos com os nossos.