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Sexta-feira, 26 de Outubro de 2007

Revmo. Julio Murray, bispo da Igreja Anglicana de Panamá [Foto: M. Quintero]
Revmo. Julio Murray, bispo da Igreja Anglicana de Panamá [Foto: M. Quintero]

A reconstrução não dependerá só dos líderes, mas dos povos

Entrevista: BUENOS AIRES, Argentina, Fevereiro 27, 2007

O bispo anglicano Julio Murray, de nacionalidade panamenha, defende o papel do Conselho Latino-Americano de Taxi Heathrow Airport Igrejas (CLAI) em processos de novas “democracias”. Nesse sentido, define-o como de anúncio e denúncia. Recorda Omar Torrijos e defende os processos eleitorais na Venezuela e na Nicarágua.

Entrevista concedida a Washington Uranga, do jornal Pagina 12

Página 12: É a primeira vez que um afrodescendente é presidente do CLAI?

Murray: Sim. Meus antepassados são afrodescendentes que chegaram vindos de Barbados e da Jamaica com a construção da ferrovia e do canal do Panamá. Trouxeram com eles sua prática religiosa. Venho de um tronco de família anglicana episcopal. No Panamá, a Igreja Anglicana Episcopal radicou-se há mais de 154 anos. Minha família é uma das fundadoras de uma das congregações na área de Rio Abajo, Cidade do Panamá. A comunidade anglicana episcopal no Panamá é hoje uma igreja nacional, com rosto panamenho: não somente dos afrodescendentes ou dos norte-americanos, mas também de camponeses e indígenas e de outras culturas que vivem e radicam no Panamá. Somos uma igreja que tem rosto panamenho.

Página 12: O que significa dizer que tem “rosto panamenho”?

Murray: Que a Igreja Episcopal no Panamá está enraizada nos problemas sociais e políticos, com voz profética e propondo o Evangelho de uma maneira que possa ver-se e entender-se com ações concretas que promovam a vida. Uma voz profética em função de ensinar valores que deixaram de ser praticados.

Página 12: Por exemplo?

Murray: A integridade, o respeito, a inclusão contra a discriminação e o racismo e a exclusão, acompanhar na busca de salvação e saúde. Coisas concretas. O rosto panamenho significa que a igreja não vai ser contra ou olhar de fora e que seus líderes vão emergir do solo panamenho. Meus antepassados são afrodescendentes, mas eu sou cem por cento panamenho, o que é ser centro-americano, latino-americano. A partir dessa perspectiva fazemos o trabalho de missão e visão da Igreja.

Página 12: Isso gera tensões com a vida política, social. Qual é o nível de relações que a Igreja mantém com outras organizações sociais, políticas?

Murray: Desde os (anos) 60-70 no Panamá foi surgindo, primeiro como um grupo de amigos, o que é hoje o Comitê Ecumênico. O arcebispo da Igreja Católica Romana, monsenhor Marcos McGrath, e o primeiro bispo panamenho da Igreja Episcopal do Panamá, Lemuel Shuley, eram excelentes amigos e eles começaram a convidar outros amigos. Assim, no diálogo, foi se formando o Comitê Ecumênico, que acompanhou diferentes processos de tomada de decisões a pedido do governo.

Página 12: Quais?

Murray: No tempo da presidenta Mireya Moscoso (1999-2004) participamos da Comissão da Verdade, que teve a responsabilidade de revisar e acompanhar os processos de militarização no Panamá. Monsenhor Shuley e monsenhor McGrath assumiram a responsabilidade de acompanhar o governo na tomada de decisão e na assinatura dos tratados. Tiveram a oportunidade de ser partícipes e acompanhar esses processos. A partir do movimento ecumênico, a Igreja Episcopal vai se dispondo em sua participação e acompanhamento em decisões muito importantes como a que acabo de mencionar relacionada aos tratados Torrijos-Carter, de 1977.

Página 12: O que significa, a seu ver, Omar Torrijos na vida do Panamá?

Murray: A igreja tem a responsabilidade de ser a voz profética, indiferentemente de quem seja o mandatário. Com o general Torrijos o povo panamenho consolidou um projeto de país em função da soberania do canal de Panamá. Tudo isso começa em 1964 com o assassinato dos estudantes que quiseram hastear a bandeira panamenha no que era a “zona do Canal”. Com o general Torrijos consolidou-se esse sonho de soberania que efetivamente se dá em 77 e que culmina no dia 31 de dezembro de 1999. Entramos no novo milênio sendo totalmente soberanos.

Página 12: Que comparação ou que relações podem ser feitas entre Omar Torrijos e o atual presidente, Martín Torrijos?

Murray: O presidente Martín Torrijos está procurando acompanhar o povo em todo processo de desenvolvimento. Se com o general Torrijos o povo se consolidou em torno de um projeto de soberania, neste momento o povo está buscando ser solidário e consolidar-se ao redor de um projeto de país. Não se trata unicamente de ter o canal no Panamá, mas utilizar de maneira mais responsável o que representa nosso assento ou nossa situação geográfica para as Américas e para o resto do mundo. O desenvolvimento passa também de maneira transversal pela educação, pela justiça, pela economia, mas sobretudo por ver como se sustenta no tempo este país e seu desenvolvimento, promovendo mais e mais serviços, mas também mão-de-obra local. O projeto de país que queremos neste exato momento com o presidente Martín Torrijos envolve muito a participação dos grupos cidadãos.

Página 12: Com Omar Torrijos não era assim?

Murray: Bom... com Omar Torrijos você entrava num escritório público e via indígenas, negros, o panamenho comum. Ele não fazia distinções nesse sentido, mas oferecia oportunidade para que as pessoas pudessem ter acesso às instâncias públicas. Mas com Martín Torrijos o que se pretende é convidar a sociedade civil organizada para a mesa de diálogo. Convidar também os partidos políticos – que têm a opção ou não de participar da mesa –, a empresa privada, os grupos de igreja, o Comitê Ecumênico, os profissionais, o camponês, o panamenho comum, para que todos possam participar desse diálogo.

Página 12: Entre Omar Torrijos e Martín Torrijos está o general Manuel Noriega. Há muitas leituras sobre Noriega. Qual é a sua?

Murray: Há tantas leituras como panamenhos. Algumas pessoas vêem Noriega como aquele que manteve controlada a problemática da drogadicção. Neste momento o Panamá vive uma situação que está controlada, mas sente-se que no tempo de Noriega estava bem mais. Outra leitura do general Noriega é que ele quis caminhar nos sapatos do general (Torrijos), mas tinha outra agenda. Outra: foi o homem dos Estados Unidos no Panamá. Eles o treinaram, eles o criaram e quando se pediu que o sacassem o sacaram. Mas eu creio que o general Noriega representou para o Panamá uma etapa da história que também viveram nossos irmãos e irmãs na América latina: a época do militarismo. É uma etapa que não podemos evitar e muitos menos esquecer, mas à qual não devemos regressar.

Página 12: A América latina vive um momento de alternativas nos campos político e social. Como o CLAI analisa essa situação?

Murray: Eu percebo que neste momento o CLAI sente um claro desafio de ir acompanhando as igrejas neste novo tempo de América Latina em função de como fazer missão e evangelização, num tempo tão conturbado, no qual se estão gestando as novas democracias. É um desafio. Porque há uma Palavra a proclamar, uma mensagem de vida, uma construção do Reino a fazer. Não podemos ser meros espectadores, temos uma tarefa a realizar. O CLAI tem que ir se revisando constantemente, porque nós, como igreja, agentes de constante transformação para a sociedade, temos que ir fazendo leitura e releitura da conjuntura frente à Palavra de Deus. Estamos vivendo processos de democratização, mas nos questionamos por que em vez de proclamar e promover a vida ainda não se está conseguindo aterrissar com medidas concretas que estejam efetivamente promovendo vida. Há muitas tentativas. Mas há outros temas que nos preocupam.

Página 12: Quais?

Murray: Os casos de corrupção que estamos enfrentando, a não-prática de outros valores; ver-nos numa situação na qual o ser humano se converteu num indivíduo, num número, e deixou de lado tudo o que é`relativo ao ser pessoa e estar em relação uns com os outros. Desgraçadamente parece que só os desastres nos aproximam e nos convocam a procurar a unidade. O desafio que se propõe a nossas igrejas é como fazer missão em meio a isso. O CLAI quer acompanhar como voz profética os governos que estão trabalhando nestas novas democracias. Em alguns lugares, especificamente no Panamá, nós dizemos que o sistema entrou em colapso em função de poder prover mais e mais oportunidades. Não há que fazer remendos no sistema, mas confrontar o sistema para dizer-lhe: já basta de corrupção, basta de impunidade. É preciso procurar respostas para que o povo tenha confiança, mas também para que tenha a possibilidade de ter acesso à vida. Em muitos de nossos países temos problemas econômicos porque, desgraçadamente, ainda está sobre nós o pêndulo da dívida externa. Muitos de nossos países são ricos em recursos humanos, em recursos naturais. Mas falemos da distribuição da riqueza. Totalmente desigual. O combate à pobreza tem que ver e passar definitivamente por como está distribuída a riqueza em nossos países. O CLAI tem que colaborar com as igrejas nessa agenda através de seus programas, propondo temas para que as igrejas possam atender com eficácia a esse acompanhamento profético.

Página 12: Podemos falar da Nicarágua? Há dois Daniel Ortega? Um é o de 79 e da revolução sandinista e outro este de hoje?

Murray: Como disse anteriormente, a conjuntura mudou. E talvez o estilo de liderança também mudou. Não creio que hoje o governo da Nicarágua esteja afastado de todos os esforços que se faz na América Latina para uma maior participação. Cada contexto, cada realidade, requer sua própria análise e sua própria resposta. Tem sido muito interessante observar que a Nicarágua e a Venezuela, que acabam de ter eleições, chegaram à decisão de que estes são seus dirigentes. Isso se fez num marco democrático de participação cidadã. Há quem ficou de acordo e quem não, mas creio que cada país vai ter o enorme desafio de responder a partir da sua realidade. Há algumas coisas que não são aparentes. Por exemplo, o fato de que tu participaste deste modelo e agora está participando deste outro. Podemos confiar em ti? Isto por um lado. No entanto, eu creio que a recomposição, a reconstrução, não vai depender unicamente dos líderes no governo, mas da capacidade que o povo tiver de ser gestor e artífice do que há que escrever na história de nossos países.

Página 12: Isto pode traduzir-se em pensar mais na participação do povo do que no protagonismo dos dirigentes?

Murray: Pensar mais na participação organizada e que se dê a oportunidade para que isso gere o balanço que se precisa.

Página 12: Como é o processo para que surjam novos dirigentes fiéis às bases?

Murray: Eu creio que um dos elementos fundamentais é o acesso à educação. É muito importante a educação em nossos países. Em segundo lugar, que haja acesso ao trabalho. Creio que a igreja dá uma contribuição muito grande quando ensina, a partir da fé, que é possível ter novos modelos. O valor que tem a missão da evangelização nestes dias é singular. Porque o referente que usamos é o Evangelho. Um Evangelho que prega a paz, a busca da justiça, a inclusão, as relações fundadas no amor e no respeito  ao outro e à outra. Esses são os elementos essenciais com os quais o povo participa. A Igreja ainda é a voz de alguns que não têm voz: mulheres, indígenas, portadores de deficiência, afrodescendentes, jovens, família. Estes são os grupos fundantes de nossa sociedade.

Página 12: A relação Igreja-Estado é sempre conflituosa. Que critérios usar?

Murray: Mencionei uma e outra vez o que significa ser essa voz profética. E essa voz profética tem dois componentes. De anúncio e de denúncia. Nós podemos fazer uma série de anúncios porque conhecemos a Escritura. Mas as denúncias se farão tanto e quanto entendamos o que está se passando na conjuntura. E essa realidade conjuntural sempre vai procurar um reflexo no que as Escrituras nos ensinam. A tarefa das igrejas sempre vai ser um desafio. Eu creio que é importante que a Igreja possa fazer o trabalho profético sem comprometer a mensagem do Evangelho.

Página 12: A que se refere com isso?

Murray: Não creio que as igrejas sejam chamadas a ser partidos políticos. Mas temos, sim, uma voz para os que têm a responsabilidade de dar respostas de vida às maiorias comuns, ou seja, os políticos. Não creio que nossa tarefa seja tampouco a de pregar um Evangelho de soluções rápidas, que não têm nada a ver com o presente, mas que te mandam para um futuro além do Sol, que não é onde temos que construir o Reino de Deus, senão nesta realidade na qual estamos conscientes e caminhando. E nesta realidade, falar de uma situação de prosperidade é negar a capacidade da graça de Deus em meio a situações de desesperança, é negar a possibilidade de oferecer luzes de esperança. O desafio da Igreja no acompanhamento aos governos, aos políticos, no acompanhamento do social, tem que estar mais e mais e mais em fazer sempre a leitura e a releitura do que está ocorrendo na conjuntura e sempre focado na Palavra e no Evangelho essas boas notícias. E em comprometer-nos cada vez mais em ser colaboradores da construção do Reino, que já foi inaugurado, mas ainda não chegou a ser completado. Porque nós, como cristãos, como igrejas, como organismos cristãos, que aceitamos a fé em Jesus Cristo, vemos então por onde vão as luzes, os caminhos. E não podemos comprometer a mensagem do Evangelho, um Evangelho que propõe vida em abundância, que propõe relações de igualdade, que propõe paz, produto de que tenha um sistema de justiça em consonância com essa busca da paz.

Página 12: Quais são as prioridades que surgem do CLAI para a ação das igrejas na América Latina?

Murray: Os delineamentos estão apontando ao trabalho com famílias, ao trabalho com mulher, juventude, indígenas, negritude. Mas também em função do desenvolvimento, da economia e da sociedade. Queremos acompanhar às igrejas para ajuda-las a  serem melhores intérpretes da conjuntura social na qual estamos vivendo e ser proponentes, a partir do Evangelho, dos melhores testemunhos que ajudem a promover a vida. Definitivamente, levantar o aspecto da década pela paz da América Latina, América afro-latin-índia tão conturbada e ser cada vez mais agentes transformadores para a paz.

Página 12: O que significa, em dois ou três tópicos, ser agentes transformadores para a paz?

Murray: Um: buscar em primeira instância que nossos lares sejam recintos onde se possa conviver em paz. Isso não implica a ausência de situações difíceis, de conflitos, mas manejá-los de tal maneira que o resultado tal que nele se  possa viver. Segundo: que nossas congregações, nossas igrejas, sejam também exemplo de uma convivência em paz, onde haja participação, inclusão e onde possamos, através da Palavra, ser espaço de hospitalidade, de respeito e de honra. E em terceiro lugar: o impacto que faz a Igreja acompanhando os governos, as instâncias de tomada de decisão, de tal maneira que a mensagem seja uma mensagem fundamentada no Evangelho. Se nós conseguirmos fazer isso estaremos influenciando positivamente nessas instâncias com uma mensagem que promova a paz.