Voltar ao início

Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Sementes de vida: a busca de alternativas à agroindústria

Juan Michel/CMI, Janeiro 26, 2007

Por que um número alarmante de agricultores índios suicidaram-se nos últimos anos? Por que pessoas Taxi Heathrow Airport da comarca rural de Jang Seong, próxima a Kwangju, na República da Coréia (Coréia do Sul), dedica-se à agricultura ecológica? Por que organizações brasileiras respaldadas pelas igrejas trabalham recuperando sementes autóctones? A resposta a essas perguntas tem muito que ver com o impacto da globalização econômica na agricultura, no qual dois modelos estão envolvidos hoje em dia numa luta de vida ou morte.

No caso da Índia, a história começa com a introdução, faz uns quinze anos, de sementes de algodão modificadas geneticamente. Como o governo subvencionava a produção de algodão, os grandes ganhos impulsionaram agricultores a mudar para o monocultivo. Posteriormente, esses camponeses solicitaram empréstimos para arrendar mais terras do que cultivar, e, com o tempo, deixaram de semear culturas alimentícias.

Todos pareciam felizes até que o mercado veio abaixo, os preços caíram, os agricultores não puderam pagar os empréstimos e os bancos desapropriaram as terras. E ocorreu que, primeiro foram alguns e depois muitos os agricultores que se suicidaram. Segundo dados oficiais, entre 1993 e 2005 o número de quem acabou com sua vida atingiu os 100 mil.

"Foi uma armadilha mortal", afirma William Stanley, um ativista social da Índia que trabalha com a Igreja Luterana e organizações da sociedade civil. "Os agricultores passaram de ricos a pobres numa década. Muitos não suportaram perder sua dignidade".

Stanley dirigiu-se com essas palavras aos participantes de um seminário sobre "Agricultura que dá a vida". Patrocinado por uma coligação de organizações ecumênicas lideradas pelo Conselho Mundial de Igrejas, esse seminário foi realizado no marco do Fórum Social Mundial (FSM), reunido em Nairobi, Quênia, de 20 a 25 de janeiro.

No mesmo evento, Seong-Won Park, um teólogo da República da Coréia, falou aos participantes do número crescente de concidadãos que optaram por um estilo de vida diferente.

Num país atraente, moderno, urbano, industrial e avançado tecnologicamente, que é para muitos um exemplo de desenvolvimento exitoso, algumas pessoas retomam um estilo de vida ecológico. "Ainda que não são muitos, certo número de sul-coreanos estão cansados do estilo de vida predominante e estão dispostos a abandonar os privilégios que isso implica", informou Park.

O mesmo Park comprometeu-se com a agricultura ecológica no Seminário Teológico Young Nam, onde dá aulas e anima os estudantes a enfocarem o seu futuro ministério de um ponto de vista ecológico. Em casa, Park cultiva a sua própria horta para a família. Para que isso ocorresse, teve que aprender de agricultores experimentados e comercializou diretamente com eles.

A experiência pessoal de Park ressoa num movimento mais amplo da República da Coréia. Na comarca rural de Jang Seong, próxima a Kwangju, uma igreja local desempenhou papel fundamental na promoção da agricultura ecológica e um sistema de comércio direto entre produtores e consumidores. Depois de quinze anos de conflito, a igreja, organizações da sociedade civil e o governo local trabalham finalmente juntos dentro do marco de um "fórum por uma visão diferente", que promove a agricultura ecológica e os mercados tradicionais de agricultores locais.

Mais do que simples sementes

Independentemente do tipo de agricultura que se pratica, sempre será preciso semear sementes. Parece singelo à primeira vista: as sementes são sementes, verdade? Bem, pois não. Os dois modelos de agricultura - a orgânica, da qual Park e outros diriam "que dá a vida", e o modelo dominante atual impulsionado pelas empresas e orientado ao mercado - precisam e utilizam diferentes tipos de sementes.

Por isso, no Brasil e outros lugares, as pessoas e organizações que participam na prática e promoção da agricultura ecológica também lutam para recuperar e proteger a enorme variedade de sementes autóctones ameaçadas pela imposição de sementes híbridas e transgênicas vendidas pelas companhias agrotécnicas.

"Hoje em dia, utilizam-se as sementes como instrumentos de poder e dominação", diz Nancy Cardoso, uma teóloga brasileira. Segundo ela, "a manipulação, o controle, a concentração e a comercialização tecnológicas das sementes em mãos de um pequeno grupo de enormes empresas capitalistas estão pondo em perigo a humanidade e a natureza".

Para Cardoso, as sementes são mais do que "simples sementes" e seu cultivo e manipulação é mais do que uma simples atividade econômica. Em sua opinião, as sementes não são só material, mas também estruturas simbólicas. "Códigos, sistemas de informação: as sementes são rotas vivas, caminhos da antigüidade e itinerários do contemporâneo; são, do mesmo modo, a via de acesso a possibilidades que ainda desconhecemos", alega.

A maneira como se cultivam e utilizam as sementes não é uma mera atividade mecânica, senão uma expressão das relações sociais que unem natureza e a economia, política e a ecologia. Para Cardoso, tudo isso contribui para uma dimensão teológica na luta por recuperar e proteger a diversidade de sementes autóctones: uma tarefa urgente que tem por objetivo preservar a vida garantindo a autonomia e a segurança alimentar.

A busca conjunta de alternativas

A luta das sementes é só uma parte do empenho de promover uma agricultura que dá vida. Um número crescente de organizações e pessoas uniu-se em torno deste modelo, que comparam com o modelo de agrícola dominante. O conceito foi desenvolvido dentro do marco da Coligação Ecumênica de Alternativas à Globalização que, em abril de 2005, realizou o seu primeiro "Fórum sobre agricultura que dá a vida" em Wonju, República da Coréia, e advogou por este modelo como uma alternativa necessária frente à agricultura "que destrói a vida".

O fórum criticou o modelo dominante atual como um tipo de agricultura de grande densidade de capital e monocultivo, orientada à exportação e com fins predominantemente voltados ao lucro. Park, que participou do fórum, afirma que este modelo "obriga os agricultores a utilizarem sementes modificadas geneticamente, pesticidas, fertilizantes químicos e a automatização, o que conduz à degradação do solo, à perda de biodiversidade e à concentração da terra em mãos de uns poucos".

Em mudança, o modelo da agricultura que dá a vida, centrado na agricultura ecológica, apresenta-se como "socialmente justo, inócuo para o meio ambiente e viável economicamente", nas palavras de Lucy Ngatia, uma bacharel em ecologia pela Universidade de Nairobi. Na África, a agricultura ecológica faz crescer em realidade os níveis de produção dos agricultores, mitigando deste modo a pobreza enquanto aumenta a segurança alimentar, explicou Ngatia aos participantes do seminário sobre agricultura que dá a vida.

"O semeador saiu a semear sua semente", conta a parábola (Lucas 8,5). Parece singelo, mas não o é. Nunca o foi. No entanto, quem promove a agricultura que dá a vida diria que a experiência demonstra que é possível impor resistência ao modelo dominante sempre que todos os membros de uma comunidade se unirem na busca de alternativas.


(*) Juan Michel é o encarregado de relações com os meios de informação do CMI e membro da Igreja Evangélica do Rio da Prata, em Buenos Aires, Argentina.