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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Quando "beleza" não rima com "vida"

Claudia Florentín, BUENOS AIRES, Argentina, Janeiro 20, 2007

Que as mulheres não são protagonistas nas notícias, não é notícia; que quando estamos na Taxi Heathrow Airport capa ou em anúncios publicitários, a maioria das vezes é com pouca roupa e gestos fatais, também não assombra a ninguém; que, para estar na capa, se exige um corpo esplêndido de modelo hot, já é sabido. O tema muda e deveria ser cada vez mais notícia, quando se chega à análise de como esse perverso sistema de imagens perfeitas de mulheres influi na mente, no corpo e nas condutas das adolescentes e jovens em todo mundo....e de muitas que já passaram várias décadas também.

Preocupado pela alta exigência de beleza e delgadeza promovida pela mídia, e especialmente as revistas femininas, o governo da Suécia promove um projeto intitulado "Girl Power". Em página na rede mundial de computadores, mostram, para quem quiser ver, os truques usados nos retoques de foto de capa de revista.

Embora os retoques fotográficos não sejam nenhuma novidade, fato é que a mídia criou uma imagem absolutamente falsa de beleza e deixa pessoas obcecadas, que terminam confundindo (desconhecendo tais procedimentos) a fantasia dos meios com a realidade.

O cliente dessa campanha mostrando a fraude de muitas belas imagens é o Ministério de Saúde e Assuntos Sociais da Suécia, que espera informar as adolescentes para que adquiram mais experiência com a mídia e possa analisá-los criticamente.

O sítio da campanha faz a pergunta: "Quantas milhares de vezes por dia vês uma imagem ou uma mensagem que te diz como sois ou como deverias ser? Nos out-doors nas vias públicas, na TV, nos jornais. Não te sentes estressada com a demanda de ser perfeita?" (Para ver o site do projeto "GirlPower", acesse: https://demo.fb.se/e/girlpower/section4/index.html)

Ultimamente, e à raiz da morte de jovens modelos por causa da anorexia, o debate sobre a beleza, suas exigências e os riscos graves para a saúde e a vida, ultrapassou o mundo da moda. Enquanto modelistas resistem aos requisitos de idade e de peso das mulheres que desfilam nas passarelas, médicos insitem que eles são necessários.

O diretor clínico do Centro de Desordens Alimentares Ursula de Leidschendam, Holanda, e presidente da Academia de Desordens Alimentares, Eric van Furth, criticou os modelistas por essa falta de critérios.

"Cremos que a indústria da moda deveria assumir alguma responsabilidade pela saúde de seus modelos", disse van Furth. A forma como apresentaram suas recomendações realmente mostra que eles não estão reconhecendo a seriedade do problema da desordem alimentar, emendou o médico.

Johnson Hartig, sócio da empresa de desenho Libertine, de Los Angeles, disse que os modelistas não devem ser culpados da existência de desordens de alimentação entre as modelos ou pela obsessão da delgadeza, da cultura popular.

"Não são só as modelos, mas as atrizes e as celebridades também são magras", disse Hartig. "É o estado de nosso país, penso, e o tratamento precisa começar em casa. Se alguém é emocionalmente estável, não há problema", afiançou.

A anorexia, a mais conhecida das doenças de transtorno da conduta alimentar, supõe uma perda de peso provocada pela própria pessoa enferma e leva a um estado de inanição. Caracteriza-se pelo temor de aumentar de peso, e por uma percepção distorcida e delirante do próprio corpo, que faz que a pessoa doente se veja gorda, mesmo que seu peso se encontrar abaixo do recomendado. Por isso inicia uma diminuição progressiva do peso, mediante jejuns e a redução da ingesta de alimentos.

Segundo especialistas, e daí o alto risco, a idade de início da anorexia situa-se na primeira adolescência, em torno dos 12 anos, conquanto a população mais afetada encontra-se entre os 14 e 18 anos de idade. Ela é mais freqüente nas classes sociais média e média-alta. Em 95% dos casos a anorexia afeta mulheres jovens, apesar de nos últimos anos se verificar um aumento em homens, em mulheres adultas e em crianças.

As pautas culturais imperantes no mundo globalizado e de consumo desenfreado de bens, serviços e moda, afirmam que ser magra é sinônimo de sucesso, de beleza, e de facilidades negadas a setores que excedem o peso "ideal" e mágico.

Numa aldeia global, a internet tem muito a oferecer aos desordeiros da alimentação. Existem na rede páginas autodenominadas "pró anna" (anorexia) e "pró mia" (bulimia), que defendem esses transtornos como "outro estilo de vida".

Geralmente são blogs, sítios de opiniões, perguntas e respostas, nos quais as adolescentes são bem-vindas e estimuladas a entrar num caminho que só as levará ao abismo. Em vários destes sítios na internet encontram-se galerias de fotos de modelos, de cantoras e atrizes muito magras para "inspirar" as internautas.

Recentemente, foi fechado um sítio espanhol, chamado "Princesa de Porcelana", que convocava jovens a um concurso para baixar de peso. Para isso, em duas semanas, as garotas que somassem mais pontos consumindo muito poucas calorias seriam recompensadas. O concurso, anunciado para 13 de janeiro e que se estenderia até o dia 27, provocou forte rejeição entre autoridades sanitárias de Espanha.

A iniciativa outorgava até 10 pontos a quem conseguisse um jejum total de 24 horas. Depois tinha diferentes escalas: dois pontos para quem consumisse entre 751 e 850 calorias e nove pontos às que só ingerisse entre 50 e 100 calorias. Este aporte calórico está muito abaixo das recomendações médicas de ingerir entre 1.500 e 2.000 calorias diárias.

Preocupados pela crescente procura dessas páginas e as dietas quase mortais, a organização "Proteger-lhes", da Espanha, e a Prefeitura de Madri, abriram uma página web alternativa que evidencia as mentiras desse "estilo de vida", alertando sobre os riscos de medicamentos para emagrecer e mostrando o doloroso final desta escolha. A *pagina é: https://www.anaymia.com/02.swf.

Que ser uma mulher perfeita seja ter todos os direitos, sem que ninguém imponha modelos que violem o corpo, roubam a alma e tiram a paz. Que possamos ensinar nossos filhos e filhas a ler por trás do evidente, a ver além da beleza comprada e a desfrutar a vida como um precioso presente de Deus.