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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Desapariciones forzadas
Desapariciones forzadas

Impunidade e desaparecimento em pleno século XXI

Daniel Benadava, BUENOS AIRES, Argentina, Janeiro 8, 2007

Nos primeiros anos deste novo século, mesmo sabendo que a América Latina transita por um Taxi Heathrow Airport caminho democrático, ainda há muito a fazer para a construção, em paz, de um continente no qual a impunidade para pouco seja banida, não ocorram mais desaparecimentos de pessoas por causa de suas idéias políticas, e onde exista justiça e bem-estar para todos.

Muitos latino-americanos desejariam viver, hoje em dia, num continente que não tivesse memória nem recordação. Alguns o fazem pelo temor do que as sangrentas ditaduras deixaram em seus magoados corações décadas atrás; outros adotam essa postura por conveniência já que, se o povo tivesse memória, eles não poderiam caminhar pela rua com a impunidade e a soberba com que o fazem cotidianamente.

Muitos também sobrevivem dessa maneira porque, de uma ou de outra forma, transcorrem num "presente contínuo" no qual não estabelecem vínculo algum - por ignorância, conveniência ou desinteresse - com a história continental.

Além de todo esse posicionamento, a realidade, sempre obstinada e persistentemente, coloca-nos frente a acontecimentos que, queiramos ou não, nos fazem rememorar a sangrenta e escura dor que, alguns perversos personagens que em muitos casos continuam ainda hoje em dia sem julgamento ou castigo, infligiram sobre essas terras nas décadas 60, 70 e 80 do século passado.

Assim, por exemplo, no final de 2006 morreu, sem ter sido judicialmente responsável pelos atropelos que cometeu contra o povo chileno, mas com uma majoritária condenação social, o ex-ditador e repressor Augusto Pinochet. Durante longos e tenebrosos anos Pinochet atentou contra a vida de seus próximos, incorrendo em numerosos abusos de poder, entre os quais se podem mencionar a repressão sistemática ou seletiva de pessoas por sua ideologia, a violação da privacidade, torturas e o desaparecimento de pessoas.

Em relação a esse último ponto, em meados da segunda metade de 2006 aconteceu um fato que comoveu a vida institucional e democrática da República Argentina. Julio López, que fora seqüestrado nos anos 70 do século passado por forças da ditadura militar, depois de prestar depoimento contra o repressor Miguel Etchecolatz foi seqüestrado mais uma vez e continua desaparecido. Mas desta vez em pleno período democrático, quando estão em vigência todas as garantias constitucionais.

Nos últimos dias do mês de dezembro do ano passado também desapareceu, na localidade de Escobar, na Província de Buenos Aires, Luis Gerez, que tinha deposto contra os assassinos e torturadores de militantes de organizações populares na década de 70 . Mas diferentemente de Jorge López, Luis Gerez foi libertado pelos seqüestradores depois de ser intimidado, humilhado psiquicamente e torturado fisicamente.

Todos esses acontecimentos devem ser rechaçados, aberta e energicamente, pela comunidade latino-americana. Por trás deles perambulam sinistros personagens que semearam de sangue e dor nossa região e que, em pleno século XXI, continuam caminhando entre nós, impunemente, com a nostalgia daqueles anos em que a ditadura militar sufocava qualquer esboço de vida, justiça e solidariedade.

Esses fatos também devem ser condenados e denunciados com um autêntico compromisso evangélico pelos cristãos. Se, como povo de Deus, não procurarmos juízo e castigo para aqueles que atentaram contra a vida e a dignidade humana de nossos irmãos, estabelecendo contextos de pecado nos quais muitos foram escravizados e outros tantos desapareceram, em última instância, por ação ou omissão, estaremos sendo cúmplices daqueles que transitaram, e percorrem ainda hoje em dia caminhos que sob nenhum ponto de vista conduzem ao Reino de Salvação e Libertação.