![Bispo metodista argentino Federico Pagura envia carta a Bush [Foto: FOS]](/picture/foto93.jpg)
Desafios às igrejas na América Latina
Entrevista: , GENEBRA, Suiza
Durante a reunião do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas (CMI), ALC entrevistou, no domingo, 1. de setembro, em Genebra, Federico Pagura, bispo emérito da Igreja Metodista Argentina, co-presidente do CMI e co-presidente do Movimento Ecumênico pelos Direitos Humanos (MEDH) da Argentina.
ALC: É extraordinário que aos 80 anos de idade você continue ativo na Igreja e no movimento ecumênico mundial. Como o explica?
PAGURA: Parece mentira que tenha completado 50 anos de vida matrimonial, de serviço ministerial e de atividade no mundo ecumênico. Ainda não antevejo uma retirada real, por causa dos compromissos assumidos e mesmo porque a saúde me permite continuar contribuindo.
Reconheço, contudo, que questões de saúde na família (minha esposa) afetou, sim, o ritmo do meu trabalho. Até agora, reduzi o trabalho pastoral numa pequena congregação em Rosário (Argentina). A co-presidência do MEDH continua demandando tempo e participação por causa da gravidade da época que se vive na Argentina. Também sou co-presidente do CMI.
De qualquer maneira, os desafios que temos em distintas esferas por causa da gravidade do momento que vive a América Latina não nos dá tempo para a retirada. De outra parte, cumpre-se o que disse numa cerimônia de despedida, ao me afastar do episcopado metodista, de que eu me "retirava para frente". Creio que estou cumprindo o que prometi.
ALC: Como encara a presença da Igreja na sociedade argentina?
PAGURA: Diria que, em termos gerais, falando ecumenicamente, pensando na Igreja Católica e no protestantismo histórico, sim, há uma maior presença na sociedade. Alguns aspectos foram corrigidos no testemunho de nossas igrejas.
Especialmente a Igreja Católica, estava muito desprestigiada por causa da pouca valentia (mostrada) para encarar os genocidas que nos governaram durante a ditadura militar, salvo um pequeníssimo grupo de três ou quatro bispos que jogaram a vida pelo povo.
Nesse momento, a Conferência Episcopal confessou sua ausência nessa batalha tão importante, suas fraquezas, suas contradições com o evangelho. Uma nova geração dentro da Conferência Episcopal mudou o rumo de acomodar-se ao governo e de fechar os olhos às violações dos direitos humanos e das múltiplas formas de corrupção. Esse é um ponto positivo.
As igrejas protestantes históricas, depois do período muito intenso que foi a luta contra a ditadura, dobraram-se sobre si mesmas, por causa dos problemas econômicos e as pesadas cargas que essas igrejas tiveram que levar nas ditaduras.
Isso fez com que, consciente ou inconscientemente, os dirigentes das igrejas quisessem fazer um parêntese. Ainda assim, sob a intensidade do compromisso ecumênico que nos caracteriza.
Creio que, outra vez, o agravamento da situação em nossos países motivado pelo capitalismo selvagem, que nos foi imposto no continente, volta a sacudir as igrejas, tirando-as de uma longa "siesta" para assumirem a responsabilidade que nos cabe em atender as vítimas desse sistema. Em alertar e denunciar todo o mal que o sistema produz, não apenas à vida das pessoas, mas por converter-se num genocídio social.
Em terceiro lugar, estamos buscando, como igrejas, uma alternativa para esse momento, não postergando em demasia o tempo de encontrar essa saída, porque os nossos correm sérios riscos.
Alegro-me que muitos líderes nacionais e de nível regional estejam participando do Fórum Social, que nos demanda concentrar nossos esforços, nossa projeção, na busca de saídas rápidas para essa situação.
ALC: O que diz da participação dos evangélicos na política?
PAGURA: A situação de deterioração que o nosso povo vive obrigou as igrejas que até há pouco tempo criticavam as igrejas históricas pela sua politização e interesse social, a algum tipo de participação. Em alguns casos prematura.
Há setores evangélicos que aspiraram a cargos políticos sem estar preparados. Em muitos casos, foram experiência frustrantes, por causa da falta de preparação para esses cargos. Lamentavelmente, em diversos casos, só foi um afã de poder e de beneficiar suas próprias comunidades religiosas, e não para beneficiar o povo.
Assim que a atitude de romper com a "greve social" dos evangélicos é positiva, mas o avanço para situações de poder, sem que aconteça uma preparação para tal, pode conduzir a um auto-engano e dar péssimo testemunho diante do povo, que nos vai barrar, então, futuras incursões na política.
Insisto em que o povo evangélico deve capacitar-se seriamente e assumir sua responsabilidade social, ética, mas não movido por posições mesquinhas de ordem pessoal ou denominacional, mas por amor ao povo, a quem somos chamados a servir. Essa é uma etapa fundamental, se quisermos dar uma contribuição significativa.
ALC: Que alternativas existem para a falta de credibilidade nos políticos argentinos?
PAGURA: Ao sair da Argentina, o Comitê Permanente da Conferência Episcopal tornou público um documento de crítica à classe política, porque não está tomando consciência da gravidade dos problemas que afligem o nosso povo e segue com os mesmos discursos, ambições que as pessoas rechaçam quando dizem: "Que se vão todos".
Estamos entrando numa etapa pré-eleitoral e se vêem os mesmos vícios, o que agrava mais a situação da classe política e a rejeição do povo. Temos um Poder Executivo negativo aos olhos do povo, que pede soluções a seus problemas.
Como alternativa, muitos de nós apoiamos o movimento Frente Nacional contra a Pobreza (Frenapo), que se propõe não apenas a eleger políticos para cargos de importância, mas atacar problemas que já estão nas mãos dos governantes.
A Frenapo tem um programa para atender a pobreza e resolver o problema do desemprego, assim como o da segurança, que, se não for solucionado, vai deteriorar ainda mais a situação.
A Frenapo engendra uma alternativa política. Entre outros, participam do Movimento Elisa Carrió, ex-dirigente da União Cívica Radical; Luis Zamora, da esquerda; e Víctor de Gennaro, líder sindical respeitado por sua coerência e capacidade de mobilização. Todos são elementos positivos.
Escrevi a eles, recentemente, pedindo-lhes que, por amor a Deus e ao povo, unam seus esforços, buscando uma confluência que lhes permita responder às expectativas do povo.
Queremos uma Constituinte que conte com uma nova classe política. O povo perdeu a confiança nos políticos, pois eles só enxergam os seus interesses pessoais e partidários. E é isso que a Igreja Católica, que participou do Diálogo Nacional, está demandando dos políticos. Muitas organizações não-governamentais, igrejas, o judaísmo, o islamismo, promovem correntes para dar uma contribuição ao momento histórico.
ALC: Qual é sua apreciação quanto ao papel dos Estados Unidos na crise argentina?
PAGURA: Creio que nesse momento a Argentina está tomando consciência de seu papel histórico e de que a demanda que Deus nos está fazendo é a de resistir totalmente a esse modelo que nos foi imposto, antecipado pela instauração de um período ditatorial, sem o qual teria sido difícil conseguir a imposição do modelo neoliberal, a globalização da injustiça.
Alegramo-nos muito de ver a resistência do povo e também de autoridades do mundo econômico, como o Dr. Stiglitz, para denunciar o abuso dos grandes centros de poder econômico sobre os nossos povos. Estados Unidos estão castigando a Argentina por ter sido modelo de submissão durante a década de Menem, mas que agora está se convertendo num modelo de resistência, e isso é imperdoável.
No entanto, para mim, ali está o verdadeiro destino dos povos irmãos, de mostrar um rumo diferente à humanidade.
Outro elemento é que na Argentina aprendemos a denunciar governantes que usam a religião. Os cristãos sentem-se livres de falar a um católico ou protestante, pedindo-lhes coerência com as convicções que dizem ter.
A mim, como metodista, me incomoda que Bush faça exatamente o que motivou Wesley para atacar o lucro no sistema econômico ou a escravatura, com a carreira armamentista, que impede a alocação de recursos para a saúde e a educação, para financiar aventuras armadas.
É hora de as igrejas tomarem decisões e que autoridades episcopais tenham a coragem de denunciar esses governantes que usam a religião para justificar suas perversões e, hipocritamente, apresentarem-se como paladinos da democracia e do cristianismo, quando estão traindo ambos.
ALC: Qual é a sua opinião sobre a atual reunião do Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas (CMI)?
PAGURA: A agenda dessa reunião está concentrada na Ásia, no tema dos ortodoxos, na crise financeira do CMI e na sede da próxima Assembléia. Sinto que não tenha havido espaço para discutir temas que são de vida ou morte em nossos países.
Johannesburgo nos chama a atenção, Leonardo Boff nos chama a atenção de que nesse momento a primeira vítima do sistema globalmente imposto é a própria Terra. Que estamos explorando, destruindo, contaminando a atmosfera e que não queremos aceitar nossa responsabilidade.
As igrejas, como afirma Boff, deveriam preocupar-se, mais do que por sua própria subsistência como igrejas, pela sobrevivência da humanidade, do futuro da Terra, para cuidá-la e protegê-la de tudo o que torna a vida impossível.
ALC: O que lhe parece o documento da Comissão Especial sobre a participação dos Ortodoxos no CMI?
PAGURA: Tenho um sentido de gratidão pelo trabalho da Comissão. O grupo o fez com toda a consciência, reconheceram que os membros da comissão tinham crescido ao dialogarem e não escaparam de nenhuma das perguntas que lhes foram formuladas.
É um documento de trabalho válido e valioso, que nos mostra novos caminhos, nos mostra fraquezas intrínsecas ao CMI, que exige de nós que escutemos os outros para crescer num ecumenismo genuíno e não de aparência.
Nesse sentido, vamos poder dedicar um pouco de tempo, em nível de congregações e organizações, até a Assembléia de 2006. Algumas recomendações podem ser válidas e necessárias e outras merecerão maior estudo. Mas em geral é um passo positivo.
ALC: Que aspectos lhe parecem controvertidos?
PAGURA: Há alguns aspectos que são sumamente controvertidos e por isso o documento não fecha a discussão. O documento nos conscientiza de coisas que incomodam os ortodoxos e o que incomoda os protestantes, que também temos nossas diferenças, como é o caso da ordenação de mulheres e o episcopado da mulher.
Para avançar é importante que esses temas se tornem conhecidos e que não fiquem escondidos, que sejam discutidos francamente, de maneira madura.
Aqui eu vejo um processo de diálogo em curso e que nos fará pensar que há coisas que temos que mudar e que o mundo nos vai pedir isso, se nós não reconhecermos erros, mas estivermos abertos a revisar a nossa maneira de pensar.
É parte da vida de nossas igrejas. É mais sadio discutir, embora seja penoso. Em último caso, a vida litúrgica vai continuar, não se pode brecá-la, é parte da nossa natureza, e, como igrejas, temos que renovar-nos, se não quisermos ser peças de museu.
ALC: Como vê o futuro do movimento ecumênico?
PAGURA: Embora hajam obstáculos, me parece que seguimos buscando a unidade na diversidade. Devemos afirmar o respeito por nossas diferenças. Sinto-me otimista sobre o futuro do movimento ecumênico. Embora não devamos diminuir a importância das dificuldades, penso que as soluções às dificuldades se encontrarão no caminho da unidade, especialmente num mundo tão complexo como o atual.

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