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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Manuel López, jornalista espanhol, diretor da Revista Foto e membro da Primeira Igreja Batista de Madri.
Manuel López, jornalista espanhol, diretor da Revista Foto e membro da Primeira Igreja Batista de Madri.

Notícia do labirinto espanhol (1)

Manuel López, MADRI, España, Setembro 8, 2006

Dez anos depois do 6. Congresso Evangélico Espanhol, realizado em Madri, em 1997, o 7. Taxi Heathrow Airport Congresso, agendado para fins de 2007, em Barcelona, prescinde do segundo adjetivo: denomina-se tão só "VII Congresso Evangélico".

O mutismo com que é introduzida essa inopinada mudança na denominação do acontecimento único da Igreja Protestante na Espanha deixa entrever duas leituras: uma, que na Espanha também existe um problema de identidade nacional no seio das igrejas, ou melhor, entre as lideranças das denominações evangélicas; e dois, que os organizadores do próximo Congresso, está claro, optaram por ceder à pressão do nacionalismo catalão, eliminando o adjetivo "estatal" da denominação do Congresso.

A essas duas leituras cabe destacar ainda uma terceira, e é, mais que segura, a que é colocada em questão por grande parte das cúpulas diretivas das entidades religiosas evangélicas espanholas, a respeito da própria expressão que acabamos de citar: "Igreja Protestante".

Lemas voluntariosos como o do Conselho Evangélico de Madri "Plurais nas formas, unidos na fé", sustentam-se apenas no âmbito das igrejas, majoritariamente congregações carismáticas e "evangelicais" de nova implantação, sem raízes históricas. Que a Reforma não está na moda fica claro na própria constituição do Comitê Organizador do 7. Congresso, no qual só um dos sete vogais pertence à denominação histórica de referência, a Igreja Evangélica Espanhola (IEE) - o outro "prêmio de consolação" é para a minoritária Igreja Espanhola Reformada Episcopal (IERE).

É bem verdade que compensa a designação da presidência do Congresso na União Evangélica Batista Espanhola (UEBE), na pessoa do advogado Pablo Simarro. Contudo, no Comitê Organizador não há nenhum teólogo, nenhum jovem, nenhum representante da imigração, como, tampouco, nenhum representante - homem ou mulher - do setor liberal. Com predomínio de cor fundamentalista no Comitê Organizador é, pois, como a Espanha Evangélica encara seu 7. Congresso desde 1919 e que será o primeiro do novo milênio.

Com essa "photo-finish" como referência, o labirinto evangélico espanhol perpetua seu estado de crise latente, que vem se arrastando desde os anos duros da ditadura franquista, concretamente 1967, quando uma lei de pseudo-liberdade religiosa, que não era nada mais do que de tolerância vigiada, pois estabelecia a inscrição das igrejas num registro especial com membros correspondentes listados, dividiu as igrejas entre “colaboracionistas" e opositoras. O fato de que essas últimas, as duas denominações históricas com raízes no século XIX, a IEE e a UEBE, ficarem em minoria, marca o ponto de inflexão da mudança de rumo da Espanha Protestante: cada vez mais distante da Reforma e mais próxima dos ideários fundamentalistas.

Diferentemente da França, onde convivem duas federações de igrejas, uma Protestante e outra Evangélica, ou da Itália, onde valdenses e batistas articulam, junto com a maioria de comunidades e grupos denominacionais, exceto pentecostais e carismáticos, a Federação de Igrejas Evangélicas, a Espanha ostenta a representação de todos numa só organização, a Federação de Entidades Evangélicas Religiosas da Espanha (FEREDE), criada pelas igrejas históricas há 50 anos, em 1956. O peso que reformados e batistas então exerciam foi-se diluindo sucessivamente, em favor primeiro dos pentecostalismos e, atualmente, do "rolo carismático".

A redefinição da própria identidade é, sem dúvida, a grande tarefa pendente da Igreja Protestante na Espanha... se fosse o caso de se falar de uma e não de duas igrejas. Porque a maioria das duas mil igrejas cristãs não-católicas existentes na Espanha identifica-se com o qualificativo de evangélicas em contraposição a protestantes. Obviamente, é o fruto do trabalho doutrinador das missões "evangelicais", antiecumênicas, dos Estados Unidos e também da Europa. Na velha pele de touro, que é a Espanha, ostentam por seu respeito.

A retomada ideológica da Aliança Evangélica Espanhola, entidade centenária até agora meramente de orientação doutrinal entre a liderança fundamentalista, não é nada alheia à dramática volta para posições ultraconservadoras. Pero vele, ai, que desta vez, a primeira na história, saia a palestra um meio crítico: o portal www.lupaprotestante.es, vinculado ao Ateneu Teológico, com sede em Castelldefels, Barcelona.

Acostumados a pontificar com a última palavra em todo debate divino ou humano - "Roma locuta, causa finita"-, agora, por fim, a direita religiosa evangélica na Espanha tem oposição nas próprias filas protestantes. Um bom momento para sondar o estado das coisas será o domingo, 17 de setembro, quando será lançado um programa religioso evangélico na Rádio Nacional da Espanha.

Fruto tardio dos Acordos com o Estado Espanhol, em 1992, doze anos depois de promulgada a Lei de Liberdade Religiosa da Democracia espanhola, em 1980, as televisões públicas já estão emitindo programas. São colóquios sem debate de desenvolvimento previsível, entrevistas adocicadas ou diretamente cultos evangelísticos.

Agora, 27 anos depois, apresenta-se como uma "conquista" o programa na rádio pública, e a boa fé que certifica a grande capacidade negociadora... do Governo do presidente Zapatero: será emitido na pior hora imaginável de toda a semana - às seis da manhã dos domingos.

Claro que as organizações de judeus e muçulmanos aceitaram igualmente tão peregrino horário de emissão. Queira ou não, na Espanha segue mandando a Igreja Católica. O governo não se atreve a enfrentar o episcopado e impulsionar o desenvolvimento da liberdade religiosa, que não é outro do que o de alcançar a paridade de tratamento para todas as crenças num Estado laico.

Assim, enquanto à confissão majoritária, a Igreja Católica, citada nominalmente na Constituição espanhola!, dá-se o grande "banquete", monopolizando financiamento estatal e privilégios sem conta, como na "longa noite de pedra" da ditadura franquista num Estado nacional-católico, os dirigentes das confissões minoritárias, com os protestantes na cabeça, parecem encantados de receber de vez em quando umas migalhas. Assim seja, nos domingos às seis da manhã.

(Continuará).