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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

María Newnum, é pedagoga, mestre em teologia prática, vice-presidente do Movimento Ecumênico de Maringá e Conselheira no Conselho Municipal da Mulher de Maringá.
María Newnum, é pedagoga, mestre em teologia prática, vice-presidente do Movimento Ecumênico de Maringá e Conselheira no Conselho Municipal da Mulher de Maringá.

Lugar de Mulher é na cozinha

Alberto Avila, MARINGÁ, Brasil, Agosto 11, 2006

Quase nunca há impedimento para que as mulheres executem o trabalho pesado, o trabalho de Taxi Heathrow Airport base. Não há qualquer incômodo em aceitar que elas realizem o que desejarem nas co-zinhas da vida; metidas entre as pane-las engorduradas e impregnadas pelos cheiros de cebola e gordura rançosa; cheiro peculiar das cozinhas.

Na verdade esse cheiro quando exa-lado de um corpo de mulher, significa para alguns e algumas que ela está no seu devido lugar. E muito embora al-gumas insistam em usar excelentes perfumes é comum que assistam a-quela movimentação de narizes que as rondam farejando freneticamente em sua volta, na tentativa de encon-trar o cheiro “original” de cebola e gordura velha.

Esse movimento de narizes farejado-res persegue as mulheres numa busca incessante em desqualificá-las de al-guma forma. Muitas nem percebem e até se iludem quando recebem um e-logio ou um reconhecimento público por algum mérito. Mas em muitos ca-sos, atrás do reconhecimento, há o re-al desejo de enfatizar que apesar dis-so, o cheiro de cebola continua lá, la-tente na alma feminina e que inde-pendente disso, seu lugar continua sendo a cozinha.

Com relação às mulheres pobres e iletradas muitas vezes não há qual-quer discrição e são vulgarmente acu-sadas de cheirar a “bacalhau velho”. Isso é chocante?  Sim, mas não adian-ta tapar o sol com a peneira, esse é um fato vergonhoso que cerca ainda hoje o universo feminino no Brasil.

Apesar dos homens bondosos e gran-des da sociedade, parece prevalecer esse consenso de uma maioria impie-dosa com as mulheres. Se assim não fosse, haveria muito mais mulheres fora das “cozinhas” da vida. Mas não há, elas continuam sendo minorias nos lugares de destaque da sociedade, incluindo o poder religioso, público e político do país, só para citar alguns exemplos. Ou será que são incapazes para essas funções? Claro que não. O problema é romper o “cheio de cozi-nha” e “bacalhau velho” imposto por certas espécies da sociedade.

O ranço fédito está na alma de alguns homens e infelizmente de muitas mu-lheres, já que é quase insignificante o número de mulheres que alcançam o espaço além-cozinha nas várias di-mensões da sociedade mesmo sendo as mulheres maioria no país e em muitas organizações sociais.  O que levanta um agravante: as mulheres são em grande parte as responsáveis pelo aprisionamento das outras e de si próprias nas cozinhas mal cheirosas da vida.

Ivone Gebara, em Poder e não-poder das mulheres p. 10, afirma que “em geral, a palavra poder como substan-tivo faz medo às mulheres pobres. [...] Dizer-lhes que, apesar de sua po-breza e situação, elas têm um certo poder parece ser para muitas uma forma de injúria ou de mentira. Ter poder parece estar misturado a tantas coisas ruins, que a gente sempre pre-fere dizer que não tem poder. Outros têm poder, não as mulheres pobres” e certamente as outras também.

A cada período eleitoral no país e nas organizações sociais, as mulheres têm a chance de exercer o seu poder de-mocrático através do voto nas mulhe-res, no entanto, é comum que elas continuem contribuindo para o ostra-cismo de suas pares deixando-as, pela força de um voto masculinizado, nas cozinhas do Brasil, nas igrejas e das diversas organizações.

Há aquelas que votam num homem só porque ele é bonitinho. Nem sabem que, na mai-oria das vezes, “o bonitinho”, não es-tá nem aí para construir casas, postos de saúde, escolas, ampliar o acesso ao emprego; não está nem aí para as coi-sas das mulheres. Ao contrário mui-tos deles apenas se interessam em construir túneis, viadutos ou estradas com os seus devidos nomes. Já viram alguma dessas construções com nome de mulher?

Apesar de tudo isso, as mulheres continuam votando nos bo-nitinhos e nos falastrões de terno e gravata como que se dissessem que eles nasceram para brilhar nos salões e as mulheres para viverem entre as panelas pegajosas.

Enquanto não houver plena consciên-cia desse dado por parte das mulhe-res, o slogan horroroso “lugar de mu-lher é na cozinha, esquentando a bar-riga no fogão e esfriando na pia”, continuará insuperável, apesar do es-forço de algumas e alguns.

É preciso acreditar: A cozinha não nos pertence mais.

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Maria Newnum é pedagoga, mestre em teologia prática, vice-presidente do Movimento Ecumênico de Marin-gá e Conselheira no Conselho Muni-cipal da Mulher de Maringá. Para comentar ou ler outros artigos acesse: https://br.groups.yahoo.com/group/LittleThinks/
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