
De olho no palheiro nem tão distante
Alfonso Wieland, LIMA, Perú, Julho 17, 2006
Convive conosco. Pode estar assentada comodamente entre pessoas de excelente reputação pública, religiosos devotos, políticos Taxi Heathrow Airport destacados, empresários de sucesso, pais de família honestos, combativos funcionários de Organizações Não-Governamentais. Seu nome e sobrenome: violência contra a mulher.
Uma boa educação ou uma desenvolvida sensibilidade pelos pobres, por exemplo, não vacinam ninguém de uma atitude violenta contra a mulher.
Em 1984, em Minnesota (USA), Lucille Tisland, uma devota cristã de 31 anos, mãe de cinco filhos, disparou e matou o marido, Robert Tisland, um clérigo batista. Diante de um corpo de jurados atônito, Lucille explicou com todos os detalhes como tinha sido a sua vida "Ele esperava perfeição de todos nós. Maltratava com regularidade a mim e os nossos filhos, inclusive o Mark, de apenas sete anos de idade, que, além de tudo, era deficiente físico.
Finalmente, meu filho morreu. Nesse dia, meu marido proibiu-me, com golpes, de derramar uma lágrima por ele. De volta do funeral, continuou maltratando-me".
Segundo Lucille, as surras começaram dez meses depois do casamento. Ela dedicava-se a limpar, cozinhar, lavar-lhe a roupa, lustrar-lhe os sapatos, banhá-lo. Se algo que cozinhava não agradava a Robert, simplesmente a atirava no chão. Ela só podia dirigir-se a ele como "senhor" ou como "pastor". Por que Lucy nunca o denunciou? Ela acreditava firmemente na submissão da mulher, no papel de serviço total ao homem que supostamente a Bíblia lhe exigia. "Além disso, sentia por Robert um sentimento mesclado de amor e terror", disse.
Casos iguais ou mais dramáticos ocorrem continuamente no Peru. Poucos anos atrás, o ditador Alberto Fujimori fechava as portas da habitação de sua esposa, impedindo-a de sair do Palácio do Governo. O maltrato físico e psicológico ao qual Susana Higushi foi submetida não recebeu sanção até hoje.
Na semana passada, Dennis Falvy, um reputado economista conhecido por sua defesa cerrada pela transparência na economia e pelos direitos dos consumidores, foi denunciado pelas aterradoras ameaças que lançava contra sua ex-esposa e filho.
Nessa mesma semana, foi desvelado que o advogado John Nalvarte, um conhecido ativista dos direitos humanos de Huánuco, tentara violentar uma jovem que trabalhava na ONG AJUPRODH. Soube-se, depois, que esta não tinha sido a primeira vez: pelo menos duas de suas trabalhadora foram atormentadas sexualmente. A Coordenadora Nacional de Direitos Humanos, num ato sem precedente, decidiu excluir a AJUPRODH de sua membresia porque sus diretores, longe de esclarecer e punir Nalvarte, encobriram os fatos.
Se para os homens falar de maltrato e abuso contra as mulheres continua sendo difícil, muito mais é olhar dentro das nossas próprias casas. Quem pode dizer que não teve ou conheceu algum caso muito próximo de violência ou abuso sexual contra uma mulher?
O medo sempre foi usado para controlar as pessoas. Por trás do abuso existe uma intencionada forma de exercício do poder, que busca o domínio, o avassalamento de outro ser humano, uma equivocada e perversa maneira de relacionar-se com uma pessoa que se encontra em condições de desvantagem, seja afetiva, física e inclusive espiritual.
Abusa não só quem rompe a liberdade sexual de uma mulher, mas também quem denigre sistematicamente a auto-estima e inteligência dela, ou nela infunde temor permanente, ou usa a grosseira chantagem de relações sexuais por segurança no trabalho, etc. A lista pode ser interminável.
O abuso contra a mulher está sendo negado, no melhor dos casos, subestimado pela sociedade. Mas não podemos deixar de ver a palha, uma paja que se converteu em grosso tronco e se enquistou no meio de nós. Dizer que isso acontece a qualquer um não é desculpa para passar de largo maus tratos e abusos que ocorrem com pessoas próximas a nós.
Deve-se iniciar uma mudança radical em nossas comunidades, primeiro admitindo que o câncer do abuso e da violência contra a mulher existe em nossas casas, postos de trabalho, igrejas, instituições, escolas, etc., e, depois, realizando ações concretas de justiça, restauração e amor pelas vítimas.
Além disso, é preciso trabalhar com o infrator. Sabe-se que uma percentagem importante de agressores, em algum momento da infância ou juventude, também foi abusada ou testemunhou cenas de maus tratos em suas progenitoras.
O abuso e a violência contra a mulher não são mais um tema restrito ao âmbito privado. É parte da agenda pública do país, da construção de uma sociedade democrática, onde o medo não domine as relações entre mulher e homem. Nesse propósito é preciso conjugar a vontade das autoridades, das instituições civis, das igrejas e, sobretudo, da coletividade em seu conjunto.
------
Alfonso Wieland, Diretor Nacional da Associação PAZ E ESPERANÇA.

Portada
Início
Comenta este artigo