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Domingo, 21 de Novembro de 2004

Documento do CMI acaba com o mito da superioridade branca

GENEBRA, Suiza, Agosto 28, 2002

Convencidos de que “o racismo em suas formas mais perniciosas persiste nas sociedades contemporâneas e ainda afeta dramaticamente as igrejas”, o Comitê Central do Conselho Mundial de Igrejas (CMI) dedicou sessão plenária para debater o tema. Relatório do organismo mostra que as tendências sociais, políticas e econômicas do mundo estão produzindo novas expressões de racismo. O documento acaba com o mito da superioridade branca.

Stan McKay, ex-moderador da Igreja Unida do Canadá, referiu-se ao caso de crianças indígenas que eram arrancadas de seus lares e levados a colégios internos, onde recebiam instrução em inglês. A Igreja Unida do Canadá pensou que receber o evangelho significava adotar a cultura européia ocidental e assim tratou de impô-lo aos indígenas canadenses. Foi por isso que surgiram as escolas-internato, que, além de produzirem um impacto cultural, foram palco de diversos abusos físicos, emocionais e até mesmo sexuais.

Essa visão mudou nos anos 70 do século passado. Hoje, assiste-se a um processo de reconciliação entre a igreja e os povos indígenas. Esse processo apresenta três etapas: dizer a verdade, expressar pesar e arrependimento, e buscar a direção do Espírito Santo. Naboth Muchopa, do Zimbabwe, atual secretário para o setor de Justiça Racial da Igreja Metodista da Grã-Bretanha, mencionou a discriminação racial que negros em diferentes partes do mundo são vítimas.

Em todo o mundo, disse, condena-se o racismo como pecado, mas subsiste, evidentemente, o problema da humilhação. Aberta ou de forma solapada, na Europa nega-se o acesso de pobres migrantes ao trabalho e à vida digna, exemplificou.

O documento de estudo do CMI lamenta que o compromisso das igrejas contra o racismo parecer ter-se limitado à luta contra o apartheid na África do Sul, mas elas não o encaram em suas próprias vidas e sociedades, e sequer estão atentas a outras formas de discriminação, especialmente contra os povos indígenas, arrola o texto.

O informe conclama as igrejas para que lutem por justiça transformadora, em lugar de uma simples justiça restauradora, porque séculos de racismo, discriminação e sexismo não podem ser apagados e restaurados, mas precisam ser transformados pela renovação das mentes.

Outro caso refere-se às relações entre a Igreja Reformada da Noruega e os ciganos do país. Na Noruega existem cerca de 20 mil ciganos, que ali vivem há 500 anos. Até fins do século XX, o país seguiu uma política de assimilação. Essa política determinava o afastamento das crianças ciganas de seus pais. Elas foram levadas a escolas, muitas das quais eram administradas pela igreja. A Missão Norueguesa foi acusada, inclusive, de esterilizar mulheres ciganas.

Em 1998, o Sínodo Geral da Igreja da Noruega declarou: “Temos um pecado e uma vergonha que não podemos continuar suportando. Portanto, pedimos em nome de nossa igreja: Perdoem nosso pecado”. Ela deu início, então, a um período de restauração e reconciliação que está avançando.

Nos Estados Unidos, a Igreja Metodista Unida não apenas pediu perdão aos povos indígenas por ter encarado a cristianização como se fosse a “ocidentalização”, mas também pelas práticas racistas com que conduziu a criação das congregações negras.

Embora pouca coisa tenha mudado nos Estados Unidos a respeito das instituições sociais, econômicas e políticas relacionadas ao racismo, diz o relatório do CMI, a experiência da Igreja Metodista Unida pode ser importante para outras igrejas que se confrontam com desafios similares.

O documento recomenda, por fim, que o mito da superioridade branca seja desterrado, que as igrejas entendam que embora não estejam pessoalmente envolvidas nos erros do passado, elas seguem ligadas ao legado e culpa de suas sociedades. Adverte que é preciso estar alerta diante da nova onda de evangelização entre os povos indígenas.

O que faltou no Documento foi abordar a situação de descriminação vivenciada nas Igrejas evangélicas no Brasil, deste a vinda das Igrejas Históricas predominantes do Sul racista dos Estados Unidos, em seguida pela herança fundamentalista dos Pentecostais, e recentemente com o surgimento dos neopentecostais com a versão neoliberal do evangelho com suas doutrinas da prosperidade, das maldiçoes hereditárias, e da batalha espiritual.


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