Manifestações religiosas na arena verde
Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Junho 23, 2006
Assim que o juiz Markus Merk apitou o final da partida entre Gana 2 Estados Taxi Heathrow Airport Unidos 1, disputada ontem no Franken Stadion, em Nüremberg, pela Copa do Mundo, dois jogadores da equipe africana, que a televisão alemã não identificou pelos nomes, ajoelharam-se num canto do campo e agradeceram a classificação para as oitavas de final.
Na próxima etapa do Mundial, a seleção da República de Gana vai enfrentar o Brasil, na terça-feira, 27. Dos 23 jogadores convocados pelo técnico Carlos Alberto Parreira, da seleção brasileira, seis integram a organização Atletas de Cristo – Dida, Lúcio, Zé Roberto, Gilberto, Mineiro e Kaká. Pelas manifestações públicas desses jogadores, talvez o Brasil possa ser considerado o mais religioso dos times de futebol na Copa da Alemanha.
Mas sem uma pesquisa mais detalhada das outras seleções, o doutor em Ciências Sociais e Religião pela Universidade Metodista de São Paulo, Reinaldo Olecio Aguiar, acha difícil apontar qual a seleção que mais conta no seu time com atletas que manifestam algum vínculo religioso.
Aguiar escreveu sua tese de doutorado sobre “Religião e esportes: os atletas religiosos e a religião dos atletas”. Em entrevista para o Instituto Humanitas (IHU), da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Aguiar faz uma distinção entre os atletas religiosos, como os Atletas de Cristo, e os outros que também professam uma religião, mas que não expressam essa pertença publicamente.
Assim, ao lado dos Atletas de Cristo, disse Aguiar, a seleção brasileira com certeza também abriga católicos, espíritas, adeptos de religiões afro e mesmo os sem-religião. Independente da opção religiosa de cada jogador, Aguiar entende que seria uma temeridade esperar “uma uniformidade religiosa e um verdadeiro retrocesso impor qualquer religião ao outro”.
Na entrevista, o pesquisador lembrou a mudança verificada no mundo evangélico quanto à prática esportiva. Até os anos 60 do século passado, atletas que se convertiam ao evangelismo eram incentivados a romper com os hábitos anteriores à conversão, inclusive a abandonar o esporte, visto então como uma atividade para quem não queria trabalhar.
Foi o que aconteceu com o jogador de futebol João Batista Ribeiro Neto, o Maracaí, do Fluminense, do Rio, e depois do Corinthians Paulista, nos idos de 1940. Ao se converter ao protestantismo e decidir estudar Teologia no Seminário Teológico de Londrina (ISBL), ele destruiu todas as fotografias e recortes de jornais que reportavam sua carreira no futebol.
Mais tarde, Maracaí se disse arrependido de ter rasgado a memória da carreira futebolística. Na análise de Aguiar ao IHU, o protestantismo mudou, “diluindo-se em denominações eticamente menos exigentes, seja porque o esporte se tornou uma profissão respeitada e uma forma de ascensão social cada vez mais buscada”.
Depois de Gana e Brasil, com toda a certeza alguns jogadores vão se reunir num canto do campo e agradecer a classificação. A diferença estará apenas na cor da camiseta: ou serão atletas vestindo vermelho, ou amarelo.

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