
O globo e a bola
Oneide Bobsin, SAO LEOPOLDO, Brasil, Junho 22, 2006
Organizadores da Copa do Mundo ufanam-se dizendo que o futebol é capaz de conectar bilhões de pessoas, formando uma comunhão universal que aproxima nações, raças e etnias. Destacam que tal “ecumenismo” planetário é favorecido pelos modernos meios de comunicação, que reduzem distâncias e fazem o globo terrestre ficar do tamanho da bola que corre nos gramados.
Independente de cifras, cabe perguntar se a atração exercida pelo futebol não vai além dos interesses poderosos da mídia internacional, que aguça o desejo dos consumidores e as razões do próprio futebol? Não estaria o futebol em escala planetária revelando algumas características da alma do nosso globo? Se partíssemos uma bola exatamente ao meio, teríamos as dimensões de um paradoxo: competição e solidariedade.
Mais do que um símbolo que reúne lados contraditórios, estudiosos do comportamento humano coletivo falam que há uma relação entre esporte, religião e magia. Os estádios seriam catedrais onde se vive o êxtase num espaço profano em busca de glória?
Repórteres brasileiros que cobriram a chegada da seleção brasileira e de outras no aeroporto de Frankfurt, na Alemanha, mostravam semideuses vindo do espaço, os quais, ao pisar no solo alemão, transubstanciavam-no em sagrado. Frente ao hotel onde os atletas se hospedavam, fãs e repórteres ficavam espiando possíveis movimentos dos semideuses. Um jovem exaltou-se quando, de relance, viu o ombro de um jogador. Nos treinos, cada detalhe irrelevante para a vida dos comuns mortais merecia grandes espaços na mídia. Milhares de fãs queriam se aproximar dessas vedetes. Se uma peça de roupa caísse no chão, certamente viraria um fetiche.
Como vemos, esse futebol funciona um pouco como religião e muito como magia. Como os jogadores brasileiros, os de outras seleções de países católicos entram em campo persignando-se e com o pé direito, como parte de gestos mágicos que evitam o azar. Além disso, a vitória não depende apenas dos fortes treinos físicos, que mais parecem sacrifícios de corpos, mas de forças incontroláveis do destino. Os jogadores e os fãs trazem em seus corpos medalhas que evitam o azar, certamente ungidas em ritos.
Num dos jornais televisivos, que denuncia seguidamente a corrupção de pastores e bispos neopentecostais, um pastor evangélico é apresentado como orientador espiritual de oito jogadores da seleção brasileira. Ele trocou o fracasso nos gramados pela vitória nos templos evangélicos, condição para ser contratado por um dos jogadores para acompanhá-los na Alemanha.
Na mesma edição, uma repórter mostra galos e galinhas que serão sacrificados em templos afro-brasileiros para abrir os caminhos para o hexacampeonato. E o comentarista em economia arrematou ironicamente: se rituais trouxessem sorte, alguns times não estariam rebaixados à terceira divisão.
Contudo, tais práticas mágicas não são próprias do Brasil. Em outros contextos latino-americanos fotos de jogadores adversários são cortadas por feiticeiros, deixando os atletas sem cabeça.
Mesmo que torcedores fiéis estejam diante da TV, um verdadeiro altar doméstico, à espera de um milagre, as regras competitivas anularão ritos e orações, pois a concorrência eliminará 31 das 32 seleções, revelando assim o lado trágico de nossa globalização: a glória pertence a poucos. A competição vencerá a solidariedade. Como no capitalismo global, já sabemos o resultado: de um lado, a maioria eliminada e, de outro, um vencedor glorioso.
Como estamos diante de um paradoxo, há um outro lado a celebrar. No campo, as regras mostram que o indivíduo só pode se sobressair se jogar em equipe. Ganhamos coletivamente, se perdermos individualmente.
Ou, como disse Jesus, quem quiser ganhar a sua vida, vai perdê-la, e quem a perder vai ganhá-la. (Lucas 17.33)
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Oneide Bobsin. Pastor da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil e professor de Ciências das Religiões da Escola Superior de Teologia de São Leopoldo/RS/Brasil.
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