
Pobres de nós
Manuel López, MADRI, España, Junho 17, 2006
Os setores duros da ultradireita cristã não perdem ocasião de desqualificá-los como "heróis dos meios Taxi Heathrow Airport tons", mas, convenhamos, o que conta é a opinião da humanidade sofredora do Terceiro Mundo, especialmente da África, o continente mais subdesenvolvido.
A África vê uma luz no fim do túnel em iniciativas como a "Campanha Um" – o destino de 1% do orçamento dos países do mundo rico - impulsionada por Paul Hewson, mais conhecido como Bono, o líder da banda U2.
Há também os programas de ajuda ao combate à AIDS promovidos pelo proprietário da Microsoft, Bill Gates - 900 milhões de dólares para o ano em curso. Ou no plano de cinco pontos “PEACE", do celebrado autor de "Uma vida com propósito", Rick Warren, do qual a sigla A refere-se à assistência aos pobres e o C a cuidado aos enfermos (as outras três letras nos referiremos em outra ocasião).
Três personagens arquifamosos: um pastor de sucesso, Warren, um cristão sem igreja, Bono, e um agnóstico, Gates, comprometidos na luta contra a pandemia do nosso tempo. Ativistas como eles em prol do acesso da humanidade pobre às condições de saúde não são, certamente, "heróis dos meios tons" à luz do Evangelho, e sim os surpreendidos "benditos do meu Pai" (Mateus 25), "porque tive fome e me destes de comer... fui forasteiro e me recebestes... estive enfermo e me visitastes..." Os pobres de nós são... Jesus de Nazaré.
Na recente cúpula do Fórum Econômico Mundial em Davos, Suíça, Bono ilustrou com toda a crueza a flagrante injustiça contra o mundo pobre ao recordar que a política de subsídios agrícolas no Ocidente, que paga para cada vaca européia o equivalente a dois dólares por dia, poderia motivar os africanos que vivem com menos de um dólar por dia a desejarem ser vacas ao invés de pessoas.
A agenda de assuntos "terrenos", como é a "despenalização do pão" (Saramago), está cada vez menos ausente nos programas das igrejas. Cito só um caso recente, ao qual a imprensa não ofereceu a difusão merecida: no último dia 10 de abril, por proposição do presidente dos Estados Unidos, Jimmy Carter, cerca de 20 líderes de diversas convenções batistas norte-americanas, que representam mais de 20 milhões de crentes, assinaram documento que fará história.
"Comprometemo-nos como cristãos", assinam os firmantes, "a promover a paz com justiça, a dar de comer aos famintos, a vestir os desnudos, a dar abrigo aos sem teto, curar os enfermos e marginalizados, a acolher os estrangeiros e a promover a liberdade religiosa e o respeito à diversidade".
Paralelo ao pão e saúde passa necessariamente a liberdade. "Desmantelar Guantánamo imediatamente", acaba de pedir Bob Edgar, secretário geral do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs dos Estados Unidos (NCCCUSA) à secretária de Estado, Condolezza Rice. Farto de solicitar visitas ao centro de detenções com uma delegação inter-religiosa para poder "comprovar as condições físicas, mentais e espirituais dos detentos", Edgar denuncia, abertamente, o "sórdido histórico de negação dos direitos humanos e o crime contra a humanidade" que está sendo perpetrado em Guantánamo.
Nesse sentido, acrescente-se ao Manifesto que uma série de líderes religiosos cristãos, judeus e muçulmanos publicaram, na última terça-feira, 13 de junho, no "The New York Times", nota na qual exigem do governo Bush o "fim da tortura, seja direta ou exercida através de terceiros, dentro e fora do nosso território".
Dentre os que assinam essa nova iniciativa denominada "Campanha nacional religiosa contra a tortura" estão o ex-presidente dos Estados Unidos e Prêmio Nobel da Paz, Jimmy Carter, o Prêmio Nobel de Literatura, Elie Wiesel, o arcebispo grego ortodoxo Demetrios, o cardeal arcebispo católico de Washington, Theodore McCormick, o pastor e presidente da Associação Nacional Evangelical, Ted Haggard, e o diretor nacional da Sociedade Islâmica da América, Sayyid Syedd, junto com o pastor Bob Edgar.
"Desejo que a luta contra a pobreza se converta num tema 'qualificante' para as igrejas", declarou em entrevista para a "Notizie Evangeliche" (NEV) a presidenta da União Batista da Itália, Anna Maffei, por motivo da próxima assembléia geral da "União Cristã Evangélica Battista d'Itália" (UCEBI), que será realizada em Asís, dias 22 a 25 de junho. A pobreza na era da globalização não estará ausente da agenda desta convocação interna dos batistas italianos, prévia à Quarta Assembléia-Sínodo das Igrejas Batistas, Metodistas e Valdenses, agendada para 2007, em Roma.
À margem da valorização desta nova e esperançosa plataforma ecumênica em si, algo que nos propomos a abordar num próximo artigo, uma coisa a dirigente batista italiana tem claro: o tema da globalização como uma batalha da nossa época, que demanda a implicação urgente das igrejas, chamadas a se baterem com determinação pela justiça e contra a guerra, ao lado dos povos pobres do sul do mundo.
"É óbvio", sustenta Maffei, "que este debate paralelo saltará à baila na assembléia conjunta de Roma e meu desejo é que a luta contra a pobreza, em todas as suas formas, converta-se num tema 'qualificante' para nossas igrejas e, porque não, para todo o protestantismo italiano".
Boa notícia para os pobres é também a inclusão de um apartado "material" destinado a apresentar a obra social evangélica nas Américas e Espanha no "mega evento" com Luis Palau, no México, em 2007, sobre o qual informava recentemente ALC Notícias. "Não só de pão vive o homem", já se sabe. A mensagem espiritual não se discute, faltaria mais. Mas o primeiro, primeiro: o pão.

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