Semana Wesleyana 2006 estuda uma "Teologia Wesleyana no Caminho"
SÂO PAULO, Brasil, Junho 13, 2006
Uma leitura contemporânea da teologia produzida por John Wesley no século XVIII, a partir da Taxi Heathrow Airport metáfora do "caminho" foi o tom das reflexões apresentadas na 55ª Semana Wesleyana, tradicional evento promovido pela FaTeo voltado para os estudos wesleyanos. Organizada pelo Centro de Estudos Wesleyanos da FaTeo (CEW), e realizada de 22 a 26 de maio, a Semana Wesleyana 2006 não foi centrada na apresentação de um conferencista especialmente convidado. Desta vez, a metodologia definida foi a de um amplo painel, com reflexões apresentadas pelos professores da FaTeo que compõem o CEW, mais a contribuição do professor estadunidense em intercâmbio Dennis Dickerson e de pesquisadores/as de temas relacionados ao metodismo brasileiro.
Teologia no Caminho
A semana foi aberta com culto especial com mensagem proferida pelo bispo metodista assistente do Colégio Episcopal na FaTeo Josué Adam Lazier. Foi o primeiro grande evento da FaTeo realizado nas dependências do Edifício Ômega, com utilização plena do novo anfiteatro, que tem capacidade para 300 lugares.
A primeira conferência foi apresentada pelo reitor da FaTeo e coordenador do CEW prof. Rui Josgrilberg, que expôs o sentido da metáfora do "caminho" que se relaciona à forma como John Wesley compreendeu a teologia.
Para Wesley, teologia e prática se vinculavam pois o caminho da vida, com Cristo, é o que dava substância à sua teologia, que por sua vez, só adquiria sentido ao ser aplicada à vida.
Para o prof. Rui, isto se refletia na teologia wesleyana na forma do conhecer a si mesmo, conhecer os outros, conhecer a sociedade e conhecer Deus. A Teologia do Caminho é aquela que se contrapõe à "Teologia da Sacada" (da contemplação e da observação) pois ela chama a um caminhar na vida, a estar junto da comunidade no fazer teológico.
Na segunda conferência, o professor da Universidade de Vanderbuilt, pastor e líder da Igreja Metodista Episcopal Africana Dennis Dickerson, apresentou noções da teologia wesleyana no contexto afro-americano e indicou como as igrejas negras de tradição metodista tornaram-se dissidentes da igreja majoritariamente branca em nome de uma fidelidade aos ideais wesleyanos de responsabilidade social.
"Graça e salvação na teologia wesleyana" foi o tema de duas conferências apresentadas pelos professores Helmut Renders e Claudio Ribeiro. A dimensão da graça como caminho e da salvação como caminho em construção para a plenitude do Reino de Deus foi o tema central das duas apresentações. Os professores enfatizaram o fato de o tema da salvação no wesleyanismo desprezar a dimensão individualista e demarcar a importância da salvação pessoal aliada à salvação coletiva - da Nova Criação, a redenção de toda a Terra - como realização da vontade de Deus.
O Espírito Santo foi o tema da quinta conferência, apresentada pelo prof. Paulo Ayres Mattos. Tema teológico que é fundamental na compreensão do movimento pentecostal, herdeiro do metodismo, a pneumatologia na perspectiva wesleyana foi base para a conclusão de que o movimento pentecostal que chegou ao Brasil, e os movimentos de avivamento dele decorrentes, não são portadores da tradição wesleyana.
Já o prof. José Carlos de Souza refletiu sobre o tema da eclesiologia missionária e indicou a necessidade de recuperação da dimensão wesleyana que vê a igreja como "laboratório do Reino de Deus" e não como túmulo de Deus. Na linha das demais reflexões sobre "o caminho", o professor destacou que o que marca o aprendizado em Wesley é que é impossível fazer teologia à parte da vida e da missão da comunidade cristã.
A singularidade da Semana Wesleyana 2006 foi o trabalho dos grupos de aprofundamento. Ao invés de participarem dos tradicionais momentos de perguntas aos conferencistas, os participantes foram distribuídos em cinco diferentes grupos que se reuniam após cada exposição, para aprofundar a temática desenvolvida, orientados/as por um/a coordenador/a, acompanhado/a de um relator/a, que registrou o conteúdo trabalhado.
A reflexão final da Semana Wesleyana foi uma síntese dos temas desenvolvidos nos grupos, apresentada pelo prof. Paulo Ayres Mattos. Entre os desafios que ele apresentou para a construção de uma teologia wesleyana brasileira estão:
(1) a questão do método do caminho - discutir a vida tal como ela é e buscar a reflexão nos elementos do cotidiano, na cultura; ver Cristo no Brasil na face dos/as irmãos/ãs brasileiros/as (o Cristo dos descaminhos do Brasil);
(2) a questão da teologia na prática ou a teologia da dimensão pública do Evangelho - a teologia do caminho é sempre uma teologia por fazer, porque Deus caminha pelos caminhos da vida; esta é uma postura em contraposição à espiritualidade do deserto, do monte, da separação, que é a tentação da teologia em função da auto-preservação institucional, desvinculada da vida, como obra acabada;
(3) a questão escatológica em Wesley: para ele há um Reino da Graça (o já, o agora, aqui) e um Reino da Glória (o ainda não, o porvir) - a Igreja sempre deseja o Reino da Glória e não leva em conta o Reino da Graça, ou seja, que Deus age aqui e agora;
(4) a questão movimento vs. instituição - há tendências hoje de tornar a Igreja sectária, o que se relaciona à preservação da instituição; a igreja deve ser vista como meio de graça, à luz do wesleyanismo, presença (sinal) da graça no mundo, por isso não pode ser sectária nem aprisionar Deus.
Valor à história
As Oficinas de História foram outra novidade da Semana Wesleyana, e representaram a oportunidade a pesquisadores de temas relacionados ao metodismo brasileiro para partilha de suas reflexões. Foram três oficinas sobre três personagens marcantes para a Igreja Metodista no Brasil e na América Latina: "Sante Uberto Barbieri", com o prof. Luis de Souza Cardoso (IEP); "Guaraci Silveira", com o prof. Cilas Ferraz (UNIMEP); "Otília Chaves", com a profa. Margarida Ribeiro (FaTeo).
Ainda nas Oficinas de História, houve oportunidade para uma apresentação sobre os 100 anos do Instituto Metodista Central do Povo (ICP), a primeira instituição de serviço social do País, localizada na região da primeira favela do Brasil, o Morro da Gamboa, no Rio de Janeiro.
O pastor metodista na igreja vinculada ao ICP Wilson Aparecido Pereira apresentou um vídeo que conta a história da instituição e o recente livro elaborado pela missionária diaconisa metodista Anita Betts Way (foto ao lado), que atua há vários anos nela, “Instituto Central do Povo - 100 anos em missão".
Ficou demarcado que a ICP tem uma história de pioneirismo na valorização do ser humano integral, à luz da perspectiva wesleyana da responsabilidade social: ali nasceram projetos pioneiros no Brasil que serviram de modelo de assistência social, como o primeiro jardim de infância, o primeiro posto de saúde, o primeiro posto de atendimento e educação de pessoas portadoras de deficiência, a primeira área pública de lazer infantil, os primeiros cursos profissionalizantes.
Feira do Livro e lançamentos da Editeo
A Semana Wesleyana 2006 deu continuidade ao processo de facilitar o acesso dos/as participantes a obras de estudos teológicos e promoveu a 5ª Feira Metodista do Livro com a participação de oito editoras que colocaram à venda, no espaço aberto do Edifício Ômega, livros com descontos especiais.
A Editeo, editora da FaTeo, promoveu o lançamento de quatro novas obras: a segunda edição de dois importantes livros que trabalham a história e a teologia wesleyanas Viver a Graça de Deus. Um compêndio de teologia wesleyana, de Walter Klaiber e Manfred Marquart e Wesley e o povo chamado metodista, de Richard Heitzenheiter; o número 17 da Revista Caminhando e o número 36 da revista Mosaico Apoio Pastoral.

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