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Segunda-feira, 30 de Setembro de 2002

Naturismo atrai evangélicos, que até evangelizam em pelo nas praias

SÂO PAULO, Brasil, Agosto 27, 2002

Há até bem pouco tempo, crente de fibra era reconhecido pela maneira de se vestir, Taxi Heathrow Airport ele de terno e gravata, ela de vestido ou saia longa. Além de quebrar outras marcas características, como a aversão à política, à TV e aos produtos de beleza, hoje já é possível encontrar em praias brasileiras crentes adeptos do "naturismo gospel". São os naturistas evangélicos, homens e mulheres, que preferem, no seu tempo de lazer e na orla, passear pela praia assim como vieram ao mundo: pelados.

 "Ficar nu não é pecado", sustenta Ivana Sheila, dirigente da Sonata, a sociedade dos naturistas da praia de Tambaba, em João Pessoa, Paraíba. "Ali, a mistura entre nudismo e fé evangélica é levada a sério", relata o repórter Marcelo Santos, na matéria "Nus com a mão na Bíblia", publicada na revista Eclésia de agosto. Como em todas as praias destinadas ao nudismo, Tambaba segue rígidas normas de conduta.

Ivana e seu marido, Nelci Rones, nasceram em lares evangélicos e se confessam convertidos. Rones queixa-se do preconceito com que são encarados pelos irmãos. "O naturismo, praticado na sua íntegra, não possui nada que contraria os princípios bíblicos. Nada aqui fere o Senhor, pois tudo é praticado com absoluta ingenuidade e pureza. Só quem tem olhos maldosos consegue ver maldade na nudez", argumenta.

O arquiteto Estevão Prestes, 30 anos, freqüenta a Praia do Pinho, nas proximidades de Balneário Camboriu, em Santa Catarina, onde gosta de ler a Bíblia ao sabor do vento e orar totalmente despido. Ele é adepto do naturismo desde 1999. Pela sua opção, acabou expulso da Igreja do Evangelho Quadrangular, na qual foi comparado aos demônios. Hoje, freqüenta a Igreja Presbiteriana.

"Todo naturista sabe que a malícia não está na pele que mostra, mas na mente de quem vê", sustenta. O casal César e Valdinéia Moraes, de Santa Cruz do Rio Pardo, São Paulo, membro da Igreja Presbiteriana Independente, freqüenta um point naturista, a Estância Ramanat, em Belo Horizonte, na companhia dos filhos de sete e quatro anos.

Sempre que pode, o naturista evangélico Carlos Antônio de Morais, ex-membro da Igreja Batista, evangeliza na praia... completamente nu. Ele é conhecido em Tambaba como o pastor do grupo. "As pessoas acham estranho eu falar da Bíblia pelado", relatou ao repórter Marcelo Santos, para lembrar, em seguida, que o primeiro casal da humanidade - Adão e Eva - passeavam nus pelo paraíso e não sentiam vergonha.

"Não se pode mais voltar ao Éden porque o coração do homem não é mais o mesmo e nunca, até a volta de Jesus, será", retrucou  para a "Eclésia" o pastor Ebenézer Ferreira Silva, da Igreja Batista Novo Horizonte, de Linhares, no Espírito Santo. Ele foi um dos que se pronunciou contra a recepção de naturalistas, em 1993, na Praia de Barra Seca, próximo à cidade.

O naturismo "é totalmente incompatível com a ideologia cristã", define. Também o presidente da Associação de Pastores de Linhares, Jozias Maciel Afonso, condena a prática. "A minha Bíblia diz que o cristão deve se portar com modéstia e decência. As praias de nudismo atentam contra o pudor", assinala. Para ele, houve um crescimento desordenado, sem critérios, do setor evangélico no país, gerando uma crise. Hoje, "ser crente virou moda", lamenta.

"Nos dias atuais, muitas pessoas têm trazido idéias que não vêm de Deus, inclusive para dentro das igrejas. São tentativas de relativizar a santidade", sentencia o pastor Kenji Kikuchi, líder da Comunidade Cristã da Barra da Tijuca, no Rio. Ele recorre ao apóstolo Paulo - "tudo me é lícito, porém nem tudo me convém" - para deduzir  que "o nudismo não convém aos evangélicos".

Segundo a Federação Brasileira de Naturismo, existem no país seis praias oficiais, reconhecidas por lei, e um número não conhecido de praias não-oficiais, que abrigam os 250 mil naturistas espalhados pelo país. A Federação não sabe precisar, no entanto, o número de naturistas evangélicos existentes.

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