Os evangélicos e a crise argentina
Dafne Sabanes, BUENOS AIRES, Argentina, Maio 6, 2002
A grave crise política, econômica e social que se abateu sobre a Argentina em dezembro Taxi Heathrow Airport de 2001 não encontrou os evangélicos desacordados. Já na manifestação de massa realizada em setembro do ano passado, em pleno centro da cidade de Buenos Aires, convocado pelo Conselho Nacional Cristão Evangélico (CNCE), os evangélicos manifestaram sua opinião com toda clareza.
Na declaração lida na ocasião os evangélicos assinalaram, com palavras duras, que no país "segue-se sacrificando crianças e anciãos, futuro e esperança, no altar do ídolo insaciável do dinheiro e da usura. As conseqüências desse pecado estão à vista: uma sociedade na qual se multiplicam pobres e excluídos".
Quando os protestos invadiram as ruas e as rodovias do país em dezembro e provocaram a queda do governo da Aliança e mais tarde uma nova mudança de autoridades, os representantes evangélicos do CNCE emitiram declaração conjunta com a Conferência Episcopal da Igreja Católica Argentina por ocasião do Natal. Esse foi um fato sem precedentes na história eclesial do país.
Os evangélicos também responderam à convocatória realizada pelo governo, Igreja Católica e Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) sobre participação no Diálogo Nacional, com o propósito de encontrar alternativas para superar a grave crise pela qual o país atravessa. Com uma postura crítica, os evangélicos deram sua contribuição nesta mesa de diálogo. Mas a participação não ficou só no âmbito das autoridades das igrejas.
A partir das bases, os fiéis comprometeram-se de diferentes maneiras de ajudar os mais necessitados. Participaram dos protestos condenando a corrupção no governo e na sociedade, acorreram às assembléias de bairro e contribuíram aos esforços que se levaram a cabo em muitos templos e paróquias para acompanhar e sustentar pessoas e famílias em crise, atingidas pelo desemprego e a falta de recursos para subsistir.
Em março, um grande grupo de pastores e leigos ativos em suas respectivas igrejas acataram a convocatória da Fundação Kairós, de Buenos Aires, para participar do Fórum Social Evangélico. Abriu-se, assim, uma instância de participação interdenominacional capaz de contribuir com sua reflexão ao Diálogo Nacional e também mobilizar os fiéis evangélicos para trabalhar por câmbios estruturais de fundo.
O documento final do fórum também demanda "medidas ainda mais profundas que assegurem o controle público da gestão política, estimulando uma maior participação de todos os atores sociais nas decisões comuns e no surgimento de novas lideranças e formas de gerir o político".
Por fim, em abril, 1.600 pastores de todo o país e de diversas tradições evangélicas realizaram encontro na cidade de Mar de Prata, onde deram a conhecer uma declaração na qual insistem na necessidade de criar uma Comissão da Verdade, que tem por incumbência investigar os responsáveis de ter levado o país à ruína econômica e social atual.
Com igrejas cada vez mais comprometidas em seu testemunho e ação para com os mais pobres, os evangélicos sabem que sua atitude e palavra críticas apontam para mudanças profundas nas relações sociais e nas estruturas políticas, sabendo que "outra nação é possível, se vivermos com a verdade e em retidão".
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Dafne Sabanes Plou é jornalista metodista argentina, ex-presidente da Agência Latino-Americana e Caribenha de Comunicação (ALC) e ex-presidente da região América Latina da Associação Mundial para a Comunicação Cristã (WACC-AL).
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