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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Manuel López, jornalista espanhol, diretor da Revista Foto e membro da Primeira Igreja Batista de Madri.
Manuel López, jornalista espanhol, diretor da Revista Foto e membro da Primeira Igreja Batista de Madri.

Peregrinos espirituais

Manuel López, MADRI, España, Maio 2, 2006

Não há volta: as igrejas européias se esvaziam, mas por mais paradoxal que aos historiadores Taxi Heathrow Airport de amanhã possa parecer, religião e fé estão mais presentes do que nunca no Velho Continente em nossos dias.

Ainda ressoam na Alemanha os ecos informativos da vigésima Jornada Mundial da Juventude da Igreja Católica, que no mês de agosto do ano passado reuniu 900 mil peregrinos de 197 países na cidade de Colônia.

Do Reno ao Mediterrâneo, Valencia, que acolherá no próximo mês de julho o quinto Encontro Mundial da Família, não quer ficar atrás. À falta de fiéis habituais nos cultos regulares das igrejas a ordem não é outra do que a de atrair peregrinos espirituais a mega-eventos religiosos com grande cobertura midiática.

A ver. Em 1950, 964 de cada 1 mil alemães eram membros da Igreja Evangélica ou da Católica. Essa percentagem assombrosa de 96,4 para 100 baixa para 62,1 para 100 em 2004, ano em que 32,7% da população germânica se declararam konfessionsfrei (livres de confissão em tradução literal, ou seja, cidadãos sem igreja); 3,9% muçulmana; e 1,3% na categoria de "outros".

[Dentro dos 62,1% que se declaram crentes, é preciso ver o dado não desvelado de quantos são fiéis praticantes que comparecem pelo menos uma vez ao mês ao templo e quantos são os crentes sem igreja, mas este fenômeno da ruptura da equação Fé + Religião = Igreja é um tema cuja progressiva magnitude aqui no Velho Continente dará matéria para próximos artigos].

Em 2025, a maioria da população alemã não pertencerá a nenhuma das grandes confissões, recorda-nos o relatório de Dorothea Fischer na revista Arte Magazin, fato que o canal de televisão Arte está repercutindo no tema Religião.

Ao contrário de 1950, quando o fervor religioso se circunscrevia ao interior dos templos, agora há cantores pop que se situam com suas mensagens cristãs nas listas de êxitos absolutos de venda, existem mais comunidades de fé do que nunca anteriormente e se pode ver multidões de jovens peregrinos com calças cintura baixa e camisetas que deixam ver o umbigo e as prendas mais íntimas cantando canções cristãs em meios de transporte públicos. Como se explica isso?

O professor do Instituto de Teologia Sistemática da Universidade de Viena, Ulrich Körtner, explica a presença maciça de jovens na visita do papa à Colonia como una reação lógica do que ele chama de fenômeno dos Peer-Groups, os grupos de afinidade em sua resposta a acontecimentos únicos. "O Vaticano é hoje um poder midiático ultramoderno com seu departamento de relações públicas e emissoras de tv e rádio próprias e que conta com o apoio de personagens famosos e estrelas do mundo do espetáculo", comenta.

Autor de Wiederkehr der Religión?, Retorno da Religião? -, obra que será publicada no próximo mês de junho, Körtner sustenta que religião não é necessariamente igual à igreja, e que a fé pode manifestar-se de maneiras totalmente diferentes. Assim, a dos "peregrinos espirituais" não é um fenômeno exclusivamente extraeclesial, mas que inclui fiéis cujas identidades espirituais mudam. Sa crentes sem igreja ou crentes em busca de outra igreja, é um fenômeno sobre o qual se terá que seguir informando.

“Existe um grande interesse em experiências religiosas no sentido mais amplo, que já  não satisfazem as formas que transmitem as igrejas”, assinala Körtner. O mercado religioso oferece ao peregrino espiritual muitos caminhos que o podem conduzir à Verdade e à reconciliação com Deus e aos demais crentes peregrinos.

Na Espanha, o número de peregrinos espirituais autóctones é nada comparado ao de peregrinos reais de além mares. Doa-nos ou não, é preciso dizer que o "programa de acolhida" da Igreja Protestante na Espanha ao crescente contingente de imigrantes da América Latina em nosso país é praticamente inexistente. Estão em atividade nas igrejas, é certo que centenas de programas de ajuda pontual aos imigrantes. Mas o que seria um programa de  inculturação/integração não existe.

A recente decisão da junta diretiva do Conselho Evangélico de Madri (CEM) de abrir conversações com a Conferência de Igrejas Européias (CEC-KEK) para uma possível adesão do CEM às CEC-EK [a proposta do Conselho de Comunicação e Imagem, em cuja frente está o autor destas linhas] bem poderia mudar de sinal, e para bem, para melhor que bem, para a situação das centenas de milhares de imigrantes latino-americanos na Espanha. A Europa precisa deles aqui na Espanha como mão-de-obra neste país ponte às Américas.

O ancestral empate entre a manifestação de membresia paroquial [1-0] e peregrinadora da fé num cenário de ofertas sem limite do mercado religioso [1-1] é, sem dúvida, a pedra de toque pela qual temos que passar. No caso de Madri, a questão radical não é outra senão a de pedir o milagre de que as igrejas ultrafundamentalistas, visceralmente antiecumênicas - na maioria dos casos por mera ignorância dos líderes -, vejam que há vida além das quatro paredes de seus templos.

Ao abrigo do iminente Campeonato Mundial de Futebol na Alemanha, na grande final, a equipe dos Peregrinos, agora com reforços de ultramar, tem que erguer-se com a vitória: 1-2. A Jesus de Nazaré, desde sempre, custa imagina-lo com os acomodados.

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Manuel López, jornalista, escritor e professor espanhol, é diretor da revista FOTO. Colunista em diversos meios cristãos da Espanha e América. Conferencista internacional.