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Quarta-feira, 17 de Maio de 2006

Casimira Rodríguez, leiga metodista, nomeada como ministra da Justiça na Bolívia. [Foto: W.Boots]
Casimira Rodríguez, leiga metodista, nomeada como ministra da Justiça na Bolívia. [Foto: W.Boots]

Ministra boliviana lamenta discriminação de domésticas

LIMA, Perú, Maio 2, 2006

A mulher da América Latina sai para trabalhar graças a outra mulher que a substitui Taxi Heathrow Airport em casa: a empregada doméstica, uma profissional mal paga e pouco reconhecida na sociedade latino-americana e que alguns setores ainda se acham no direito de discriminá-la e maltratá-la.

Assim a ministra da Justiça do governo boliviano, Casimira Rodriguez, 39 anos, define a situação das domésticas em países latino-americanos, que são denominadas de diferentes maneiras, mas geralmente submetidas a tratamentos ofensivos e a extensas jornadas de trabalho.

Simples, de voz doce, vestindo uma saia, é difícil imaginar Casimira Rodríguez como a aguerrida mulher que fundou a Federação de Trabalhadoras do Lar da Bolívia e, depois, a Confederação Latino-Americana e do Caribe de Trabalhadoras do Lar (CONLACTRAHO), com filiais em 14 países.

De passagem por Lima onde inaugurou, na sexta-feira, 28 de abril, a V Assembléia da CONLACTRAHO, Rodríguez concedeu entrevista exclusiva à ALC, na qual confessou que nos momentos de angústia e luta a Bíblia foi uma arma poderosa de consolo e desafio.

"Minha principal influência foi a Bíblia, a Palavra de Deus. O livro de Salmos me inspirou muito nos momentos de angústia e os textos do Novo Testamento, especialmente a vida de Jesus, serviram-me muito nos momentos de confronto e de luta pela justiça", sublinhou.

Rodríguez disse que freqüentava uma igreja pentecostal, mas retirou-se, pressionada a optar entre a religião e o sindicato. "Um dia, encontrei-me com uma irmã da Igreja Metodista, que era líder das mulheres camponesas. Ela disse que minha vida espiritual não entrava em contradição com o meu compromisso pela justiça, e a partir daí comecei a congregar-me na Igreja Metodista de Cochabamba", relatou.

A ministra confessou que "abriu os olhos" nos encontros de reflexão e seminários que o grupo ecumênico realizava com mulheres camponesas. "Foi como abrir a cortina num quarto escuro", disse, ao se dar conta que a discriminação que sentia era a mesma enfrentada  por tantas outras companheiras.

Então começou a tarefa de "evangelizar" as companheiras, entregando panfletos às mulheres que passavam enquanto varia a rua da casa onde trabalhava. "Um dia entreguei um panfleto para uma mulher trabalhadora do lar e ela me disse: 'senhora, não sei o que diz aqui'. Isso foi um golpe para mim. Disse para mim mesma que era preciso fortalecer a organização", recordou.

Hoje, líder das trabalhadoras do lar e convertida em ministra, a vida lhe deu a oportunidade de voltar a ver muitas das "patroas" que a empregaram e discriminaram. "É interessante, me fizeram passar à sala, lugar que eu era proibida de pisar quando trabalhava para elas", sublinhou.

Casimira Rodriguez sustentou que apesar da legislação existente na América Latina em relação ao trabalho doméstico, muitas vezes ela não é cumprida. Admitiu, contudo, que houve "alguns avanços" desde a organização das federações nacionais e da Confederação Latino-Americana.

A discriminação que viveu como empregada do lar ainda hoje a ameaça. Alguns setores conservadores bolivianos pediram sua saída do ministério, argumentando que ela carece de experiência e dos conhecimentos legais necessários para ocupar a pasta da Justiça.

É que Casimira trabalhou durante 18 anos como doméstica, razão que levou o Colégio Nacional de Advogados da Bolívia a pedir sua destituição, pois, alegou, não bastam os estudos de Antropologia que a ministra cursou.

Rodríguez recebeu, em 2003, o Prêmio do Conselho Mundial Metodista, que também foi outorgado a personalidades como Boris Trajkovsky, ex-presidente da Macedônia; Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul; Kofi Annan, secretário geral das Nações Unidas; e organizações como a Comunidade de San Egidio, que impulsionou a paz em Moçambique, e as Avós da Praça de Maio, na Argentina.