
Um presidente evangélico no México?
Leopoldo Cervantes-Ortiz, CIDADE DO MÉXICO, México, Maio 1, 2006
Diante da possibilidade de que Andrés Manuel López Obrador, candidato da Aliança pelo Bem de Taxi Heathrow Airport Todos (integrada pelo Partido da Revolução Democrática, Convergência e o Partido do Trabalho), triunfe nas eleições presidenciais do México, é interessante analisar algumas das implicações de sua filiação religiosa.
Embora não seja a primeira vez que um evangélico esteja próximo de ocupar esse posto, a conjuntura política apresenta matizes inéditas. O único antecedente foi o general Aarón Sáenz (irmão de Moisés, destacado educador), que em 1929 foi preterido da candidatura pelo nascente Partido Nacional Revolucionário precisamente por ser identificado como protestante.[1]
Contudo, continua como um mistério a localização religiosa de López Obrador (oriundo de Tabasco, uma coletividade com elevada percentagem de evangélicos, em torno de 20%) e se especula insistentemente sobre a confissão à qual pertence. Ao que parece, esteve ligado à igreja adventista, embora em nenhum momento de sua campanha tenha feito referência específica ao assunto, tampouco buscado o apoio dos evangélicos do país.
E mais, quando foi interrogado diretamente sobre suas crenças num noticiário televisivo, reconheceu-se como católico, o que de motivo a que alguns adversários o atacassem por negar sua filiação.[2] Contudo, referências religiosas aparecem em seu discurso com certa freqüência. Chegou a comparar-se a Jesus Cristo, o que irritou muitos setores.
Recentemente, criticou o Partido Ação Nacional (filocatólico) por violar o mandamento relativo à mentira, em alusão à propaganda que o ataca por sua atuação como chefe de governo do Distrito Federal.[3] Também é um provável sinal de sua orientação religiosa a forma como se identifica com a figura de Benito Juárez, artífice da separação entre o Estado e a Igreja no século XIX. Sua admiração é tal que chegou a anunciar que viverá no Palácio Nacional, lugar onde ainda se conservam as habitações do único presidente indígena que o México teve.
Isso tudo seria uma anedota, se não estivesse situado no marco do velho debate sobre a participação política dos evangélicos (que sempre reaparece em épocas eleitorais) e o do acesso ao poder de evangélicos na América Latina. Quanto ao primeiro, constitui verdadeira incógnita o impacto real do voto evangélico no México, pois às antigas posturas de apoliticismo, alentadas por dirigentes da maioria das igrejas, sucedeu-se uma verdadeira explosão de interesses de participar na arena política de muitas maneiras, incluída a organização de agrupações ou partidos confessionais.
Por outro lado, a experiência latino-americana não foi nada favorável à imagem dos protestantes, pois os casos de Efraín Rios Montt e de Jorge Serrano Elías, na Guatemala, ou de Alberto Fujimori, no Peru, amplamente apoiado por evangélicos, foram decepcionantes. Tudo isso sem mencionar o boom de partidos evangélicos em todo o continente. Além disso, um dos argumentos com que se pretendia desqualificar o possível acesso de López Obrador à presidência é a comparação com o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, por sua suposta tendência autoritária.
Como já disse, o que mais chama a atenção é que López Obrador não apelou em nenhum momento ao eventual voto corporativo evangélico, mas recorreu a uma tese liberal que consiste em separar as crenças privadas da atuação pública. Isso rompe taxativamente com algumas iniciativas evangélicas que, sem chegar a articular organicamente a ideologia religiosa (institucional ou não) com a política, pretendem cristianizar a opção que elegeram, como é o caso do agrupamento Encontro Social ou do movimento Exército de Deus, surgido em Chiapas.[4]
Mais interessante ainda é a pergunta sobre se nesta ocasião se fará visível a influência da ética protestante no comportamento político de um governante, pois a experiência do último governante de seis anos mostrou uma autoridade que não soube delimitar os limites de suas crenças e as de sua responsabilidade como titular do Poder Executivo, imparcial por definição.
A recepção cortês que Vicente Fox brindou o papa João Paulo II constituiu uma profunda decepção para os eleitores não-católicos que contribuíram para que ocupasse a presidência.
Finalmente, a recente reunião de López Obrador com a cúpula do episcopado mexicano é sinal de uma conduta política adequada e respeitosa, pois de modo algum o candidato assumiu uma atitude de confronto em relação às exigências nunca satisfeitas plenamente dos bispos em relação ao acesso da Igreja Católica aos meios de comunicação de massa ou à educação.[5]
Não obstante, López Obrador propôs aos bispos a necessidade de discutir publicamente alguns dos temas mais candentes para eles: o aborto e a eutanásia, por exemplo. Assim que o eventual triunfo de López Obrador poderia levar um político evangélico à presidência, que enfrentará uma difícil tarefa, muito além de suas crenças pessoais.
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[1] Cf. Luis Javier Garrido, El partido de la revolución institucionalizada. La formación del nuevo Estado en México. México, Siglo XXI, pp. 85-89.
[2] Cf. L. Cervantes-Ortiz, "Candidatos presidenciales y religión", 12 de fevereiro de 2006, www.alcnoticias.org/articulo.asp?artCode=4135&lanCode=2.
[3] Andrea Becerril, "Pasada la Semana Santa, las pruebas del dinero a Calderón"; in La Jornada Michoacán, 10 de abril de 2006, www.lajornadamichoacan.com.mx/2006/04/10/03n1pol.html.
[4] Elio Henríquez, "Crean evangélicos el Ejército de Dios", en La Jornada, 24 de abril de 2006, www.jornada.unam.mx/2006/04/24/041n1est.php.
[5] Alma E. Muñoz, "López Obrador pasó 'la verificación' con la Iglesia, dice el obispo Alvarado", en La Jornada, 26 de abril de 2006, www.jornada.unam.mx/2006/04/26/016n1pol.php. O título da nota faz alusão ao sistema de "verificação" com o qual são aprovados os veículos no programa contra a contaminação ambiental da Cidade do México.

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