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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Carmelo Alvarez, pastor da Igreja Cristã (Discípulos de Cristo). [Foto: CLAI]
Carmelo Alvarez, pastor da Igreja Cristã (Discípulos de Cristo). [Foto: CLAI]

As migrações aos Estados Unidos

Carmelo Alvarez, CHICAGO, Estados Unidos, Abril 26, 2006

Nas semanas recentes, ocorreu nos Estados Unidos uma impressionante onda de marchas, protestos e manifestações de massa ao longo do país. Todo o mundo foi surpreendido pela magnitude, disciplina e impacto que o assunto imigrantes sem documentos alcançou nos Estados Unidos.

É preciso recordar que este é um país eminentemente de imigrantes. Com exceção dos povos nativos e dos mexicanos, que habitavam os territórios do que hoje é o Arizona, a Califórnia e o Novo México Novo (o antigo Aztlán, terra de nahuas), todos os outros grupos étnicos vieram de fora, incluindo os negros africanos trazidos como parte do sistema escravista.

Desejo neste breve artigo destacar os seguintes pontos: a diáspora hispana, viver na fronteira, as rotas dos imigrantes, o impacto da globalização, as igrejas e os imigrantes, concluindo com algumas observações provisórias.

A diáspora hispana

A experiência de emigrar aos Estados Unidos a partir de distintos pontos da América Latina e do Caribe tem uma longa história. Teria que se examinar as migrações de caribenhos, centro-americanos e sul-americanos em diversas circunstâncias e em distintos momentos no último século. Aqui se exilaram pessoas por motivos econômicos e políticos.

Da Europa também vieram ondas de imigrantes que continuam chegando por diferentes motivos. Esse dado quase passa despercebido na imprensa e nos meios de comunicação em geral. Vivendo no norte de Chicago me dou conta da quantidade de poloneses, ucranianos, russos e pessoas de outras nacionalidades do leste europeu que vivem como refugiados, e alguns deles também como sem-documentos. Mas parece que "o problema" são os latino-americanos e caribenhos. Há um problema de fundo racial e cultural em tudo isso.

Parece-me que a maioria branca caiu numa amnésia histórica ao ignorar que eles e elas também vieram para cá como imigrantes. Muitas dessas pessoas até mudaram seus nomes e sobrenomes para poder ingressar no setor dominante da vida norte-americana. Tive estudantes que o atestam.

Há duas semanas, a pessoa que me ajuda a preencher os papéis para a contribuição sobre imposto de renda me confirmou que a companhia para a qual trabalha chama-se H & R Block, mas que seus fundadores eram judeus de sobrenome Bloch. Mudaram-no para poder operar um negócio que hoje é o número um em matéria contributiva e financeira em todo o país e em outros países do mundo.

Viver na fronteira

Essa dimensão também tem uma história complexa e intrincada. Para ninguém é segredo que os primeiros moradores da costa leste dos Estados Unidos, chamados peregrinos e puritanos, vindos da Inglaterra e posteriormente de outras partes da Europa, deslocaram-se pelo território norte-americano e foram para o Meio Oeste e dali para o outro extremo, no Sudoeste, até ocupar a  Califórnia.

A chamada "expansão fronteiriça" não é outra coisa senão uma grande empresa de despojo, deslocamento e pilhagem das populações nativas americanas e mexicanas. Inclusive na literatura, no cinema, no teatro e em outras expressões artísticas foi registrada toda essa epopéia da ocupação. Falar de fronteira é falar da guerra México-Americana do século XIX, que fez diminuir o território mexicano com a anexação do Arizona, Califórnia e Novo México, área que, junto com o Texas, vieram a reforçar a fronteira imperial dos Estados Unidos.

Viver na fronteira, por outro lado, significou uma tragédia e desafio para os mexicanos que viviam entre os Estados Unidos e o México, e o constante fluxo de imigrantes que sempre cruzaram a fronteira. Para os méxico-americanos, isso passou a ser chamado pejorativamente de "pochos" no México e de "chicanos" nos Estados Unidos. Foi a expressão mais cruel e desumana de qualquer setor dos dois países, excetuando os atropelos e marginalização sofrida por milhões de indígenas no México, e a devastadora experiência da escravidão negra nos Estados Unidos. Essas foram verdadeiras fronteiras de afronta e dor.

As rotas dos imigrantes

Fica evidente que a fronteira do México com os Estados Unidos é a mais ativa e complexa do mundo. A cada dia, centenas de pessoas, em certas ocasiões milhares, tratam de cruzá-la através do meio que seja, pelo lado mais conveniente e menos perigoso, sem importar quais possam ser os imprevistos e riscos da viagem. A ordem é chegar aos Estados Unidos e trabalhar para enviar dinheiro às famílias que vivem na pobreza extrema ou começar a criar condições para que outros familiares se unam a eles. As histórias de imigrantes e as peripécias que passam são uma escola de paciência, resistência e teimosia.

É preciso sublinhar um fato importante: há grande quantidade de imigrantes de outros países, o que inclui a Guatemala, Honduras, Nicarágua, Colômbia, Equador e Peru com os números maiores. Muitos grupos tratam de chegar até o México para, dali, tentar cruzar para os Estados Unidos. No processo encontram assaltantes organizados, coiotes e criminosos comuns que os furtam, enganam, violam e até assassinam. Há toda uma rede de cumplicidade nos dois lados da fronteira, que inclui até os próprios agentes policiais encarregados de vigiar as fronteiras dos dois países.

A situação é grave e continua se agravando. Há todo um ciclo de exploração e pilhagem fruto desse drama humano e social. Muita gente inocente e desprevenida cai em armadilhas e calotes, aprofundando sua crise migratória, que por si é complexa. Contudo, não são fornecidos números exatos de quantas pessoas morrem ao atravessar a fronteira com os Estados Unidos, nas regiões desérticas do Arizona e do Novo México, mas os números podem chegar a milhares.

O impacto da globalização

O panorama que estamos vendo e vivendo não é algo casual e acidental. Esse é o resultado, em parte, do impacto da globalização e da aplicação assimétrica do Tratado de Livre Comércio entre Canadá, México e Estados Unidos, que deixou o México com a pior parte. O que os supostos milagres de uma economia de mercado provocaram no México, com suas aceleradas privatizações, a imposição da competitividade e o desemprego em massa, foi afundar muitas famílias na miséria. Basta viajar algumas horas pelo campo mexicano, como tenho feito nos últimos quatro anos, para observar de perto o rosto da miséria que tem nome e sobrenome. O setor indígena é o mais atingido e desfavorecido.

Qualquer tentativa de atravessar esse solo oculta a amarga realidade que aflige a população no campo mexicano, (a indústria do tabaco é um indício disso) e a explosão urbana registradas por décadas na Cidade do México coloca-a numa condição deprimente, com sérios conglomerados populacionais e uma expansiva onda de miséria na periferia. Soma-se a isso a gravidade do fornecimento de água e eletricidade e outros serviços básicos.

Causa ironia, quando não indignação, escutar na televisão e ler nos jornais as expressões do governo mexicano, que constantemente tem que fazer jogo duplo em relação à sua política econômica e seus acordos com os Estados Unidos... A amizade pessoal do presidente Vicente Fox e suas freqüentes visitas à fazenda privada do presidente George W. Bush, em Crawford, Texas, não consegue romper o impasse para fixar e promover um verdadeiro acordo migratório entre os dois países. A administração dos dois presidentes encontra-se num momento difícil, um deles quase por sair, como é o caso de Vicente Fox, e o outro com o nível de popularidade muito baixo. Há muito jogo político a expensas do sofrimento do povo.

As igrejas e os imigrantes

É alentador o cuidado que a Igreja Católica está assumindo num papel protagonista na defesa dos imigrantes. É preciso sublinhar que a população hispana é o setor mais ativo na Igreja Católica. A piedade e o fervor dos grupos hispanos, com suas fortes raízes no ethos católico e sua religiosidade cotidiana, ajudam nesse processo. Conheço muitas congregações pentecostais que estão fazendo o mesmo.

A administração Bush está desgostosa e incômoda com essa postura. As grandes marchas, protestos e atos públicos de massa contam com o decisivo apoio de sacerdotes, pastores e pastoras evangélicas e pentecostais, monjas e monges, leigos comprometidos e comunidades inteiras que oferecem sustento e alento aos imigrantes. Muitas congregações evangélicas, de todas as denominações, têm providenciado teto, alimento e água para centenas de imigrantes que chegam todos os dias ao território norte-americano. Elas levam a sério o chamado samaritano.

Além disso, creio que essa atitude provocou um renascer em muitos círculos de igrejas protestantes que estavam perplexas e caladas diante das políticas da administração Bush e agora encontram espaço para a solidariedade e o acompanhamento pastoral.

Como visualizar o futuro imediato? Continuamos perplexos frente ao impacto desse movimento que iniciou espontaneamente e que agora está se organizando. Esperemos que se mantenha unido dentro da diversidade hispana e das diferentes correntes políticas, culturais e sociais que os aglutina. Talvez o fator religioso seja o que mais consegue coesão e direção, e poderá continuar servindo de inspiração. Não dá para descartar nunca as medidas repressivas e de intimidação ou castigo que a administração Bush possa vir a adotar.

Estou convencido de que o panorama social e político dos Estados Unidos foi influenciado pela irrupção visível desse movimento que clama por justiça. É preciso aguardar para ver os resultados concretos que consegue, e mais ainda o nível de solidariedade ou de ódio que irá gerar. Pode desatar num ódio racial que continua vivo neste país. Oremos pela sensatez e a eqüanimidade. Não podemos esquecer que são nossos irmãos e irmãs hispanas que lutam por um horizonte de vida melhor.

Recordemos nesta próxima segunda-feira, 1 de maio, que estaremos num boicote nacional de não-participação em qualquer atividade econômica nos Estados Unidos. Esse dia pode ser também uma grande surpresa.