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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Paulo Moisés Nerbas, pastor-presidente da Igreja Evangélica Luterana do Brasil. [Foro: Gustavo Schmidt.]
Paulo Moisés Nerbas, pastor-presidente da Igreja Evangélica Luterana do Brasil. [Foro: Gustavo Schmidt.]

O pastor dos pastores

Entrevista: Edelberto Behs, VITÓRIA, Brasil, Abril 24, 2006

Eleito na 59a Convenção Nacional da Igreja Evangélica Luterana do Brasil (IELB), reunida em Guarapari, Taxi Heathrow Airport Espírito Santo, de 19 a 23 de abril, o novo pastor presidente dessa denominação, Paulo Moisés Nerbas, 56 anos, quer ser o pastor dos pastores, acompanhando os colegas no ministério e suas famílias, para que possam ser felizes no que fazem.

Ao se dirigir para o local da Convenção, quando chegou em Guarapari, no táxi Nerbas ouviu notícia sobre o pedido pascoal do papa Bento XVI dirigida aos fiéis: que orassem por ele, para que possa ser doce e firme no trato pastoral. Foi também o pedido do pastor presidente eleito, assim que anunciado o resultado das urnas. Nardes recebeu 261 votos, contra 247 dados ao pastor Carlos Winterle, que estava na presidência da igreja há oito anos.

Professor de Teologia Sistemática no Seminário Concórdia, da IELB, em Porto Alegre, Nardes e seus colegas da Direção Nacional eleitos na 59a Convenção serão empossados no culto de encerramento do encontro, no domingo, 23. O novo pastor presidente assumirá, contudo, o novo cargo, de fato, em 30 dias. Em entrevista de Guarapari, por telefone, o pastor presidente creditou sua escolha a uma renovação que parte da igreja considerou desejável no momento.  

ALC – A eleição o surpreendeu?

Nerbas – Quando a gente é indicado e aceita concorrer a um cargo, sempre se prepara para os dois resultados: ganhar ou perder. Sabia que seria uma eleição bastante concorrida. O pastor Carlos Winterle teve uma gestão abençoada, reconhecida pela igreja. Mas não posso dizer que foi uma surpresa total, porque sempre tem aqueles irmãos e irmãs que sondam o ambiente, e essas pessoas me diziam: “Tens chances”. Então, na minha expectativa tinha chances.

ALC – A quais fatores o senhor credita a sua escolha?

Nerbas – Na igreja existe o pensamento de que após certo tempo em algum cargo ou função, ainda mais em nível nacional, de direção, deve acontecer uma renovação. Isso não significa desaprovação. O pastor Winterle exerceu a direção por oito anos, e, se eleito, estaria indo para o seu terceiro mandato. A razão maior da escolha está no fato de que a igreja busca essa renovação, com pessoas com características e dons diferentes.

ALC – O senhor dará continuidade ao projeto administrativo atual?

Nerbas – De um modo geral, não há coisa muito diferente a fazer. Até o final de 2004, como diretor geral do Seminário Concórdia, eu fazia parte de comissões da igreja e trabalhei bem perto com o pastor Winterle. Uma das ênfases que pretendo dar é o acompanhamento mais próximo dos pastores e suas famílias. Vejo isso como necessário no momento em que a IELB se expande pelo Brasil. Pastores sofrem com o isolamento, com a falta de contato com colegas. Pretendo ajudá-los e estimulá-los, para que tenham um pastorado feliz.

ALC – Há ainda outras ênfases que pretende introduzir?

Nerbas – O acompanhamento dos pastores é a principal. Mas também a de procurar manter clara a nossa confessionalidade. Ela precisa ser reconhecida internamente e, sempre de novo, externamente. Estamos num mundo dialogal, e é preciso saber com quem dialogar, preservando a confessionalidade luterana, com zelo e cuidado. Mostrar quem somos, sem máscaras.

ALC – Isso significa avanços na área ecumênica?

Nerbas – Precisamos continuar dentro dessa área, a partir de diálogos ver quais trilhas podemos caminhar juntos, tendo clareza desses caminhos.

ALC – Com quem seriam essas caminhadas?

Nerbas – Primeiro, com a IECLB (Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil), com quem estamos dialogando há mais tempo. Esse diálogo teve avanços e recuos, mas é o principal diálogo nosso. Mas também existem outras igrejas cristãs.

ALC – Isso significa que a IELB poderá a vir a se integrar em organismos como o Conselho Nacional de Igrejas Cristãs (Conic), o Conselho Latino-Americano de Igrejas (Clai) e a Federação Luterana Mundial (FLM)?

Nerbas – No momento, vejo dificuldades nesse sentido. Na situação atual, vejo muito difícil pensar em filiação em tais organismos.

 ALC – O senhor tem alguma experiência administrativa?

Nerbas – Adquiri certa experiência na direção do Seminário Concórdia (que exerceu por dez anos), embora na direção da igreja a situação muda um pouco. Mas tenho aquela experiência.

 ALC – No seu entendimento, que atribuições um pastor presidente deve ter?

Nerbas – Quando menino, ouvia falar muito, no que diz respeito às lideranças, do pastor dos pastores. Pretendo ser isso. Vejo nisso a principal atribuição.

 ALC- Assim que anunciada a sua eleição, o senhor recorreu a palavras de Bento XVI. O senhor acompanha escritos e pronunciamentos do papa?

Nerbas – Foi uma menção ocasional. Quando estava vindo para o Centro de Turismo de Guarapari (local da 59a Convenção Nacional da IELB), no táxi o motorista estava escutando rádio, e uma notícia reportou-se ao pedido do papa à igreja. Bento XVI pediu que os fiéis orassem para que Deus permitisse que ele saiba ser doce e firme no trato pessoal. Vejo isso como qualidades de um pastor presidente. Ser doce, por causa da doçura do Evangelho, e ser firme na defesa do Evangelho, para que a doçura não se perca. Doce, para quem queremos nos comunicar.

ALC – O senhor entende que a IELB deva ter uma inserção mais pontual em questões que dizem respeito à realidade brasileira, como saúde e educação?

Nerbas – Sou favorável a isso. Não podemos desconsiderar a situação do nosso povo, ignorar o seu sofrimento do dia-a-dia. Fazer isso é pôr o amor em prática.

ALC – Como o senhor encara o quadro político brasileiro?

Nerbas – Com grande preocupação e também, como cidadão, com grande frustração. Essa é a palavra que melhor define o meu sentimento. Tínhamos a esperança de mudanças, de novos ares, e agora estamos vendo que, infelizmente, isso não está se concretizando. Mas, apesar dessa frustração não podemos partir para a acomodação e perder a esperança de perseguir a alegria.