Protestantismo brasileiro tem a cara do país
SAO LEOPOLDO, Brasil, Abril 17, 2006
O protestantismo brasileiro não é melhor nem pior do que o Brasil, e está impregnado Taxi Heathrow Airport de miscigenação e sincretismo, declarou para a revista Ecclesia o sociólogo, diretor pedagógico do Instituto de Estudos Contemporâneos (Icec) e presbítero da Igreja Assembléia de Deus Betesda, de São Paulo, Gedeon Freire de Alencar.
Autor do livro “Protestantismo tupiniquim”, recém lançado, Alencar questionou, na entrevista, a produção cultural evangélica e a indústria da literatura, e declarou que a satanização que evangélicos fazem da cultura afro é mais uma questão ideológica do que teológica.
“Essa nossa implicância com o culto afro tem muito mais a ver com o racismo subjacente”, destacou. Lembrou que o protestantismo alemão na época do nazismo e o cristianismo holandês na África do Sul, que legalizou o apartheid, não eram menos satânicos do que a religião afro. “Toda religião tem erros, ora. Mas também tem acertos e belezas, e isso acontece tanto com as religiões afro quanto com o nosso cristianismo”, comparou.
A cultura nacional tem influenciado as igrejas evangélicas, o que, assinalou, é positivo. “Nos primórdios do protestantismo no Brasil, a igreja evangélica aqui instalada não tinha nada a ver com a realidade brasileira”, disse, mencionando a igreja luterana, a igreja anglicana e a Congregação Cristã, que recorriam à língua litúrgica de seus membros migrantes, respectivamente o alemão, o inglês e o italiano.
Esse panorama começou a mudar com a II Guerra Mundial e, a partir dos anos 50 do século passado, as igrejas já nascem no país com cara brasileira. “Sim e não” foi a resposta do entrevistado à pergunta se a igreja brasileira tem influenciado a cultura nacional.
Alencar trouxe um dos exemplos o futebol, que há 50 anos a igreja satanizava e que hoje não acontece mais. “O futebol deixou de ser pecaminoso ou a igreja melhorou? Nem uma coisa nem outra. Futebol não deixou de ser futebol e igreja não deixou de ser igreja. No decorrer dos anos todos mudam, pois há uma adequação natural. Não tem como ser diferente”, explicou.
A influência da igreja evangélica na cultura brasileira arrefeceu porque ela ficou “quantitativamente grande, mas tornou-se qualitativamente heterodoxa”. Ela não influencia mais a sociedade porque ficou “menos coesa”.
Apesar de teólogos afirmarem que teologia é revelação divina, prosseguiu Alencar na entrevista, “a verdade é que ela é uma produção humana adequada ao seu tempo. Do ponto de vista sociológico, teologia é a legalização do estado social”, definiu.
O diretor do Icec disse que a teologia da prosperidade nasceu junto com o neoliberalismo econômico, num processo de urbanização, e que ela “legaliza essa classe média evangélica que se aburguesou. E isso não é um fenômeno exclusivamente contemporâneo. A teologia calvinista do século 17 surgiu como forma de legalização da burguesia ascendente da época”, historiou.
Sobre a indústria cultural evangélica, Alencar entende que nem sempre ela é honesta. Citou o caso da música gospel e apontou para canções de louvor e adoração hoje cantadas, que ele classificou de “rasas”. “Os caras escrevem umas quatro linhas que não dizem nada e ficam repetindo essa baboseira por meia hora. Isso é desonesto”.
Também é desonesto o pregador falar 40 minutos e não dizer nada. “Uma mensagem vazia é tão desonesta quanto um CD ou um livro que não dizem nada. E ainda tem aquela coisa da fabricação de astros da música, de ídolos da literatura, de estrelas do púlpito”, agregou.
Como é desonesta, do ponto de vista do entrevistado, a indústria evangélica de literatura, que tem até indústria de testemunhos. Analisando o comportamento social do evangélico, Alencar assinalou que não existe mais aquele perfil evangélico do indivíduo que não bebe, não fuma, não é desonesto. “O evangélico de hoje não tem mais aquele carimbo de santidade na testa. Algumas vezes, faz coisas até piores do que os outros”, disse.

Portada
Início
Comenta este artigo