Voltar ao início

Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Alfondo Wieland, diretor executivo de Paz e Esperança.
Alfondo Wieland, diretor executivo de Paz e Esperança.

O Sonho de Huanta

Alfonso Wieland, LIMA, Perú, Abril 10, 2006

A propósito da irrupção política de um setor evangélico

Em abril do 2002, lembro que Taxi Heathrow Airport encontrei com dom Humberto Lay num ônibus de volta de Huanta, Ayacucho, depois da realização de audiência pública promovida pela Comissão da Verdade (CVR) para escutar os aterradores depoimentos das vítimas da violência política.

Um tema que conversei então com o coordenador da CVR foi sobre o Movimento Restauração Nacional, que ele estava organizando. Disse-lhe que não acreditava nos partidos confessionais, e ele me respondeu que estavam tratando de construir um partido plural, não religioso.

Além disso, emendou, ele não se via como um líder político, mas como um pastor apoiando aqueles que tiveram vocação de realizar política partidária. Nessa ocasião, afirmou que não se via postulando à presidência da República.

Quatro anos depois, um dos resultados das eleições presidenciais do último dia 9 de abril é, sem dúvida, o batismo político público do Partido Restauração Nacional (RN). Mas, como o RN é visto pela opinião pública? Pois como um partido religioso, liderado por um pastor evangélico, pôde surpreender ao atingir maior votação do que outros partidos pequenos, porém com mais trajetória política.

Alguns comentaristas assinalam que os mais de 4% dos votos alcançados por Lay representam o voto militante de uma minoria religiosa. Isto é, RN é, hoje, o que dom Humberto Lay não queria que fosse há alguns anos.

Antes das eleições, escutei depoimentos de evangélicos, vários deles amigos meus, crentes firmes de que Deus estava conduzindo tudo para que Lay fosse o novo presidente do Peru. Faltando poucas semanas para as eleições, uma pessoa me disse muito segura que, por uma intervenção divina, os 15% de eleitores indecisos dariam apoio a RN.

Depois que, por sorteio, ficou decidido que RN ocuparia o terceiro espaço na cédula de votação, um amigo escrevia um e-mail, entusiasmado, assinalando que isso era manifestação da intervenção divina a favor da RN. O que pensarão agora esses bons amigos? Uma resposta provável que escutarei é que Deus tem seus tempos e que o caminho está sendo preparado para que um evangélico governe o país.

Desde que em 1990 os evangélicos estiveram na boca da imprensa por apoiarem o então desconhecido Alberto Fujimori, multiplicaram-se os esforços de cidadãos evangélicos, a maioria deles erráticos, para contar com presença no Congresso ou no Executivo.

É um triunfo para a comunidade evangélica peruana contar com uma suposta "representação" no Congresso? A resposta é: depende do que se quer conseguir. Há várias alternativas: se for para atuar como uma agremiação que procura canalizar demandas de uma minoria religiosa; se for para defender antes interesses pessoais, de uma grupo de pessoas cuja única bandeira e ideologia é o poder pelo poder; se for para apoiar a governabilidade do país enfatizando aspectos como, por exemplo, a luta frontal contra a desigualdade e a exclusão social. Ou talvez, o que não está longe de ocorrer, que simplesmente não se saiba o que se quer.

Atuar em defesa de interesses religiosos poderia determinar uma agenda estreita para a RN. Estabelecimento de efemérides ligadas "ao evangélico" (Dia da Bíblia, Dia da Evangelização, etc.), exoneração de impostos para os pastores e as igrejas, entre outras delicadezas. Mas o mais perigoso será a construção de uma versão chula da "moral majority" norte-americana.

Isto é, um grupo político conservador especializado em levantar a bandeira de causas como o antiaborto, a oposição ao casamento gay, etc. E não estamos discutindo aqui sobre a importância desses temas, mas uma fixação desse tipo poderia levar a igreja a uma desnecessária polarização, a um discurso monocórdio que côa o mosquito mas engole o elefante, que concebe o mundo de maneira maniqueísta e que não vê a luta contra as grandes injustiças sociais, como a pobreza, como parte do mandato bíblico.

Se a RN for mais um reflexo de interesses individuais egoístas, sua sorte está lançada. Já visitaram dom Humberto Lay representantes dos outros partidos que governarão o Peru nos próximos cinco anos. A votação de 4% é um bocado nada desprezível para quem está perseguindo uma maioria no Congresso e de conseguir ganhar o segundo turno.

Quais serão os pontos sobre que serão negociados com esses partidos? Interesses da "comunidade evangélica"? Princípios democráticos e de governabilidade? Ou, antes, postos públicos para pessoas da RN com ânsia de conseguir uma quota de poder no futuro governo?

Caso prevalecer o último, estaremos diante de um movimento que está destinado a desaparecer. Não amanhã, mas cedo ou tarde, como ocorreu com tantos movimentos políticos. O mas recente caso é o de Fernando Olivera, do Frente Independente Moralizador, partido aliado do presidente Alejandro Toledo.

Não sei se pior do que o anterior é que Restauração não tem proposta alguma. Não tanto que não tenha um plano (basta visitar sua página web). Trata-se do fato de que não tem um norte claro de quê projeto de país está procurando construir. Se é que não o tem, deverá construí-lo no caminho.

Requer-se, então, um manejo profissional do político para enfrentar uma situação política tão complexa como a peruana. Poderá o pastor Lay fazê-lo? Para mostra um exemplo: Na Revista Ideele, número 175, Máximo San Román (candidato à vice-presidente pela RN) responde negativamente às perguntas seguintes: a leitura do relatório final da CVR é indispensável para elaborar uma (nova) estratégia de luta contra o terrorismo e o narcotráfico?; e, se tal como afirma a CVR, em certos lugares e momentos do conflito armado a atuação de membros das Forças Armadas envolveu práticas generalizadas e sistemáticas de violações dos direitos humanos.

Estará de acordo dom Humberto Lay, ex-coordenador da CVR, com essas assertivas de um aliado próximo? Terá a capacidade de construir propostas políticas dentro de um partido que parece ser a soma de interesses individuais?

Humberto Lay mencionou que RN já faz parte da história peruana, querendo significar sua relevância no cenário nacional. Para conseguí-lo, RN deverá atrever-se a construir um partido moderno, que rompa suas fronteiras religiosas.

Deverá, também, deixar de praticar o amadorismo político, tão em moda nos dias de hoje. Deixar de lado que pode ser o "outsider" de 2011.

Tornar realidade o que parecia o sonho de dom Humberto em abril de 2002, em Huanta, quer dizer, construir um partido no qual caibam homens e mulheres de boa vontade, honestos, que possam contribuir para a real mudança do país.

Mas talvez essa exigência ponha RN no limite do possível. Deixar de ser um partido que "representa" um setor religioso minoritário poderia ocasionar a perda disso que é sua singularidade e sua fronteira. Deixar de lado aliados e membros de seu partido questionados de cometer atos de corrupção poderia provocar uma quebra definitiva de sua liderança.

Em todo caso, a história nos dirá que forças prevalecerão no interior de um movimento que hoje é identificado como "dos evangélicos"

--------

Alfonso Wieland, é director executivo da  ONG evangélica Paz e Esperança, de Lima, Peru.