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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007

Atores e moradores da Rocinha encenam a Via Sacra

Edelberto Behs, RIO DE JANEIRO, Brasil, Abril 12, 2006

A paixão de Cristo, construída a partir das histórias bíblicas que o povo conhece ou Taxi Heathrow Airport ouviu falar, será encenada na Sexta-Feira Santa à noite em ruas da Rocinha por grupo de teatro amador integrado por moradores da maior favela do Rio de Janeiro.

"A Via Sacra da Rocinha mostra momentos de reivindicação e de crítica social. Não há como separar a nossa Via Sacra do desejo por um modo de vida com mais conforto e oportunidade para todos", declarou o diretor da Companhia de Teatro Roça Caçacultura, Aurélio Mesquita, 40 anos.

O espetáculo teatral itinerante começa no Largo do Boiadeiro, um centro comercial da Rocinha, segue o Caminho do Boiadeiro, pela Estrada da Gávea, a principal rua da favela, e desemboca na "Fundação", como é conhecida a igreja da Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem.

Atores, moradores e transeuntes interagem nos três quilômetros da Via Sacra, que perpassa ruas, calçadas, becos, escadarias e lajes que compõem a arquitetura natural da Rocinha. A encenação inicia com o batismo de Jesus e vai até a ressurreição. "A platéia é coadjuvante e a abordagem parte de uma realidade vivenciada no cotidiano do nosso bairro, cidade, país e mundo", explicou Mesquita.

Na Via Sacra da Rocinha, Jesus passa, por exemplo, defronte um supermercado e ali se depara com o profeta do supermercado. O profeta fala de um homem que foi preso por ter roubado comida. O trabalhador, a prostituta, a lavadeira, questionam o profeta e sua defesa do homem que furtou. "Essa é uma discussão bem popular na favela", disse Mesquita à ALC.

Jesus será interpretado por Lucas Valentim, estudante e ator, 19 anos. Um padeiro fará o papel de João Batista e Maria é uma universitária formada em museologia, desempregada, que nora no morro. "A gente pergunta ao pessoal quem quer interpretar o quê e o grupo escolhe. Não temos qualquer participação de padre, pastor ou teólogo e a história é construída pelo grupo, assim como eles a conhecem", contou o diretor.

Gente comum, católicos, evangélicos, umbandistas, macumbeiros, são esses que constroem a Via Sacra. "Partimos do exemplo de grupos existentes, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra, que lutam por transformação, a exemplo de Jesus", explicou o diretor do Roça Caçacultura. Nos textos bíblicos está a essência da mudança, "não essa dos políticos, que é de mentira, mas a do sujeito que passa por transformação", agregou.

A paixão de Cristo da Rocinha tem o seu roteiro específico. Tem cena que homenageia a poesia nordestina, a música popular brasileira, o samba de roda. Quando Jesus é preso, seis crianças da Escola de Música da favela tocam flauta doce. Na morte de Jesus, Maria chora a perda com uma poesia que retrata a dor de todas as mães que perderam filhos pelos mais diferentes motivos.

A apoteose da Via Sacra dá-se com a ressurreição de Cristo, que aparece na porta da Fundação, mas dolado de fora. "As igrejas não gostam muito do que fazemos. Aliás, a gente adora que não gostem. As igrejas podiam ser um excelente instrumento da transformação, mas elas não botam o povo a pensar", criticou Mesquita.

O diretor do grupo de teatro acredita que pela arte é possível alcançar a mudança. O texto da Via Sacra é de José Maria Rodrigues, um escritor nordestino, e a encenação de Aurélio Mesquita. Pela primeira vez, em 14 anos, a apresentação terá apoio cultural.

Participam da montagem 40 moradores da comunidade, artistas e produtores do morro, que, nesse período de ensaios e apresentação, acumulam mais uma tarefa no seu dia-a-dia. "Essa é uma das formas de juntar as pessoas para refletirem sobre a história e suas maneiras de cultuar Deus", disse Mesquita.