
Protestantismo e pentecostalismo
Leopoldo Cervantes-Ortiz, CIDADE DO MÉXICO, México, Abril 10, 2006
Abril de 1906 marcou o início do chamado pentecostalismo clássico, em razão dos acontecimentos da Taxi Heathrow Airport rua Azusa, na cidade de Los Angeles. As múltiplas celebrações são uma excelente ocasião para discutir a importância indiscutível desse movimento (e suas transformações) para o cristianismo latino-americano e mundial.
Se se aceitar que já passou a época triunfalista na qual se falava, por exemplo, de que, para sobreviver, o protestantismo devia pentecostalizar-se e que, por outro lado, é um fato que o campo religioso latino-americano atual seria incompreensível sem a presença das igrejas e comunidades pentecostais, a ponto de que inclusive o catolicismo recebeu forte influência desses movimentos,[1] poder-se-á analisar com certa objetividade sua importância crescente na atualidade religiosa e social.
Carmelo Álvarez explicou assim a razão de ser desse crescimento: "Parte do êxito do movimento pentecostal moderno é que ele deu aos 'zé ninguéns' da história (José Cárdenas Pallares) esse valor que lhes corresponde como criaturas criadas à imagem e semelhança de Deus: a eles cabe um valor que perderam ou esqueceram. Assim, afirmam o seu próprio solo como cidadãos e cidadãs do Reinado de Deus".[2]
A experiência pentecostal, relacionada intimamente com o advento visível e comunitário do Espírito Santo, instalou-se como uma realidade religiosa que excedeu os limites impostos pelas igrejas às manifestações do sagrado e implicou o surgimento da idéia de pentecostalidade, bem definida por Bernardo Campos como uma das características predominantes da cristandade tocada pelo Espírito Santo, ou seja, "o carisma que torna possível a instituição eclesial".
Esse estudioso peruano traçou as linhas gerais de tal categoria teológica-eclesial, também em termos epistemológicos, pois subordina a práxis, o princípio, o imperativo, a hermenêutica e o kairós próprios dessas igrejas.[3]
"Nós saímos de debaixo das pedras", a frase de um chileno dita depois de uma exposição sobre o protestantismo histórico, mostra bem a percepção que muitos pentecostais tinham nos anos 80. Isso mudou gradualmente porque o pentecostalismo já constitui uma autêntica tradição religiosa, de raízes autóctones em sua grande maioria, graças à sua enorme capacidade para recuperar e expressar os anseios populares de libertação e busca de significado.
Como fez notar Cristian Parker a partir do Chile, essa tradição manifesta a prática de outra lógica, que se opõe o mesmo à globalização capitalista selvagem que a coisificação, próprios do âmbito urbano, em cujo seio se desenvolve dando livre curso a uma vida comunitária real e efetiva, assim como a formas de participação impensáveis em muitas regiões, países e igrejas da América Latina. [4]
Um exemplo do anterior é a maneira como se integram as mulheres no trabalho pastoral, sem maiores complicações dogmáticas, pois, como afirma a reverenda Rhode González, presidenta do Conselho de Igrejas de Cuba: "O batismo do Espírito e o repartimento de seus dons não é posse de um ou outro sexo. O Espírito derrama seus dons e reparte seus ministérios segundo lhe agrada, não obstante, a utilização social que deles se faz nas comunidades esteve restrita e permeada pelos preconceitos residuais".[5]
Assim, aparece bastante paradoxal que, na corrente contrária de algumas igrejas históricas, contrárias à ordenação de mulheres com base em argumentos bíblicos-teológicos, sejam as comunidades pentecostais, dominadas também pelo machismo e o caudilhismo próprios da cultura latino-americana, que recebem o benefício do trabalho pastoral das mulheres.
Às primeiras análises realizadas desde o protestantismo histórico, como o famoso livro "El refugio de las masas", de Christian Lalive D'Epinay (1968), dominados por um sentimento inconfesso de superioridade (e até de repugnância, ao menos nos anos 60 [6]), seguiu-se o reconhecimento da forma em que os pentecostalismos veiculam as esperanças de enormes conglomerados humanos, cuja diferença de fase social e econômica é, literalmente, contestada, mediante uma resistência religiosa e espiritual que pouco tem que ver com as sisudas observações de sociólogos e antropólogos.
Um caso aparte foi Walter Hollenweger, que escreveu uma análise sumamente minuciosa.[7] Atualmente, funciona uma instituição de estudos que leva seu nome(www.hollenwegercenter.net). Os pesquisadores atuais (Alberto Antoniazzi, André Corten, Paul Freston, Carlos Garma, Ricardo Gondim, Cecilia Loreto Mariz, Leonildo Silveira Campos, o el propio J.-P. Bastian, entre outros) assinalam claramente os matizes que o estudo do pentecostalismo requer, incluído permanentemente em todos os congressos sobre religião.
Uma das aproximações mais atentas foi o de Waldo César e Richard Shaull, quem, mediante estudo sócio-teológico, encontraram sólidas chaves de interpretação do papel do pentecostalismo para o futuro das igrejas cristãs. Uma de suas conclusões é digna de ser citada:
Mulheres e homens que vivem em meio à pobreza, desintegração social e violência, descobrem que sua luta cotidiana está colocada no contexto de outra Realidade, o Reino do Espírito - a qual circunda e permeia todos os aspectos de sua existência.
Através da experiência pentecostal, conectada com e dentro de tal Realeza, conhecem um Deus de graça e compaixão que está ao seu lado - e assim percebem todas as coisas ao seu redor de uma forma totalmente diferente. A nova experiência transforma suas vidas e freqüentemente as enche de alegria e esperança. Agora estão fortalecidos para reconstruir suas vidas, na medida em que lutam e encontram caminhos para superar os poderes destruidores que rondam suas vida.[8]
Essa perspectiva, mesmo quando não fecha os olhos perante os inegáveis excessos de muitos grupos pentecostais, reivindica os valores de uma práxis eclesial que arraigou, por fim, na idiossincrasia latino-americana, e chama a atenção para um diálogo possível de todas as tradições cristãs presentes no continente, que podem encaminhar-se para uma tarefa libertadora (no melhor sentido do termo) comum, na qual o cabeçalho confessional não seja um obstáculo diante das enormes dificuldades da população latino-americana.
César e Shaull conseguiram superar a aparente oposição entre pentecostalismo e libertação, pois, como é sabido, as massas de pessoas pobres não optaram por aquele que anunciava a teologia da libertação, mas por essa maneira de ser cristão. Desse modo, constituíram-se na força religiosa mais importante, diferentemente do que ocorreu com as Comunidades Eclesiais de Base.
Por outra parte, a realização do Encontro e da Cátedra Pentecostal Latino-Americana favoreceu a articulação de uma rede cada vez mais ampla de pensadores que, do interior dessa tradição, se interrogam e analisam o ser e o que fazer de suas igrejas, ao mesmo tempo em que refletem a partir de instituições de educação teológica e algumas páginas na web.[9]
Alguns nomes já são bastante conhecidos: Juan Sepúlveda, Luis Orellana y Elizabeth Salazar (Chile), Eldin Villafañe (porto-riquenho, a partir dos Estados Unidos), Bernardo Campos (Perú), Yara Monteiro (Brasil), Daniel Chiquete (mexicano, vice-decano da Universidade Bíblica Latino-Americana[10]).
Também é preciso destacar o surgimento de novas gerações de pesquisadores universitários. Talvez a única objeção que se possa fazer a esses esforços seja o caráter monotemático e reiterativo de alguns trabalhos bíblico-teológicos, pois se requer que essa perspectiva se abra também a outros horizontes, mesmo quando suas contribuições aparecem estimulantes.
Contudo, persiste ainda certo triunfalismo no espectro pentecostal latino-americano. Um exemplo disso é o livro "Latinoamérica em llamas", de Pablo Deiros e Carlos Mraida, no qual se interpreta a história pentecostal como uma espécie de consumação para a qual sempre se dirigiu a história da Igreja em sua totalidade.
Esses impulsos coincidem com a expansão de outros fenômenos, como a guerra espiritual e a chamada teologia da prosperidade, cujas manifestações estão presentes tanto em igrejas pentecostais como em grupos neopentecostais e carismáticos. Não resta agregar que o carismatismo apresentou-se como o pentecostalismo das classes média e alta, inclusive no interior do catolicismo, cujas cúpulas se encarregaram de patrocinar muitos desses grupos para que não entrassem na órbita pentecostal.[11]
Não posso terminar esse texto sem lembrar a amarga crítica do pastor batista cubano Raúl Suárez, ao referir-se a certas condutas divisionistas de igrejas pentecostais em anos passados, algo que necessariamente deve superar-se para transitar para outra fase de convivência e diálogo entre confissões e tradições que permita perceber a ação do Espírito Santo no mundo.
Lembrar o surgimento do pentecostalismo e reconhecer sua força expansiva não pode consistir somente na afirmação de vitórias espirituais parciais, quando ainda resta muito por fazer quanto à eficácia do testemunho cristão num mundo em crise permanente.
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[1] Cf. Jean-Pierre Bastian, La mutación religiosa de América Latina. Para una sociología del cambio social en la modernidad periférica. México, FCE, 1997.
[2] C. Álvarez, "La vocación ecuménica y el compromiso misional: perspectiva pentecostal", in Cuadernos de Teología, Buenos Aires, ISEDET, vol. XX, 2001, p. 137.
[3] B. Campos, De la Reforma Protestante a la pentecostalidad de la Iglesia. Debate sobre el pentecostalismo en América Latina. Quito, CLAI, pp. 90-97. Cf. Hilario Wynarczyk, "Religión y agenda política", en ALC Noticias, https://alcnoticias.org/articulo.asp?lanCode=2&artCode=1046. O livro de Campos, Experiencia del Espíritu. Claves para una interpretación del pentecostalismo. (Quito, CLAI, 2002), ocupa-se da identidade, a perspectiva social e a teologia pentecostais. Cf. Donald W. Dayton, Raíces teológicas del pentecostalismo. Buenos Aires-Grand Rapids, Nueva Creación-Eerdmans, 1991.
[4] Cf. C. Parker, Otra lógica en América Latina: religión popular y modernización capitalista. Santiago de Chile, FCE, 1993.
[5] R. González, "La participación de la mujer: un enfoque pentecostal bíblico teológico", in C. Álvarez, coord., Pentecostalismo y liberación. Una experiencia latinoamericana. San José, DEI, 1992, p. 186.
[6] Nesse sentido, recorde-se de algumas ênfases do livro de Pedro Wagner, ¡Cuidado que ahí vienen los pentecostales! Miami, Vida, 1968, cujo título mudou depois para: Avance del pentecostalismo en Latinoamérica (1987).
[7] Cf. W.J. Hollenweger, El pentecostalismo: historia y doctrinas. Buenos Aires, La Aurora, 1976.
[8] W. Cesar y R. Shaull, Pentecostalismo e futuro das igrejas cristãs. Petrópolis-São Leopoldo, Vozes-Sinodal, 1999, pp. 294-295.
[9] Véanse: www.geocities.com/atipalc, sitio da Rede de Teólogos e Pesquisadores Sociais do Pentecostalismo na América Latina e no Caribe; e www.pentecostalidad.org, Revista Latinoamericana de Teología Pentecostal.
[10] Cf. D. Chiquete, "Pentecostalismo y gracia: acercamiento a la doctrina en perspectiva dialógica", in Ministerial Formation, Genebra, Conselho Mundial de Igrejas, números 105-106, julho de 2005-janeiro de 2006, pp. 13-21, www.wcc-coe.org/wcc/what/education/mf105-6.pdf
[11] Cf. R. Arce y M. Quintero, ed., E. Carrillo, comp., Carismatismo en Cuba. Quito, CLAI, 1997. O trabalho de Israel Batista, "Del carismatismo revolucionario al carismatismo pentecostal", é sumamente cuidadoso ao emitir juízos.

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