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Quinta-feira, 8 de Novembro de 2007

Realidade de crianças nas ruas apresentada no programa Fantástico causa grande impacto no Brasil. [Foto: Dreams Can Be]
Realidade de crianças nas ruas apresentada no programa Fantástico causa grande impacto no Brasil. [Foto: Dreams Can Be]

Documentário choca e coloca a nação diante do espelho

Edelberto Behs, SAO LEOPOLDO, Brasil, Março 28, 2006

“Essa foi a primeira vez que o Brasil parou para se olhar no espelho”, escreveu Taxi Heathrow Airport em artigo para o jornal Zero Hora, de Porto Alegre, o cantor de rap MV Bill, um dos autores do documentário “Falcão – Meninos do Tráfico”, apresentado no programa Fantástico, da Rede Globo, no domingo, 19 de março.

Continua repercutindo, e forte, em círculos da sociedade as cenas dramáticas, quase todas noturnas e com a face dos garotos coberta, que quebraram a mesmice do Fantástico, um dos programas de grande audiência, levado ao ar no domingo à noite. A novidade foi a Globo ter apresentado o documentário.

“Falcão – Meninos do Tráfico” impactou. “Chocou o fatalismo das crianças que, desde pequenas, assumem a morte como coisa normal, fazendo parte de sua história desde o início. A gente não imaginava que isso existisse de forma tão cruel, tão existencial, no nosso meio”, declarou o ex-pastor presidente da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), pastor Huberto Kirchheim.

“Falcão” é o menino contratado pelo narcotráfico para vigiar e avisar a chegada da polícia ou de rivais. O documentário, dirigido pelo produtor de hip-hop Celso Athayde e MV Bill, mostra o envolvimento de crianças e adolescentes, muitos deles portando fuzil, revólver e até metralhadora, no comércio de drogas.

Ao todo, foram 90 horas de gravação, que resultaram no documentário de uma hora, com cenas tomadas em várias cidades brasileiras, entre elas Porto Alegre e Florianópolis, num trabalho que levou seis anos. O filme foi produzido pela Globo em parceria com a ONG Central Única das Favelas.

“Essa é uma realidade que está aí e não se quer vê-la, a mídia não quer ver”, analisou o professor Oneide Bobsin, da Escola Superior de Teologia (EST). Como você se sente, perguntou o entrevistador do documentário a um menino, de lá seus sete, oito, talvez nove anos, que vive sozinho no fundo de um barraco. “Não fico triste com nada”, respondeu, porque “vivo ‘se drogando’. Minha vida é só alegria”.

“As imagens são menos chamativas no documentário do que a fala, a gíria, o pensamento – ou a ausência de pensamento - dos entrevistados”, avaliou o colunista Marcelo Coelho, para a Folha de São Paulo. Imagens e fala mostram que “nossa sociedade tem preconceito contra pobre”, analisou Oneide Bobsin, lembrando que com a dotação de 1% do Produto Interno Bruto se resolveria muita coisa no campo social.

“Não sabemos o que o Lula vai fazer. Nossa parte, a gente fez”, declarou MV Bill depois de encontrar-se com o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, em Brasília. “Eu poderia ter virado um desses meninos. Se não fosse minha mãe, que me deu uma educação firme, poderia ter seguido por esse caminho”, desabafou o presidente.

“O que você quer ser quando crescer?”- perguntou o entrevistador a um falcão. “Quero ser bandido”, respondeu o menino. A falta de perspectiva dessa meninada é impressionante, apontou o professor Danilo Streck, do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos). O documentário mostra a relação do micro com o macro, os problemas estruturais e os seus reflexos no cotidiano, arrolou o professor.

“Meu sonho é ser palhaço. Quando eu fizer 18 anos, vou largar esse fuzil e procurar um circo”, prometeu outro menino. O documentário confirma pesquisa que a professora Valburga Streck coordenou na Vila dos Tocos, em São Leopoldo, sobre juventude contemporânea. Apenas um menino da vila leopoldense tinha a expectativa de estudar e ser um profissional liberal. Os demais queriam ser lavadores e guardadores de carro, na rua.

A desestruturação da família, a ausência da figura paterna – dos meninos falcões, nenhum tinha pai presente, ou morrera, estava preso, ou saíra de casa – e a falta de perspectiva ficam evidentes. Na Vila dos Tocos ou na favela do Rio. “O documentário questiona a sociedade, a nós, a igreja. Não nos questionamos e inquietamos o suficiente”, admitiu Kirchheim.

A referência do documentário é a antiviolência, destacou MV Bill. “Nossa referência são as vidas de pessoas violentadas pela exclusão, pela negligência social, pela falta de acesso à saúde, à educação. Violentadas pela falta de uma estrutura familiar. A referência de Falcão é o descaso total para com esse mundo que se envolve paralelamente, que se expande das ladeiras e dos becos pro asfalto. E o asfalto se declarou tocado, culpado após assistir ao documentário”, afirmou o autor.

Agora, prosseguiu, todos querem ajudar. “Mas o problema não se resolve assim. É uma longa guerra. Muitas batalhas têm que ser travadas em nome da paz, em nome da valorização da vida. Não é uma questão de querer ajudar agora. Tem que haver uma entrega total, uma consciência de que temos que nos reorganizar, nos reavaliar, recriar a nossa sociedade”, argumentou MV Bill.

As crianças, justamente elas que deveriam expressar esperança, choca vê-las indiferentes à vida, disse Kirchheim. Ele reportava-se a um dos falcões que mostrou, no documentário, indiferença à vida. “Se morrer, vou descansar. Há muito esculacho (esculhambação) na minha vida”. Depois, prosseguiu, “se eu morrer, vai nascer outro que nem eu”.

Dos 17 meninos entrevistados no documentário, 16 já morreram. Não se tem estatística de quantos outros meninos falcões tomaram o lugar dos que se foram.