Campanha contra filme não surtiu efeito
CIDADE DO MÉXICO, México, Agosto 21, 2002
A campanha da hierarquia e de organismos católicos contra a exibição do filme "O crime Taxi Heathrow Airport do padre Amaro" frustrou as expectativas: ela não conseguiu fazer com que as autoridades mexicanas proibissem a exibição do mesmo e suscitou o interesse do público em acorrer aos cinemas.
Diversos organismos católicos uniram-se ao bispo de San Cristóbal de las Casas, Felipe Arizmendi Esquivel, ao cardeal de Guadalajara, Juan Sandoval Íñiguez, ao primaz do México, Norberto Rivera, e ao presidente da Conferência Episcopal Mexicana, Luis Morales Reyes, para reivindicar da Secretaria da Casa Civil que proibisse a exibição do filme.
Em Monterrey, dezenas de religiosos e leigos católicos manifestaram-se contra o filme no dia de sua estréia na cidade e picharam os cartazes com a chamada "Viva Cristo Rei", o slogan dos chamados "cristeros" na guerra religiosa do início do século passado, e que durou quase dez anos.
O filme, baseado no livro homônimo do escritor português Eça de Queiroz, foi produzido pelo diretor mexicano Carlos Carrera, que contou com recursos públicos para executá-lo, autorizados por lei.
A polêmica ganhou as capas dos diários e espaços no rádio e na televisão. Jorge Serrano Limón, presidente de Cultura da Vida, uma confederação de instituições afiliadas ao Pró-Vida, do qual foi presidente, ingressou com ação na Justiça contra o secretário de governo, Santiago Creel, acusando-o de violar o regulamento da lei federal de cinematografia e autorizar a exibição do filme.
O subsecretário de Desenvolvimento Político, José Francisco Paoli Bolio, declarou que a Secretaria não vai ceder às pressões da Igreja Católica, nem modificar os critérios de exibição cinematográfica, baseados em lei.
Com a administração do presidente Fox, declarou Creel em entrevista coletiva de imprensa, a censura terminou no México. "Isso deve ser entendido com toda a clareza, porque essa será a política da atual administração", frisou.
Mas nem todos os católicos criticaram o filme. O padre jesuíta Luis Garcia Orso, representante no México da Organização Católica Internacional de Cinema (Ocic), agradeceu o diretor Carlos Carrera, porque, entende, ele ajudou os padres e a Igreja em geral a se conscientizarem de que "somos seres humanos débeis e que cometemos erros, mas também podemos reagir, melhorar e superar esses erros".
O filme, explicou Orso, apresenta alguns curas e um bispo, mas não pretende generalizar, ou seja, dizer que todos os sacerdotes cometem tais erros ou essas falhas, ou que a Igreja toda os cometa. O filme apresenta alguns pecados, comentou. "Parece-me corajoso que Carlos Carrega os tenha abordado. Ele é transparente e sincero ao fazê-lo. Não se pode dizer que pretende algo sujo ou algo desonesto, ou um ataque à instituição da Igreja", justificou.
O livro do escritor e diplomata Eça de Queiroz (1845-1900) ataca duramente o celibato sacerdotal e algumas práticas católicas, como o culto às relíquias. Em tom jocoso, Eça introduz um fundo moral no drama.
Denise De Rocchi
Este é o grande desafio de um trabalho de comunicação, saber medir as consequências de uma ação. Não é a primeira vez em que a tentativa de proibição de uma obra provoca um interesse ainda maior por ela. A forma como os protestos são conduzidos deve ser bem pensada, pois pode acabar servindo apenas para estimular a procura por um filme, livro ou disco. A exposição na mídia pode inclusive alçar uma obra medíocre a condição de arte ou best-seller.
