
Sanção a evangélicos no México
Leopoldo Cervantes-Ortiz, CIDADE DO MÉXICO, México, Março 3, 2006
Depois de vários dias, apareceram diversas reações à sanção aplicada a quatro líderes evangélicos mexicanos Taxi Heathrow Airport por participarem de reunião política no Estado do México.[1] Um dos atingidos, Abner López (ex-presidente da Igreja Nacional Presbiteriana do México, ex-reitor do Seminário da mesma igreja e atual diretor da Sociedade Bíblica), a figura mais visível, assinalou em entrevista para o diário Reforma (13 de fevereiro) que sua sanção era "injusta e não eqüitativa".
López afirmou: "Os hierarcas da Igreja Católica poderão dizer e falar, mas não lhes dirão nada, ainda que opinem, digam, não só Onésimo Cepeda [bispo de Ecatepec, Estado do México] senão Norberto Rivera [arcebispo primaz do México] [quem] chamou à desobediência [civil] e o Governo não lhe disse nada, mas o respaldou".
O líder evangélico agregou que a admoestação esteve fora de lugar, porque ele reportou sua renúncia como ministro da Igreja Presbiteriana desde março de 2005. Explicou que só foi à inauguração do diretório do Partido Unidos pelo México (Pum), onde orou por seus fiéis, mas que não chamou a votar por nenhum partido político. A sanção foi possível pela filtragem de um vídeo entregue por um grupo dissidente do partido em questão.
O bispo metodista Moisés Valderrama manifestou à Milênio (21 de fevereiro) o incômodo pela suposta parcialidade do Ministério do Interior, e exigiu que atue com eqüidade na aplicação da lei, já que "aos hierarcas católicos tudo é permitido".
Valderrama agregou: "Não é possível que, enquanto somos avisados, que é similar a uma admoestação, a Onésimo Cepeda, que faz o mesmo e com freqüência, a ele só dirigem uma exortação para que deixe de fazê-lo, e no dicionário exortar é sinônimo de suplicar".
Algo que se pode observar, em primeira instância, é que esses líderes não representam, nem de longe, a opinião das igrejas evangélicas, pois muitas delas consideram que se trata de excessivo protagonismo individual. É o caso de López Pérez, que foi, durante vários anos, porta-voz de um organismo que aglutinou setores evangélicos, e que recentemente teve aproximações com diversos partidos que, ao que parece, ofereceram-lhe alguma candidatura, segundo manifestou publicamente.
Pelo anterior, muito do que foi assinalado por Carlos Martínez García, em La Jornada ("Todos iguais, mas nem tanto", 1 de março), à margem das pontuais observações sobre os erros da dependência governamental dirigida pelo católico confesso Carlos Abascal, merece ser matizado. Sua argumentação segue a linha de López Pérez e Valderrama, no sentido de que as autoridades se excederam com os pastores precisamente pelo fato de sê-lo, quando na realidade incorreram numa falta que não foi reconhecida pelos acusados, pois como bem documenta Martínez, ainda que a atividade tenha se realizado a portas fechadas, a "tomada de protesto" dos dirigentes levada a cabo por López Pérez sai por completo das atribuições desse líder religioso.
Pareceria que as justas observações de Martínez sobre a dupla moral do Ministério do Interior, e sua debilidade para sancionar os hierarcas católicos, transformam-se no momento de referir-se à conduta dos líderes evangélicos. Coincidentemente, na mesma semana da sanção aos evangélicos, o bispo Cepeda foi citado pelas autoridades para apresentar-se (dia 17 de fevereiro) e responder por sua crítica a um candidato presidencial.
Com sua proverbial altivez, Cepeda ignorou o requerimento judicial, o qual, evidentemente, deu razão a Martínez, pois agora este prelado passou de ofensor a ofendido.
Contudo, é difícil interpretar esses acontecimentos como sinais da emergência de novos atores políticos, ainda que sejamos testemunhas de como uma agremiação política de cunho evangélico (Encontro Social, desqualificada por alguns dirigentes evangélicos[2]) pactuou algumas candidaturas com o candidato oficialista Felipe Calderón.[3] De agora até 2 de julho veremos o verdadeiro alcance dessa nova etapa de participação política dos evangélicos no México.
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[1] Veja o boletim do Ministério do Interior: www.gobernacion.gob.mx/templetas/boletin.php?id=4617.
[2] Cf. Reforma, 21 de fevereiro de 2006: "Pastores de distintas denominações evangélicas desqualificaram o Encontro Social, organização que manifestou apoio a Calderón. O pastor e presidente da associação Por um México Excelente (sic), Adoniram Gaxiola, expressou que Encontro Social não agrupa mais de dez congregações. 'Desafortunadamente, é cíclico que essas pessoas entram em relação clientelista com partidos políticos; elas não nos representam, a comunidade é sumamente plural', disse".
[3] Cf. Claudia Herrera Beltrán, "Medios de comunicación a cambio de apoyo, ofrece Calderón a evangélicos", em La Jornada, 1 de marzo de 2006; y C. Herrera Beltrán, "En breve, pacto de Calderón con evangélicos críticos de Fox", em La Jornada, 11 de febrero de 2006.

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